Ciberteologia
Revista de Teologia & Cultura
Edição nº 25 – Ano V – Setembro/Outubro 2009 – ISSN: 1809-2888
Da utopia à topia: dialogar para “fazer” chão neste mundo!
Diálogos noturnos em Jerusalém, entrevista do Cardeal Carlo Maria Martini ao Padre Georg Sporschill,[1] mostra como o exercício do sacerdócio, do episcopado, do ensino e a pesquisa da Sagrada Escritura não lhe tiraram a capacidade de dialogar. Disposto a ouvir perguntas e dar respostas, este jesuíta se mostra um homem sereno, um pastor responsável e um teólogo honesto, virtudes que desenvolveu no exercício do poder teológico-pastoral e conseguiu manter após a aposentadoria.
O andamento da entrevista é pedagógico. O religioso de muitas funções, grande diocese e expressiva influência sobre seus pares cede lugar ao ser humano que se defronta com diversos temas, pensa com clareza e responde sem tergiversar, mesmo sob o efeito de doença. A diferença básica é que a teologia não é presumida, não exige a repetição até se tornar verdade nem é jogada no vazio. Não esqueceu a Bíblia e os catecismos nem as orientações, mas a tudo tem como base do seu discurso.
Se a teologia que não responde às indagações, desrespeita os leigos e dispensa a participação das mulheres não é feita a partir da troca de olhares com outros saberes e julga que o público não percebe isso, segue perdendo-o. Em proporções que passam de aritméticas a geométricas. Por tais razões o discurso de Martini é pontifício (construtor de pontes). Ele demonstra que é possível assumir os avanços da Modernidade, admitindo que seu projeto não está concluído, mas tem futuro, e dispondo-se a ouvir as perguntas da Pós-Modernidade, sem jogar fora os aprendizados da Idade Média – dispensada a ilusão de a ela poder retornar – por inexequível.
Sabe que a fé é um risco, subtítulo que explica a atitude nicodêmica de escolher a noite para diálogos profundos, especialmente se o saber teológico se nutriu de certezas cartesianas e estabeleceu trocas com limitações estruturais, deficiências institucionais e incapacidades pastorais. Por vezes a escuridão se impõe à ordem social, jurídica, cultural e econômica, ensinou Martin Luther King Jr. no conhecido sermão É meia-noite. As afirmações de Martini têm sentido e densidade porque foram peneiradas em caminhada longa, de experiências diversificadas, nutridas do contato com guerrilheiros, jovens, cristãos tradicionais, intelectuais, políticos e religiosos.
O núcleo comum parece ser o diálogo e a frequência de contatos que relata mostra ser ele mais da praça que de palácios pontifícios, que não dispensa a rua no caminho da casa à sacristia e nem se furta ao contato, às audiências, às entrevistas, às visitas e aos debates. Discípulo de João XXIII, sua atuação – culta, interativa, dialogal e destemida – talvez seja das que melhor espelham o espírito do Concílio Vaticano II, catapultado ao centro dos debates sobre humanidades, como Agostinho nos séculos IV e V.
Sua fala é rica, esperançosa, aberta e generosa. Sabe-se caminhante que em muitos momentos é carregado pelos contemporâneos, pelas situações a que não podia faltar e pelas exigências a que não podia se omitir. Não usa palavras para aprisionar a realidade nem conceitos herméticos, mas fala em possibilidades, abertura e perguntas, em vez de momentos de impasse e inviabilidade, a que chama inferno (p. 26). A ternariedade do altar (celebrações), da sacristia (comunhão e preparação) e do contato com a gente (monocardia do sentire cum) permite esconjurar a tentação da absolutização. Por isso o humano que salta dessas páginas garante o diálogo com a atualidade.
Como a comunidade joanina, aprendeu a enfrentar o conflito com amor e a serenidade de quem descobriu o mistério em vaso de barro, transformando-o em estratégia pastoral de aproximação, contato e troca. Isso lhe deu força para denunciar o etnocentrismo europeu, chamar à superação do medo que gera agressões ao estrangeiro, injustiça contra os pobres e descaso com jovens e idosos. Lembrou as brigas de Jesus com os fariseus, insistindo que hoje “ele lutaria com todos os responsáveis na Igreja e lhes recordaria que sua tarefa é o mundo todo. Que não fiquem olhando para o próprio umbigo, mas olhem para além dos limites da própria instituição” (p. 36).
Ensinou que a oração é a forma de se aproximar das pessoas de outras religiões, ocasião em que, além das dificuldades, percebe soluções e volta a ter esperança. Crente na palavra de Jesus: “o Espírito sopra onde quer”, decidiu deixar que Deus o surpreendesse. Quando descobre os objetivos de Deus e como pode colaborar, sente-se capaz de sacrifícios e recebe coragem para viver. Comunidades de fé servem para edificar, fortalecer e animar as pessoas a caminhar para Deus, por isso é possível alegrar-se porque o outro é evangélico, muçulmano ou católico.
Discorre sobre a palavra magis para descrever o dinamismo experimentado quando se doa a vida a outros, gesto que não mortifica, mas torna a vida mais rica, excitante e missionária. Discutiu com os cardeais, na eleição do último papa, questões que pedem respostas novas, como a sexualidade e a comunhão para divorciados e recasados. Essas questões exigem decisões e talvez expliquem a ausência dos jovens, em busca de tesouros fundamentais em outros lugares. Eles ajudam a perceber quando se propaga um sentimento de saturação na sociedade, que pede fogo de entusiasmo. Eles têm algo a nos ensinar porque são a Igreja, concordando ou não com nosso modo de pensar. Seu papel é profético.
Confessa os sonhos e as ilusões perdidas em relação à Igreja: que caminhasse na pobreza e na humildade, que não dependesse dos poderes mundanos, que criasse ambiente de confiança, que pensasse em relação ao futuro, que encorajasse os solitários e que se tornasse jovem também. Mas já não tem esses sonhos. Hoje faz perguntas em relação ao futuro e espera encontrar-se com Cristo. Por causa da utopia de Teilhard de Chardin, de o mundo caminhar para Cristo, onde Deus será tudo em todos, pensa na unidade na qual é resguardado o próprio de cada um. “Só quando você tem uma visão é que o espírito o eleva acima de querelas mesquinhas” (p. 82).
Essa coragem lhe vem da disposição de enfrentar o risco, como quando visitou terroristas das Brigadas Vermelhas, conquistou-lhes a confiança, batizou-lhes os filhos e fez com que os que estavam livres entregassem caixas com armas. Do relacionamento ficaram amizades. Daí surgiu a convicção de que é preferível a decisão equivocada a não tomar nenhuma. Não se preocupa com os que saem, mas com os que não pensam e se deixam levar. Quem reflete vê as questões e segue em frente. Quem não se decide perde sua vida, lembrou Frei Betto em Batismo de sangue. “Quem tem coragem comete erros. Mais importante é lembrar que só os corajosos mudam o mundo para melhor. Os corajosos ganham amigos autênticos. Eles experimentam que o poder vem das mãos de Deus” (p. 87).
Sua leitura do Evangelho de João tratou da amizade com Jesus como algo capaz de mudar a vida, mais forte que o dever, a insistência ou a necessidade. Essa perspectiva teológica parece ter induzido João Paulo II a nomeá-lo arcebispo de Milão. Outro evangelista tocante é Lucas, cuja personalidade é inquieta: de esquerda, provocante, simpático com os oprimidos e comprometido com os enfermos. Sua consciência e confiança crescem em meio aos conflitos. Ele insere a dimensão social na Igreja já em seu surgimento e por isso caminha com os doentes, os não crentes, os que falharam e foram julgados sem misericórdia. Em Lucas Deus derruba os poderosos dos tronos, exalta os pequenos, alimenta os famintos, despede os ricos sem nada e se aproxima dos samaritanos. E é o único a falar dos jovens no caminho de Emaús, que caminharam toda a tarde mas só o reconheceram no partir do pão. Não surpreende que os evangelistas João e Lucas, anunciados por Martini, encantem os jovens!
Trata da noção de corporeidade e sexualidade decorrentes da encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI, que ainda obstaculiza conquistas do Concílio Vaticano II. Espera que o Magistério apresente um caminho melhor, dê passos e ajude a retomar o diálogo com a ciência. Sem ressentimento. Vê o mundo como mais sincero e mais aberto, sem a sexualidade confinada ao confessionário ou sob o domínio da culpa. Não se confronta com a libido da juventude, a homossexualidade e o divórcio, mas mostra como a postura rígida abandona gerações à solidão. Identifica pedofilia com doença e chama o crime contra crianças de terrível. Propõe uma Igreja aberta na teologia, dialogal na prática pastoral e com espaço para as mulheres. “Não precisamos ficar infelizes pelo fato de as Igrejas evangélicas e anglicanas ordenarem mulheres, introduzindo com isso algo essencial no contexto do grande ecumenismo” (p. 137).
Admite que a Igreja precisa de reformas e que a força para isso deve vir de dentro, desde as comunidades locais. “No Concílio Vaticano II, a Igreja Católica deixou-se inspirar também pelas reformas de Lutero e pôs em marcha um processo de renovação a partir de dentro” (p. 139). E termina propondo diferentes tarefas para a Igreja diante de dilemas do mundo atual. No capítulo final fala da luta em favor dos desprotegidos, para salvar vidas e contra a injustiça.
Quem se põe do lado das pessoas sem pastor, quem as reúne e as conscientiza, se torna perigoso para os detentores do poder [...] os teólogos da libertação da América Latina e até os que trabalham na área social em países ricos topam necessariamente com resistências, pois vivem da convicção que o encontro com os pobres e a luta contra a pobreza constituem lugar privilegiado do encontro com Deus em nosso mundo (p. 150).
Como João, pode dizer “eu sou a voz de quem clama no deserto”. Voz utópica, que afirma a um só tempo: ainda não há chão (topos), mas é preciso criar chão para a Palavra em nosso mundo.

