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Padre Zezinho, scj

Para que servem essas canções

“Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.”

Canção amiga,
Carlos Drummond de Andrade

 

Um álbum, como se sabe, não começa a ser feito entre as paredes acusticamente isoladas de um estúdio, mas muito antes, em qualquer lugar, em qualquer tempo. Se o trabalho sai do germinal de ideias de José Fernandes de Oliveira, então, isso pode ser dado como certo. No caso de De volta para o meu interior, nova produção do primeiro e mais longevo padre compositor popular brasileiro, é praticamente impossível cravar quando sua centelha criativa começou a brotar. Porque isso pode ter acontecido em qualquer instante entre 1964, quando esse mineiro de Machado, nascido em 1941 e criado em Taubaté (SP), no Vale do Paraíba, começou a ensaiar ao violão as suas primeiras canções, e 2013, quando ele, pela enésima vez, entrou nos estúdios da gravadora Paulinas-Comep. Ninguém se atreveria a dizer quando e como foi. Talvez nem ele mesmo se dê conta. Porque em meio século de carreira musical, que se completa em 2014, José Fernandes de Oliveira coleciona a impressionante – ao descrever sua obra, os adjetivos que ele próprio evita são inevitáveis – marca de 1.500 canções compostas e mais de 120 álbuns registrados. Sem falar de seus 80 livros, programas de rádio, TV etc – mas isso é uma outra história.

Quem é José Fernandes de Oliveira? Bem, aqui cabe um parêntese. Porque, de fato, nem todos sabem que, ao longo dos últimos 50 anos, esse nome foi se tornando rarefeito para dar consistência a outro. Que bem poderia ser Zé, Zezé ou mesmo Zeca, como de fato alguns pouquíssimos ainda o chamam. No entanto, quis o jeito brasileiro de ser, que procura dar um ar de familiaridade às pessoas conhecidas que se quer bem, que um certo Zezinho, vindo ainda da primeira infância, acabasse se impondo vida afora e caindo no gosto popular. E como apelido, uma vez posto, não se tira nunca mais nem por decreto, ficou. E assim foi irremediavelmente denominado o padre Zezinho, scj – dessas iniciais correspondentes à sua congregação, a dos Padres do Sagrado Coração de Jesus (Dehonianos), ele zelosamente não abre mão de forma alguma –, aquele que passou a ser alguém íntimo de todos nós, seus colegas, irmãos e filhos espirituais, incluindo aqueles muitos músicos que ele criou, revelou e lançou. E que, como ele mesmo diz, como os canários, deixa voar e solta pelo mundo assim que começam a cantar bonito. E com assertividade, pois pelo que se sabe nenhum deles jamais retornou para a gaiola.

Como os frutos, e os filhos, costumam se multiplicar em proporção geométrica, calcula-se que em função do movimento musical iniciado pelo padre Zezinho, scj, e pela gravadora Paulinas-Comep, nos anos 1960, existam hoje no País cerca de 2.500 bandas católicas, envolvendo mais de 30 mil intérpretes liderando o povo nas missas e respondendo por uma produção de mais de 500 álbuns religiosos por ano nas gravadoras e em produção independentes. Estima-se ainda que, hoje, mais de 500 cantores vivam da música religiosa no País, que acabou se transformando em um importante meio de expressão cultural do povo brasileiro.

Da mesma forma que se tornou íntimo dos brasileiros, desde o seu primeiro disco e a cada novo álbum que lança, o precursor da moderna canção católica popular no Brasil também ajudou a aprofundar a intimidade ou estreitar as distâncias existentes entre pais e filhos, irmãos e irmãs, amigos e estranhos, altares e assembleias, povo e igreja – em muitas ocasiões, verdadeiramente, suas canções apresentaram um ao outro e quebraram um eventual gelo entre as duas partes. Quantos brasileiros não optaram por viver verdadeiramente o cristianismo, ou mais especialmente, o catolicismo, inspirados em uma canção do padre Zezinho, scj? Quantos já não foram convertidos por uma de suas canções? Quantos não o imitaram em seus estilo e exemplo? E, assim, aplainando e endireitando os caminhos de uma liturgia árida, por vezes enviesada e proferida ainda em uma língua morta, esse sacerdote anteviu, como uma feliz profecia, a principal mensagem do Concílio Vaticano II, coincidentemente – ou será que não? – contemporâneo de seus primeiros trabalhos musicais. Padre Zezinho, scj, é, pois, o legítimo herdeiro e descendente de um tempo e de uma humanidade inquieta, inconformada e que legou ao mundo a cultura da comunicação, ora ainda em franco estudo e, graças também a ele, em desenvolvimento.

E mais do que íntimo de nossas casas e famílias, o padre Zezinho, scj, foi se tornando, nesse meio século de toadas, baladas e outras melodias, um amigo das canções. Talvez, o melhor amigo de todas elas. E como amizade é uma espécie de amor que nunca morre, como um dia disse o poeta gaúcho Mário Quintana, ele se tomou de afeição pelo oficio de compor, tocar, cantar e gravar. Fez de tudo isso uma espécie de missão. Nela descobriu um dom e uma graça. Só mesmo Deus, que atribuiu a ele esse talento, para fazê-lo parar ou calar. Mas, ao que parece, o Todo-Poderoso não tem esses planos por enquanto. Ao menos foi o que Ele deu a entender em setembro de 2012, quando o nosso sacerdote foi acometido por um Acidente Vascular Cerebral (AVC). A isquemia foi mais um aviso do Criador de que o padre Zezinho, scj, ainda era necessário a Ele e a nós. Um alerta para que se cuidasse mais para dar conta da missão à qual foi encarregado. “Vá mais devagar, meu amigo”, teria dito o Todo- Poderoso. “Para que ir a 120 quilômetros por hora, se indo a 80 você vai chegar do mesmo jeito?”, outros garantem que Deus disse a ele. “Tire um tempinho para você”, há quem diga que Ele ainda aconselhou. “Ainda não é hora de se aposentar”, garantem todos os seus amigos e admiradores que Deus afirmou.

De tanto pensar em Deus, e de conversar com Ele, o padre Zezinho, scj, entendeu esse recado. Nem discutiu com o Chefe. E como fazê-lo, se o Todo- Poderoso, com toda a sua gaiata e irônica sabedoria, sequer permitiu essa chance ao nosso sacerdote? Durante algumas semanas, a doença comprometeu exatamente... a fala do maior comunicador da Igreja Católica do País! Além de sua memória. Em menos de três meses, no entanto, e graças aos cuidados médicos e à assistência sempre pronta das Irmãs Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, a Igreja já tinha restaurado o seu principal comunicador. Que voltou disposto não apenas a falar, mas principalmente a fazer. E fez! Fez a paz acontecer, já em 2013, foi o primeiro álbum produzido por ele após a isquemia. Simultaneamente à composição das faixas de De volta para o meu interior, ele recrutou aos estúdios da gravadora Paulinas-Comep alguns de seus ex-canários – grupos Cantores de Deus e Ir ao Povo, e Luís Felipe, da banda Vida Reluz, e a irmã Ana Paula fsp, do grupo Chamas – para interpretar a maioria dos 14 cantos litúrgicos e celebrativos que compõem Fez a paz acontecer. Por que não solou todas as canções? Certamente, não pela insegurança provocada pela convalescença – os recursos técnicos de um estúdio de gravação sofisticado facilmente contornariam eventuais imperfeições –, mas por uma opção criativa e um princípio conceitual da obra. “Não se faz a paz acontecer sozinho, isolado num canto, mas sim coletivamente”, justificou – quem há de resistir a tal lógica? De resto, sua voz, já recuperada e límpida como antes, desponta em quatro canções. Não mais.

Padre Zezinho, scj, sabe melhor do que ninguém que a saúde pode ser tão delicada quanto uma nota musical. E respeita as determinações do Chefe, as limitações naturais do corpo e da idade. E o aviso que lhe foi dado. Por isso, nada mais de exageros, de trabalhar 15 horas por dia, de fazer longas turnês para palestras e shows sem dormir direito e de se alimentar de forma irregular – em 50 anos de atividades missionárias, o nosso sacerdote percorreu nada menos do que 40 países. “Agora encerrei meu ciclo de viagens pelo mundo e pelo Brasil, os shows, as conferências, as aulas e os cursos que ministrava”, afirmou ele a um repórter em uma de suas primeiras entrevistas após voltar à ativa. Desejada por todos, diga-se.

O melhor amigo das canções comemora, agora, seu meio século de caminhada musical, compondo e interpretando canções com moderação, catequizando o povo do melhor jeito que sabe. E até do jeito que ainda não sabe e precisa, humildemente, aprender e pesquisar. Em sua residência, no Seminário dos Dehonianos, em Taubaté, passa a maior parte do tempo lendo, pesquisando e meditando. “Estou mais para monge do que para missionário viajante”, admitiu mais de uma vez, sem perder a noção de sua humildade e de sua sabedoria. “Orem para que eu não me esqueça de aprender e de ouvir quem sabe mais do que eu. E também que diga o que penso que devo dizer, mas não me esqueça de pedir perdão, se minha comunicação ferir alguém. Espero que quem me lê e escuta diga comigo um grande aleluia por nossa Igreja”, afirmou logo após retornar aos estúdios o sacerdote compositor, que tem consciência de que uma canção pode não consertar o mundo, mas inspira os que podem consertá-lo. “É um excelente instrumento de motivação. A música, como a arte de modo geral, ajuda a dar um sabor especial ao que precisa ser feito, torna mais atraente um conteúdo. As canções amenizam nossa vida e nossa caminhada”, afirmou ele, em 2011, ao completar 50 anos de consagração religiosa.

O melhor amigo das canções também sabe, por outro lado, que elas são suas grandes amigas, desde que sirvam a determinados fins, como catequizar, evangelizar e aproximar a humanidade. Sejam elas um símbolo de paz, união, amor e fraternidade. E assim possam ser bem utilizadas por quem as cantam. “Uma canção, talvez, mantém o povo acorrentado. / Uma canção, eu sei, pode servir a um ditador / Uma canção, eu sei, pode enganar a multidão / Então me diz pra quê, pra quê que serve uma canção?”, escreveu o padre compositor em Uma canção talvez, onde ele mesmo responde: “Existe uma canção que pouco a pouco ajunta o povo / Existe outra canção que faz o povo celebrar / E existe uma canção que faz o povo mais irmão / Por isso e muito mais é que se faz uma canção”.

A César o que é de César. E às canções o que são das canções. Por mais que, na maioria das vezes por comodidade, leigos e religiosos o rotulem como um padre cantor, ele é mesmo um padre compositor que se utiliza das canções, e não se deixa utilizar por elas. “Resolvi colocar em canção o que meus irmãos mais cultos escrevem, conceitos que nossos teólogos, filósofos, sociólogos e liturgistas emitem. Eu sei musicar e popularizar o que eles dizem, e é o que eu faço. Formei grupos de leigos cantores que pudessem tocar, cantar e subir ao palco comigo, e decidi salientar o talento deles. Eles são artistas, eu não. Eu sou padre! Nunca me declarei cantor, embora aceite o título de padre compositor, escritor e professor”, afirma. Sem desmerecer suas amigas canções que tanto fizeram por ele, padre Zezinho, scj, entende, com realismo, que a canção é uma mera ferramenta numa Igreja que tem profecias muito maiores. “Digam isso aos irmãos que cuidam de drogados, mães solteiras, hospitais, povo de rua e escolas. Eles são mais profetas do que nós, que cantamos. Se a nossa canção não ajudar a profecia maior do louvor litúrgico e da caridade para com os pobres, então não vale a pena cantar. Que se exaltem as outras profecias e os outros profetas!”

Mas quem pode imaginar os efeitos provocados por quem ouviu, ao menos uma única vez, canções como Oração pela Família, Um certo Galileu, Estou pensando em Deus, Vocação, Maria de Nazaré? Quantas vezes, em alguma celebração religiosa, não fomos contagiados pela força persuasiva de uma canção assinada por esse sacerdote compositor, ou por alguns de seus descendentes espirituais ou artísticos? Quantas dessas canções não se converteram já em chamados vocacionais e despertaram, em algum jovem, o desejo de servir a Deus e, principalmente, aos seus irmãos? Quem ousaria afirmar que uma canção não seja capaz de levar à mais pura conversão?

Talvez seja para isso, e ainda alguma coisa mais, que sirva uma simples canção. Mas não vale a pena ir muito a fundo, pois qualquer resposta que seja dada às muitas perguntas acima formuladas, certamente estará condenada a ter um prazo de validade pequeno. As canções do padre Zezinho, scj, como as mensagens de um certo galileu que inspirou grande parte delas, são bens imateriais e atemporais. Continuarão a repercutir no espaço enquanto existir  pelo menos um ser humano com a capacidade de ouvir. Porque uma canção só precisa disso: de alguém que a ouça. As canções do padre Zezinho, scj, portanto, precisam de você, de mim e de todos nós. Porque sozinhas elas se tornam mudas e sem sentido. São obras inacabadas como os poemas não lidos de Drummond, os quadros não vistos de Dali ou Picasso, os filmes não assistidos de Kubrick, as peças de Brecht encenadas para uma plateia deserta.

Algumas novas canções do padre Zezinho, scj, nesse instante, dentro deste álbum que você tem nas mãos, estão nos chamando para serem ouvidas. Estão pedindo uma chance para entrar em nossas consciências, percorrer nossa corrente sanguínea, inundar nossos corações e chegar à flor de nossa pele. Elas, novamente, querem nos afligir, pedir para sairmos de nossas zonas de conforto. Querem nos incomodar, tirar um pouco, ou muito, da nossa paz preguiçosa. Querem pesar em nossas consciências de homens e mulheres satisfeitos, confortados e bem nutridos, questionar a sabedoria do nosso senso comum. Deixar-nos preocupados com as injustiças que fingimos não ver. Querem questionar algumas ordens preestabelecidas e valores da sociedade, perguntar se ainda há famílias se abrigando debaixo das pontes, saber quem fez fortuna e enriqueceu, quem se entregou a qualquer ideologia e por ela quer matar ou morrer e, assim, corromper.

Sorte nossa que, hoje, a exemplo do que ocorria durante a ditadura militar, o padre Zezinho, scj não pode mais ser censurado em palavras como essas. O carimbo “vetado” não cabe mais em suas letras. O cidadão padre Zezinho, scj, que muitas vezes percorria o Brasil tendo ao lado um cearense considerado subversivo, e cujo simples nome – dom Hélder Câmara – na grande imprensa sequer podia ser mencionado, hoje felizmente pode cantar para o “menino pobrezinho da América Latina, que a justiça reinará”. Basta que tenhamos ouvidos para ouvir. Não adianta, aqui, fechar os olhos para as suas canções, porque elas não entram pelas retinas. E por mais que se tente pôr as mãos nos ouvidos, um acorde, no mínimo, sempre entra cabeça adentro e começa a germinar. Talvez seja essa a razão de ser das canções, mesmo as ouvidas uma única vez. E as que aqui estão, certamente, você vai querer ouvir mais de uma vez.

Então, por que não se entregar de vez a essas canções? Aprender a dialogar com elas e fazer delas parte de nossas vidas, como propôs, certa vez, Ronaldo Bastos, parceiro de outro mineiro – por adoção e de coração –, Milton Nascimento, na bela Canção do Novo Mundo: “As canções / Em nossa memória vão ficar / Profundas raízes vão crescer / A luz das pessoas me faz crer / Eu sinto que vamos juntos”.

O padre Zezinho, scj, está batendo em nossa porta e pedindo para cantar. Vamos deixá-lo, pois, cantar. O padre Zezinho, scj, está em De volta para o meu interior e para o interior de todos nós. 


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