Violência silenciosa

Data de publicação: 22/10/2013

Cleusa Thewes *


Violência doméstica, uma ferida invisível que marca profundamente a vítima. Qual o papel da sociedade e da mídia, da família, diante de um problema tão grave e com tanta máscara?

Violência doméstica escondida no silêncio familiar. Eva, 55 anos, vive uma triste situação familiar. Mãe de quatro filhos, sustenta a casa só com a aposentadoria. Seu marido é dependente do álcool e ela sofre agressões psicológicas. A filha, de 18 anos, escrava do crack, substitui pela droga os alimentos da família, o celular da mãe, a televisão, o botijão de gás, os armários da cozinha, os agasalhos dos irmãos e até as tábuas das paredes da casa. Agride fisicamente mãe e manos. Internada várias vezes, fugiu e recaiu.  Eva também adoeceu, porque já não dorme, vigiando dia e noite o que ainda lhe resta dentro da casa.

Júlia, 19 anos, guarda em segredo a violência sexual sofrida aos 16 anos. O pai a estuprou. Ela desabafa: “Não posso denunciá-lo, pois não tenho para onde ir e minha mãe morreria se soubesse do fato”. No caso, agressor e vítima convivem, sob o mesmo teto, cúmplices de um segredo criminoso. Situações idênticas à de Júlia são comuns. As vítimas sentem medo das ameaças do agressor. Fragilizadas, não denunciam. São crianças e jovens submissos ao mundo oculto da violência.

Impotentes vítimas − O que é a violência doméstica? São os maus tratos físicos, morais e psicológicos sofridos dentro de casa, tais como: ofensa, abandono, agressão física, abuso, violência sexual, castigo. Nos lares em que impera a violência, não há lugar para o amor, o crescimento físico e psicológico sadio, o cuidado mútuo, a solidariedade, a fraternidade. Idosos, mulheres, jovens e crianças tornam-se impotentes vítimas da violência doméstica. Os jovens, em resposta à violência do lar, tornam-se, em regra, escravos de drogas, passando, por sua vez, a torturar, amedrontar e escravizar os familiares. Em qual encruzilhada se perdeu a delicadeza dos valores fraternos?

A miséria humana costura retalhos de debilidade, indiferença e violência no relacionamento familiar. O Documento de Aparecida, no 78, eticamente denuncia causas do desequilíbrio na convivência: “A idolatria do dinheiro, o avanço de uma ideologia individualista e utilitarista, a falta de respeito pela dignidade de cada pessoa, a deterioração do tecido social, a corrupção inclusive nas forças da ordem e a falta de políticas  públicas de equidade social.” Essas causas favorecem o silêncio da violência. A dor calada, nos lares, na sociedade, clama por protagonistas que assumam a causa do restabelecimento da dignidade humana.

“Nesta hora da América Latina e do Caribe, é imperativo tomar consciência da situação precária que afeta a dignidade de muitas mulheres. Algumas, desde crianças e adolescentes, são submetidas a múltiplas formas de violência dentro e fora de casa”, nos relata o Documento de Aparecida, no 48, que identificou com peculiar preocupação, na sociedade atual, várias formas de violência: “tráfico, violação, escravização e assédio sexual; desigualdades na esfera do trabalho, da política e da economia; exploração publicitária por parte de alguns meios de comunicação social que as tratam como objeto de lucro”.

Olhos da compaixão
– Esta macroagressividade oculta-se, num silêncio dolorido, nos rostos violentos e violentados da realidade intrafamiliar. As famílias estão enfermas e carentes do amor, do pão, da inclusão, da justa divisão material, os quais, vindo a existir, a todos oportunizarão espaço, dignidade e um pertencimento social, moral, econômico e emocional adequado. Famílias subjugadas pela violência pedem socorro. Temos de aprender a contemplar, ainda que com certa inquietação, o rosto dos que sofrem. Urge acessar os olhos do cuidado e da compaixão. Isso nos levará a vivenciar a súplica do querido Mestre Jesus: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,12).

No n 409 do Documento de Aparecida, podemos ler o alerta: “A situação precária e a violência familiar com frequência obrigam muitos meninos e meninas a procurarem recursos econômicos na rua para sua sobrevivência pessoal e familiar, expondo-se também a graves riscos morais e humanos”. As famílias machucadas aguardam os samaritanos do cuidado e da paz. Que a ordem moral e os direitos humanos renasçam neste berço esplêndido chama- do Brasil.

“Socorre-nos da violência doméstica, nossa Mãe Aparecida.  Amém!”

 *Terapeuta familiar e especialista em orientação familiar.

Fonte: Família Cristã 918 - Jun/2012
Inserido por: Família Cristã




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