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Parte
Final - Novas relações
Finalizamos neste mês o artigo que refletiu a mensagem
do Papa Bento XVI para o 43º DIA MUNDIAL DAS COMUNICACÕES:
"Novas tecnologias, novas relações.
Promover uma cultura de respeito, de diálogo, de
amizade”
Joana T. Puntel .
Considerando o quadro evolutivo da trajetória da
comunicação, mencionado brevemente, e a provocação
que a cultura midiática cria e re-cria na sociedade
hoje, damo-nos conta de que algo, nunca vivido anteriormente,
está se passando e “forjando um novo sujeito”
na sociedade, onde permanecem necessidades fundamentais
do ser humano, mas modificam-se rápida e profundamente
a sua forma de se relacionar. É o que constitui o
aspecto antropológico-cultural da mensagem de Bento
XVI em seu tema “Novas tecnologias. Novas relações”.
Colocada no contexto da “pós-modernidade”,
a comunicação não se restringe a mais
um único setor da atividade humana (aquele dos meios
de comunicação social). Ela inaugura o advento
de um complexo modo de viver, redistribui e interage com
a cotidianidade das pessoas, onde se constroem os significados
através das formas simbólicas e da diversidade
da linguagem da mídia. Já advertia André
Lemos a respeito do ciberespaço, como um novo ambiente
que cria uma nova relação entre a técnica
e a vida social , espaço onde se encontram as culturas
e os vários modos de pensar, de agir, de sentir.
O eixo fundamental reside no fato de compreender o que
significa encontrar-se diante de uma verdadeira “revolução”
tecnológica que exige ir além dos instrumentos,
e tomar consciência das “mudanças”
fundamentais que as novas tecnologias operam nos indivíduos
e na sociedade, por exemplo, nas relações
familiares, de trabalho, entre outros. A questão
não se coloca, portanto, entre o aceitar ou rejeitar.
Estamos diante de um fenômeno global, que se conjuga
com tantos outros aspectos da vida social e eclesial. As
palavras de João Paulo II na encíclica Redemptoris
Missio são claras: “Não basta usar (os
meios) para difundir a mensagem cristã...mas é
preciso integrar a mensagem nesta “nova cultura”
criada pela comunicação social” (n.
37 c).
A questão de fundo, portanto, já não
é apenas reconhecer que os meios de comunicação
passaram, em pouco tempo, de emergentes na vida social,
para uma centralidade na maneira de estruturar e explicar
essa vida social. A questão de fundo ultrapassa o
“reconhecer” e reside na sua significação,
ou seja, no seu lugar social.
Coloca-se, então, aqui o ponto fundamental na discussão
atual da cultura digital ou seja, no fenômeno das
novas tecnologias, é preciso fazer atenção
para não considerar a convergência somente
como um processo tecnológico que une múltiplas
funções dentro dos mesmos aparelhos. Mas,
a convergência, segundo Henry Jenkins representa,
sim, uma transformação cultural, na medida
em que consumidores são incentivados em procurar
informações e a fazer conexões em meio
a conteúdos midiáticos dispersos. Trata-se
ce uma “cultura participativa” que contrasta
com noções mais antigas sobre a passividade
dos espectadores dos meios de comunicação.
Em vez de falar sobre produtos e consumidores de mídia
como ocupantes de papéis separados, podemos, agora
considerá-los como participantes interagindo de acordo
com um novo conjunto de regras que nenhum de nós,
realmente, entende por completo. De maneira que a convergência
não ocorre, continua Jenkins, por meio de aparelhos,
por mais sofisticados que venham a ser. “A convergência
ocorre dentro dos cérebros de consumidores individuais
e em suas interações sociais com outros”.
Refletimos, então, nas novas relações
que as novas tecnologias vem provocando e já realizando,
como vimos ao longo do texto. Mudam as formas, mas a necessidade
humana de nos relacionarmos permanece. É de grande
importância reter o conceito fundamental de que o
ser humano vive a dinâmica constante de auto-compreensão
de si mesmo, bem como de auto-construção.
É por isso que sempre falamos de sua necessidade
intrínseca de estar em relação consigo
mesmo, com a sociedade, com o outro e com o transcendente.
O ser humano busca sempre a relação, o contato
com o outro.
Especialmente, na cultura digital, é enorme a capacidade
de relação dos indivíduos com os inúmeros
ambientes de informação. São as famosas
interfaces, pois se colocam entre os usuários e tudo
aquilo que eles desejam obter. O mundo está a um
clique, onde se encontram informações, também
o excesso, a escolha, a incerteza: isto é, a manipulação
de dados, imagens, sons, as conexões através
da Web, a formação das comunidades virtuais,
oportunidades de protestos, de defesa de direitos humanos,
convites às mais variadas formas de participação...
formam o dia-a-dia do individuo hoje. Isto implica em novas
relações (R.Costa, op.cit).
Algo importante, porém, é preciso enfatizar
na transformação comunicacional: nas múltiplas
formas de conhecer, ser e estar, portanto, nos usos das
novas tecnologias, “a mente, a afetividade e a percepção
são agora estimuladas, não apenas pela razão
ou imaginação, mas também pelas sensações,
imagens em movimento, sonoridades, efeitos especiais, visualização
variada do impossível, encenação de
outras lógicas possíveis de construir realidades
e se construírem como sujeitos.
“...Promover uma cultura de respeito,
de diálogo, de amizade”
Partindo, então, do novo mapa, ou da re-configuração
do processo comunicacional, na sociedade contemporânea,
somos convidados a pensar que a sociedade atual se rege
pela midiatização, quer dizer, pela tendência
à virtualização das relações
humanas, à excitação de todos os sentidos
e emoções, à provocação
do imaginário e dos desejos. Hoje, o indivíduo
é solicitado a viver pouco auto-reflexivamente e
mais na superficialidade do que percebe, sabe e sente. No
horizonte comunicacional da interatividade absoluta, põe-se
em primeiro plano o envolvimento sensorial, a pura relação.
A própria recepção ou consumo dos produtos
midiáticos pode ser vista como uma atividade rotineira
integrada em outras que são características
da vida cotidiana.
Daí a importância de além de observar
esse fenômeno, é necessário educar para
a relacionalidade e trabalhar com cuidado as interações,
os usos e os consumos no contexto das dinâmicas culturais.
Assim, a atenção se volta, primeiramente,
para os processos que estão envolvidos na recepção,
para o modo de construir significados e para os mecanismos
de re-significação e aplicação
da simbologia midiática entre outros aspectos. Aí
ocorrem os processos de negociação, de significação,
dos novos sentidos. Pois, como vimos, com as novas tecnologias,
aonde estamos imersos, não temos mais simplesmente
novos aparatos, mas sobretudo novos espaços simbólicos,
geração de significados, formas inéditas
de relações, oportunidades de novas identidades,
novos sujeitos.
A mensagem de Bento XVI, para este 43º Dia Mundial
das Comunicações vem nos dizer, entretanto,
que, justamente, nesse novo panorama comunicacional, por
vezes assustador, está a oportunidade de promover
uma cultura de respeito, de diálogo, de amizade.
Tudo depende de uma pessoa bem formada nos princípios.
Isto requer:
- sistemas educativos que apontem,
desde a infância, para essa possibilidade (e para
isso, os documentos da Igreja, sobretudo Igreja e Internet
e Ética na Internet -2002, são enfáticos
sobre tal necessidade). Uma educação (escolas,
Universidades), competente em compreender e discutir as
modalidades e linguagens comunicacionais contemporâneas,
apresentando e dialogando sobre os valores essenciais da
pessoa humana, sob o ponto de vista humano-cristão.
Assim, o conteúdo que circulará nas “interatividades”
existentes na cultura digital será de respeito, de
amizade e de valorização do ser humano. Trata-se
de grande oportunidade para a educação, pois
toda a expressão comunicacional será o “produto”
daquilo que a pessoa tem dentro de si, como princípio,
como valor;
- a produção de programas
(softwares, etc) e conteúdos que favoreçam
uma plataforma que favoreça e promova o desenvolvimento
de conteúdos que constroem e alimentam o respeito,
a dignidade e as relações de amizades e bem
estar do ser humano. A circulação desses valores,
nas interconexões, nas interfaces que as novas tecnologias
nos proporcionam, dependem também da criatividade
de quem produz comunicação – os operadores
da comunicação. Reside aqui uma tarefa de
grande responsabilidade para esses profissionais e a quem
o Papa faz um apelo todo particular. De modo especial, são
eles os atores principais na construção de
uma sociedade pautada nos valores e a quem devemos apoiar
e nos unir.
Oxalá, a mensagem de Bento XVI seja de estímulo
para a discussão, o debate, a conscientização
e para novas criatividades, dentro e fora da Igreja, para
a construção de uma sociedade comunicacional
baseada na promoção do respeito, do diálogo
e da amizade. Valores estes constitutivos da evangelização,
missão essencial da Igreja.
Cenário
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