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Cenário cultural

Premissas indispensáveis para olhar a sociedade
       (Joana T. Puntel)

Ao considerar as mudanças que ocorrem na sociedade de hoje, num horizonte crescente de globalidade, quer econômica, quer cultural, torna-se imperativo colocar-nos diante de algumas premissas indispensáveis para a reflexão sobre o modo de perceber a sociedade em que atuamos. São elas:

ADMITIR que existe uma mudança de época.

Há uma profunda e intensiva mudança acontecendo na sociedade. Encontramo-nos em uma nova fase da história. Vivemos uma época da história com sinais evidentes de transição. Em tais momentos, o ser humano passa sempre por uma sensação de vazio, de falta de senso e de normas, de incertezas e de crises permanentes.

Estamos presenciando um fenômeno novo: o processo de globalização, que vem através do mercado, da política, da estratégia militar, da ciência tecnológica, da comunicação e da espiritualidade. Hoje existe um consenso quase unânime entre os analistas da sociedade mundial sobre o fato de que, realmente estamos atravessando uma grande mutação cultural e civil. Estamos entrando em uma nova fase do processo humano, em um novo percurso da consciência e em uma nova era do planeta Terra. Tal constatação não é indiferente às religiões mundiais e ao cristianismo. Temos a necessidade de acolher o fenômeno e compreender a lógica que comanda e direciona o processo de mutação.

O modo de PERCEBER a sociedade

Trata-se do nosso posicionamento diante dos fenômenos que acontecem na sociedade hoje. Nosso itinerário não segue necessariamente caminhos científicos sobre o significado da "percepção", mas adota uma forma pedagógica simples, que pode nos auxiliar na reflexão pessoal e comunitária sobre o nosso modo de situar-nos diante da mudança da realidade. Podemos dizer que o modo de "perceber" a mudança existente vem ligado a uma "lógica" na qual podemos distinguir três vertentes.

A primeira vertente segue sobretudo a linha dos sentidos (ver, tocar, olhar...). É o constatar, num relance, as coisas que mudam, perceber como são absorvidas por nós, sem que nos demos conta disso; "respira-se" uma atmosfera da qual é impossível livrar-se. É uma lógica baseada sobretudo na linha do óbvio, de uma descrição cronológica dos fatos (o rádio e o telejornal dizem...; verdade mesmo é porque apareceu na Tv...Todos fazem assim; toda gente se veste assim..., como desta maneira... portanto, nós também!). Captar que algo de diferente acontece e que precisa ser por nós absorvido segue a linha do "automatismo", do "sentir", sem a colocação de questionamentos mais profundos.

A segunda vertente do perceber a mudança consiste numa leitura que vai além do sentir, do constatar, do enumerar os eventos. É o analisar a história de modo mais racional - uma leitura sobre o porquê se faz assim; ou aonde se vai fazendo desse modo; ou que coisa motiva a sociedade a agir dessa maneira; e quem induz a fazer deste ou daquele modo. Ou seja, ao "sentir" a realidade, se pensa, se analisa e se reflete sobre a visão global de causa e efeito, por exemplo, tendo presente as características principais que constituem um ponto de partida ou de chegada desta ou daquela situação, de certeza ou de confusão do nosso tempo. Essa vertente requer discernimento para uma escolha de vida de acordo com os valores, para se tomar decisões acertadas, para assumir o novo mas não, necessariamente, a novidade.

A terceira vertente é o perceber, segundo o Espírito, a presença de Deus na escuta atenta aos seus sinais hoje. A evangelização deve caminhar em sintonia com os sinais dos tempos e do espaço. Acolher tais sinais significa acolher o momento histórico e as situações que lhe são próprias, como "lugar teológico" e "interpelação de Deus". A missão da Igreja se desenvolve a partir da fé, como experiência de Deus, enquanto elemento fundante e como realização do encontro com todas as coisas contempladas, à luz de Deus, em um tempo e espaço determinados. Os apelos do Espírito ressoam na hora histórica que nos é dada viver. É esta a "hora de Deus" , o tempo da graça para todos.

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