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A missão das rádio católicas
(Ir. Helena Corazza, fsp*
)
O tema "A missão das rádios católicas" nos reporta à questão da identidade e ao perfil das emissoras de Igreja. É importante parar e refletir em meio à prática intensa do dia-a-dia como é o do fazer rádio. A partir do momento que sabemos quem somos, como vivemos, definimos o que fazemos, nos organizamos em vista dessa missão.
Todos sabemos que a missão do cristão é viver o mandato de Jesus: "Ide e fazei com que todos os povos se tornem meus discípulos" (Mt 28,19). E a Igreja levou e leva adiante essa missão, inserida nas diferentes culturas e contextos. E o rádio foi um dos meios populares assumidos, tanto que em 12 de fevereiro de 1931, a Rádio Vaticana, instalada por Marconi, foi inaugurada, durante o pontificado de Pio XI. No Brasil, a primeira concessão católica é de 1941 (Rádio Excelsior de Salvador), durante o governo Vargas . No Paraná, a primeira rádio católica é a Legendária, Lapa, de 25 de novembro de 1950.
Podemos nos perguntar: por que a Igreja entrou no Rádio? - Sem dúvida alguma, logo depois da imprensa, o Rádio foi visto como um espaço para a evangelização. É claro que a Igreja percebeu que o Rádio é um veículo popular e quis difundir, por meio dele, a mensagem cristã. Talvez o pensamento inicial tenha sido de "prolongamento do púlpito", já na época, preocupada com a "concorrência" de outras denominações religiosas, que marcavam presença no rádio.
A história da radiodifusão católica no Brasil, desde a criação da UNDA/Br, no dia 28 de abril de 1976, tem sido uma busca de articulação para viver juntos um ideal e uma missão: organizar-se para encontrar apoio recíproco na programação, auto-sustentação e questões técnicas. Daí veio toda organização por regionais com encontros periódicos. (Em 200.... as organizações católicas internacionais OCIC e UNDA se fundiram numa nova organização chamada SIGNIS - www.signis.net.) A organização dos regionais da UNDA articulou-se no espírito do Concílio Vaticano II, das conferências da América Latina, sobretudo de Medellín e Puebla, levando adiante os ideais e a utopia da comunhão e da participação.
Uma rádio para a situação atual do Brasil
A memória de alguns pontos da Assembléia da UNDA/Br de 1989 que abordou esse tema, buscando o perfil da emissora católica, talvez nos ajude a iluminar a nossa realidade hoje. Alguns pontos que refletiam a identidade, nessa assembléia, foram:
1. "Evangelizar, comprometendo-se com a causa do Evangelho e levando a um questionamento permanente através de
- anúncio e denúncia;
- desenvolvimento da consciência crítica, deixando-se iluminar pelas Diretrizes Pastorais da Igreja no Brasil;
- evangelização interna (diretoria e funcionários) e externa ( clientes e público).
2. Colocar-se a serviço da comunidade
- na prestação de serviços
- sendo a voz dos anseios da comunidade, numa dimensão transformadora e profética".
O contexto mudou, mas os desafios continuam os mesmos. Hoje buscamos respostas para essas mesmas questões: evangelizar de maneira comprometida com a transformação da realidade e manter um relacionamento com a comunidade tantos nos serviços quanto "sendo a voz dos anseios da comunidade, numa dimensão transformadora e profética".
A dimensão profética, do compromisso com a transformação da realidade nos vem desde o Vaticano II e a tomada de consciência da realidade latino-americana. A Igreja assumiu essa causa e colocou suas mídias, sobretudo impressa e radiofônica, a serviço dessa causa. Tanto que, no mundo da radiodifusão católica, é conhecida a frase: "A igreja optou pelos pobres e os pobres optaram pelo rádio".
Com a influência norte-americana, sobretudo dos grupos pentecostais protestantes, foi surgindo uma nova maneira de presença da religião na mídia. Nos Estados Unidos o rádio surgiu em 1920. Dois meses depois de sua inauguração já havia programas religiosos de linha pentecostal, no Rádio. Esses programas por televisão e também por Rádio, na década de 1970 e 1980, vieram por redes e foram influenciando a maneira de pensar e fazer a comunicação também na Igreja católica. É conhecido e foi bastante comentado o projeto Lumen 2000 com lideranças no Brasil que hoje são concessionários de Redes de TV e Rádio, seguindo linha da Renovação Carismática católica.
A influência pentecostal protestante, e também católica, tem premissas diferentes das emissoras que trabalham comercialmente, no que diz respeito à abordagem da comunicação e, sobretudo, da manutenção dos veículos de comunicação. Enquanto a radiodifusão católica se estruturou segundo o sistema brasileiro, onde a mídia eletrônica é mantida pela publicidade ou apoios culturais, de acordo com a forma de concessão, esse modelo entende que os fiéis devem manter os programas com doações. Criou-se também a modalidade do "Clube dos sócios", ou dos amigos, para caracterizar as contribuições voluntárias dos ouvintes.
Uma das primeiras experiências conhecidas desse modelo, no meio católico, é o programa "Anunciamos Jesus" da Associação do Senhor Jesus, na TV Bandeirantes, na década de 80. Ao mesmo tempo, a partir de 1978, também começavam as experiências de rádio do grupo Canção Nova. E assim forma surgindo comunidades e grupos que entenderam o sustento das emissoras mais como doação e não seguindo o caminho da comercialização.
Globalização, redes e cenários de Igreja
Vivemos na era da globalização e da organização em redes. Estamos, sobretudo, num momento de grandes mudanças culturais, tecnológicas, eclesiais. Já não temos um único cenário de Igreja. Segundo o teólogo padre Libânio, são quatro os cenários de Igreja: a da instituição, a carismática, da pregação e da práxis libertadora . Esses cenários se refletem no modo de fazer rádio. Aqui surgem entendimentos diversificados em relação ao conceito de evangelização e de comercialização ou publicidade. Em relação ao conceito de evangelização
O entendimento de que a mídia é aberta a um grande público e a Igreja se serve dela para a evangelização, quer dizer, o primeiro anúncio, desenvolveu uma prática de comunicação aberta a temáticas que interessem ao ser humano. A diversidade de interesses faz parte da grade de programação das emissoras católicas, como a informação, prestação de serviço, entretenimento e religião. Seguindo as orientações do Concílio Vaticano II, a comunicação católica trabalhou conceitos abrangentes, entendendo a Igreja como presença no mundo, convivendo com diferentes realidades e sendo fermento na massa. Essa mesma postura é mantida pelas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil com três eixos ou exigências: pessoa, comunidade e construção de uma sociedade justa e solidária .
Mesmo assim, há a tendência de reduzir a evangelização ao conteúdo apenas religioso, devocional e doutrinal, entendendo que evangelizar é falar de religião o dia inteiro. Em outras palavras, a tendência de reduzir os conteúdos da evangelização pelo rádio à sacristia. O entendimento e a orientação que o bem-aventurado padre Tiago Alberione deu às suas congregações que nasceram para evangelizar pelos Meios de Comunicação foi essa: "Não é preciso falar de Deus o dia inteiro, mas falar de modo cristão de todas as coisas". Atualmente, a Igreja entende e orienta a evangelização pelo rádio de modo mais amplo: Priorizar o rádio como instrumento de evangelização, entendendo que a notícia que fala de vida e de esperança é também evangelizadora . Em relação à comercialização
Conforme o modelo brasileiro, a comercialização possibilita a sustentação econômica das emissoras, que, no caso das rádios católicas, muitas vezes, também são mantidas ou apoiadas por fundações. Há um outro modelo, a partir da década de 1990, que se apóia prioritariamente nas doações dos fiéis para a sustentação das emissoras e não mais pela publicidade. É uma forma de buscar soluções para a programação, a subsistência e para a tecnologia. Pelo que se escuta em algumas ocasiões pelos evangelizadores/as desse modelo, passa a impressão de que o dinheiro que vem por ofertas é mais "limpo" do que aquele que nos chega pela publicidade. Talvez ainda um resquício da dificuldade que, historicamente, a Igreja teve de lidar com o dinheiro e que precisa ser mais refletido e amadurecido. Voltamos à orientação da no documento 59 da CNBB para que as emissoras para que sejam competitivas e tenham auto-sustentação: profissionalizar a emissora diocesana para que seja competitiva e obtenha a auto-sustentação .
Vale lembrar o cuidado com o "marketing da fé" , conceito que passou a ser usado desde a década de 1990 por especialistas em marketing. Adverte o autor: "pela teoria do "marketing da fé", os recursos de comunicação da instituição devem ser orquestrados para determinados fins, segundo as regras do mercado de bens simbólicos, na esteira do bem-sucedido trabalho desenvolvido pelos grupos pentecostais, garantindo-se, naturalmente, a ortodoxia dos ensinamentos tradicionais da Igreja (...) pelos preceitos do "marketing da fé", os princípios religiosos transformam-se em objeto de sedução mediante o uso de procedimentos comuns ao mercado na promoção de bens de consumo" . Compromisso ético
A ética é um princípio para a sociedade, independente credo, aplicado a todas as emissoras e a Igreja é guardiã dessa ética para a sociedade. É preciso lembrar, entretanto, que este princípio precisa ser vivido no interno de todas as instituições. Por isso, dispensa dizer que, a credibilidade na evangelização, também depende da prática nas emissoras de Igreja. A ética e o profissionalismo precisam estar presente em tudo o que fazem: comercialização, trabalho profissional com o quadro interno de colaboradores e junto aos clientes. O profissionalismo, o compromisso ético, a abertura à comunidade darão às emissoras católicas a credibilidade que elas precisam ter, junto ao público e aos segmentos de Igreja. Programação Radiofônica
Segundo Vigil, a programação é o diálogo que a rádio entabula com o público, as mensagens que emite para se relacionar com ele. É uma conversa planejada entre emissores e receptores, levando-se em conta a disponibilidade dos receptores. Os programas não se sucedem simplesmente uns aos outros ao bel-prazer dos produtores. É importante ter em conta o público, seus interesses e tempo. É a palavra conquistadora, a declaração de amor da emissora com o seu público. Todas as emissoras tem notícias, música, todas falam e esperam ser escutadas, mas há um diferencial em cada uma e o modo como se faz isso de forma organizada. A programação é o charme de cada emissora, sua estratégia particular de sedução.
Importa ter claros os objetivos. Se a emissora é jornalística, será mais informativa. Se for musical e de entretenimento ou segue o gênero dramático, terá outro perfil.
O eixo central, o fio condutor ao redor do qual se organiza a emissora, chama-se perfil. É a cara da emissora, de sua personalidade. O perfil é a identidade alcançada junto ao público. Ele precisa ser identificado pelos ouvintes. Pode ocorrer que a emissora estabeleça seu perfil e o público não o reconhece da mesma forma. Este caracteriza sua emissora: ela é nossa.
Toda programação deve partir de duas mãos: da expectativa do público e da oferta da emissora. Estabelecer um equilíbrio entre os dois pontos de vista.
A programação, ou seja, o responsável por ela, precisa ter presente algumas perguntas básicas, o tempo todo:
- Qual o objetivo desta emissora?
- Quais são meus critérios de sucesso?
- Os programas atuais estão de acordo com esses critérios?
- Se não estiverem, como posso melhorar
- os programas?
- os (as) apresentadores(as)?
- O que impede o resultado final de ser melhor, na minha opinião?
- Como superar isso?
- O que a concorrência está fazendo?
Indispensável: ser criterioso na mudança de horários e de programação. A mudança deve ser sempre para o melhor. Ter um planejamento estratégico.
Tipos de programação
Total - de tudo para todos. É o modelo AM.
O que caracteriza: oferece uma variedade de gêneros e conteúdos a uma audiência variada. Isso não significa que todos os espaços sejam para todo o público. A segmentação de ouvintes pode ocorrer em termos de programas, mas o conjunto de programação pretende atingir muitos e variados públicos. Por isso, é importante conhecer os horários preferenciais de cada público e organizar os diferentes espaços.
Segmentada - de tudo para alguns.
Conteúdo, gêneros e formatos variados. Dirigidos ao público preferencial.
Especializada - alguns para alguns. Ex. só música, só rock, só notícia. Programação Religiosa
Os conceitos em relação ao perfil, programação, qualidade, organização das emissoras comerciais valem para as emissoras católicas.
O que as diferencia? A missão. É importante ter uma filosofia cristã em toda a programação: notícias, músicas, entretenimento e também na programação religiosa. O ideal é distribuí-la, ainda que em doses homeopáticas, durante o dia todo. A Igreja deve ser notícia nos informativos, no horário nobre do rádio, sem reduzi-la à "sacristia".
Como mídias de igreja, as emissoras católicas se pautam em sintonia com a Palavra de Deus e as orientações da Igreja, no que diz respeito às diferentes temáticas, tanto religiosas quanto sociais. Dentro da missão, o enfoque dado é que muda muitas vezes, devido ao modelo de Igreja que o grupo dirigente adota. Dependendo dos referenciais religiosos ou mercadológicos, ela vai se organizar e fazer sua programação, escolher seu quadro de comunicadores e comunicadoras.
O ideal seria integrar a vida da comunidade à programação e não colocá-la apenas nos horários de menor audiência. A programação religiosa precisa ser cuidada para que tenha a qualidade em todos os gêneros e formatos. Vencer o tabu de que religião "não vende". Será que não os estamos fazendo de forma criativa e dinâmica, por isso, se tornam enfadonhos?
Uma emissora católica pode se adequar a uma programação eclética. É claro que é preciso conhecer o público, o mercado e trabalhar sempre em duas mãos: o que eu tenho a oferecer e do que o público gosta. Nesse caso, atenção ao local, à cultura, eventos, gostos.
É importante conhecer a orientação da Igreja do campo da comunicação, ter clareza da missão, saber e assumir o compromisso da evangelização, no mundo atual. As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja do Brasil (2003-2006) assim definem o objetivo da evangelização: "Evangelizar, proclamando a Boa Nova de Jesus Cristo, caminho para a santidade, por meio do serviço, diálogo, anúncio e testemunho de comunhão, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, promovendo a dignidade da pessoa humana, renovando a comunidade, formando o povo de Deus e participando da construção de uma sociedade justa e solidária...".
No momento atual, o grande projeto de evangelização para os anos 2004-2007, "Queremos ver Jesus, Caminho, Verdade e Vida" permeia toda a vida e ação da Igreja no Brasil, e precisa estar presente em nossas emissoras. Descobrir formas criativas de divulgar a ação da Igreja. Aqui vai a ligação com a comunidade. A comunidade precisa se ver no rádio, precisa falar e a emissora, ser a voz da comunidade.
É importante ter presente o contexto mundial, a globalização e, ao mesmo tempo, as necessidades locais para inserir-nos na cultura e no contexto. É preciso ter em conta que, vivemos num momento de pluralidade, de emergência de subjetividades e de novas formas de expressar a fé. A sintonia com o global em termos de mundo e de Brasil enriquece a nossa programação local. É ali que a comunidade precisar sentir-se na sua emissora, naquela emissora que está preocupada em dar-lhe o melhor em termos de informação, cultura, entretenimento. É a emissora amiga, que fala comas pessoas, por isso, elas tem orgulho de tê-la em sua companhia!
* Helena Corazza pertence à congregação das Irmãs Paulinas. Jornalista, Mestra em Ciências da Comunicação pela USP, diretora do Sepac (Serviço à Pastoral da Comunicação). Membro do Conselho deliberativo da RCR e da Equipe de Reflexão do Setor de Comunicação Social da CNBB, autora de diversos artigos e livros, entre eles Comunicação e Relações de gênero em práticas radiofônicas.
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