Mandala, uma fonte inesgotável

Data de publicação: 09/10/2018


O psicanalista suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) aplicou o termo sânscrito “mandala” – círculo mágico – ao estudo do psiquismo humano. Em seu entender, as rodas do tempo e da vida, ligadas à mitologia e à religião das culturas antigas, são diagramas cósmicos e míticos que visualizam percepções profundas ou elevadas e ajudam a desvendar a linguagem simbólica do inconsciente individual e coletivo. A mandala, em suas representações nas culturas, é o resultado de fases da ideia de tempo e das interrogações e elaborações míticas acerca da origem e do destino do mundo e dos seres humanos.
A ideia de tempo surgiu da observação do firmamento e os principais calendários conhecidos: o sideral, que situa o começo do ano no movimento das estrelas; o solar e o lunar, que seguem respectivamente os elementos mais visíveis do céu; e o lunissolar, que une os dois últimos em função das narrativas míticas e das celebrações sagradas anuais. Os clãs nômades babilônios e hebreus foram os primeiros a usar um calendário lunar, seguidos dos gregos e romanos. O calendário solar criado pelos egípcios, com três estações de quatro meses, registrou a enchente do Rio Nilo, a semeadura e a colheita: três fases cíclicas que se repetiram por milênios e tiveram uma interpretação mítica mantida viva pelos ritos religiosos. Os assírios, os chineses e os hindus usaram o calendário lunissolar e atualmente também os judeus o seguem em suas festas e o cristianismo rege por ele a liturgia pascal.
Calendários antigos talhados em pedra, montados em mosaicos ou pintados nos templos, como também os exemplares medievais ilustrados por iluminuras mostram a sequência repetitiva da atividade de cada estação: podar as vinhas, cavar e arar a terra, semear, amolar a foice, ceifar os campos, celebrar casamentos, caçar, pescar, armazenar lenha. As tarefas se desenrolam ao redor da representação de alguma divindade e vêm acompanhadas de detalhes que definem a respectiva estação, tais como flores, ninhos de pássaros, neve ou pessoas ao redor do fogo.
O pensamento filosófico e religioso sobre a passagem do tempo e da existência demonstrou a ideia do eterno recomeço de tudo, inclusive da vida humana, que se extingue e se renova perenemente a cada geração. A roda da vida, a roda do sol, a serpente que engole o próprio rabo são algumas das figuras do tempo circular. Seu movimento leva ao futuro, mas também ao inevitável declínio e à morte. 
        
Elementos de composição da mandala

A mandala é fonte quase inesgotável de conhecimento interdisciplinar. Vista no Oriente como símbolo de espiritualidade e no Ocidente como uma espécie de fotografia do inconsciente pessoal e coletivo, seu uso na escola pode atingir os âmbitos da cultura e da religião do passado e, ao mesmo tempo, servir de linguagem para a ressignificação de vivências do presente.
 
 As cores
Jung estudou as cores na linguagem psíquica e concluiu que com a ressalva das variantes de cada cultura, religião ou indivíduo, pode-se demonstrar o simbolismo das cores.
 O azul inspira calma, reflexão, profundidade, espiritualidade. Jung chegou a tal conclusão, analisando a sensação contemplativa das pessoas ante o infinito do céu, a profundidade de um lago, o mistério das distantes montanhas azuladas.
Amarelo, relacionado à luz, ao sol e ao fogo, lembra a intuição das origens e fins das coisas e dos fatos. Branco, como claridade e luz, evoca a transparência, a sinceridade, a revelação.
Vermelho, cor do sangue, é sinal de vida, luta e evolução. Laranja, síntese de amarelo e vermelho, demonstra equilíbrio entre espírito e matéria, energia, vitalidade e entusiasmo. Marrom, cor da terra e da pedra, liga-se a raízes familiares, estabilidade, solidez, continuidade.
Preto, associado à falta de visão, simboliza o mistério e o desconhecido. Violeta, misto de azul e vermelho, lembra a união da humanidade com a divindade e indica intenso mundo interior, concentração, criatividade e liberdade. Verde, traz a ideia de pertença ao ambiente natural, a aceitação do processo de nascimento e morte e o desejo de irmandade com todos os seres vivos. 




As formas
Combinações geométricas básicas de círculo, quadrado e triângulo fazem da mandala uma expressão estética da harmonia entre os planos cósmico, humano e transcendente. Começa-se a criá-la pelo centro que pode ser um triângulo, estrela, flor ou outra representação da divindade. O ponto branco, chamado janela da eternidade, simboliza o mistério do qual tudo provém e para onde tudo converge. A seguir, ilustra-se o quadrado, que representa o mundo material e a vida cotidiana, nos quais o mistério se revela no Fenômeno Religioso. Por fim, compõe-se o firmamento, o último limite contemplado pelo ser humano, que retrata a passagem do tempo em ciclos perenes de morte e vida. Para além do círculo sideral, o negro do mistério que envolve a existência.
O modelo aqui reproduzido acrescenta o diálogo das tradições religiosas, que, inseridas na história e na cultura, guardam seus patrimônios sagrados e, ao mesmo tempo, têm espaços comuns que as unem umas às outras e apontam para o mistério transcendente.

Confecção coletiva de uma mandala
1. Levar os estudantes a conhecerem os elementos acima descritos.
2. Promover um trabalho coletivo para ampliar e colorir a mandala, conforme o modelo ou com variantes a critério da turma. 
3. Ilustrar cada espaço geométrico com os respectivos elementos, que podem ser recortados de revistas, desenhados, pintados, pesquisados na internet etc.
4. Após a confecção e ilustração da mandala, promover pesquisas e debates acerca dos significados e conhecimentos que ela inspira.
  
 
     

Fonte: Diálogo 62, Maio/Julho 2011
Postado por: Diálogo




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