Currículo interdisciplinar, novo paradigma

Data de publicação: 07/11/2018


Henri Luiz Fuchs *

A diversidade e a diferença são manifestações dos fatos sociais, das culturas e das respostas individuais frente à educação escolar. A escola é espaço de manifestação da diversidade cultural. E nessa perspectiva, é desafiada a revisar e contextualizar o currículo no tempo e no espaço social em que está inserida.
O currículo é concebido como parte de um percurso literário, um atalho. Atalho, entre os vários sentidos possíveis, significa encurtar distâncias, impedir, obstruir. Currículo, etimologicamente, é “pequena corrida”. Talvez, por isso, o programa escolar seja considerado uma parte da caminhada, pois, para Balduino A. Andreola,  “não representa toda a caminhada, toda a existência, todo o processo, mas uma parte ou uma síntese do mesmo”. Segundo Antônio Moreira e Vera Candau, podemos compreender o currículo como  “experiências escolares que se desdobram em torno do conhecimento, em meio a relações sociais, e que contribuem para a construção das identidades de nossos/as estudantes. O currículo associa-se, assim, ao conjunto de esforços pedagógicos desenvolvidos com intenções educativas”.

Diversidade e interdisciplinaridade
A discussão sobre diversidade apareceu com a crise da universalidade e o abrandamento dos ideais de igualdade do século 20. Na educação, entramos no século 21 com uma pedagogia individualizante, que distingue os estudantes por seus talentos, habilidades e competências, e por tais marcas os agrupa e os trata. Por outro lado, as pedagogias progressistas procuraram compensar as desigualdades e valorizar os processos educativos que acentuam a diversidade e o perfil heterogêneo, em oposição à homogeneidade da sala de aula.
A organização da sociedade é problemática e descontínua. O paradigma dominante fragmenta o mundo a tal ponto que a pessoa deixa de enxergar os mecanismos estruturantes da sociedade em que está inserida. A crise paradigmática não é exclusiva desse momento histórico. Surgiu na Europa nos anos de 1960, época em que os movimentos estudantis reivindicavam novos estatutos para a universidade e a escola. No Brasil, o movimento chegou com sérias distorções, segundo Ivani Fazenda,  “próprias daqueles que se aventuram ao novo sem reflexão e ao modismo sem medir as consequências”.
O contexto de crise da homogeneidade trouxe o advento da interdisciplinaridade, e, com ela, novos olhares sobre a prática educativa nas escolas. Paulo Freire escreveu, em Pedagogia do oprimido: “Não é possível o respeito aos educandos, à sua dignidade, a seu ser formando-se, à sua identidade fazendo-se, se não levarmos em consideração as condições em que eles vêm existindo, se não reconhecermos a importância de conhecimentos e de experiências com que eles chegam à escola”.
Tais constatações permitem afirmar que o currículo escolar é desafiado a rever suas estruturas, concepções e práticas, porque a interdisciplinaridade provoca uma nova dinâmica que prioriza o ser humano nas diferentes áreas da existência.

O Ensino Religioso no currículo interdisciplinar
A concepção de currículo está relacionada com os paradigmas que sustentam as práticas educativas.  Apesar de todas as dificuldades epistemológicas e metodológicas, a organização do currículo do Ensino Religioso por meio de eixos temáticos visa superar a fragmentação e concebe o conhecimento como um processo que tem no estudante o agente principal. A proposta curricular requer novo planejamento, nova organização e seleção de conteúdos, nova formação docente e uma prática contextualizada e comprometida com o ser humano.
O Ensino Religioso, segundo o Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso (Fonaper), tem como objetivos proporcionar o conhecimento do Fenômeno Religioso a partir das experiências religiosas percebidas no contexto do educando; subsidiar o educando na formulação do questionamento existencial, para que ele dê sua resposta devidamente informado; refletir o sentido da atitude moral como expressão da consciência pessoal e comunitária;  e esclarecer sobre o direito à diferença na construção de estruturas religiosas que têm na liberdade o seu valor inalienável.
Esses objetivos requerem uma abordagem interdisciplinar que permita a educação integral, não só como formação, mas enquanto reconhecimento do sujeito que aprende a conviver e a ser na diversidade e a partir dela. Para isso, os desafios apresentados ao Ensino Religioso, como disciplina constituinte do currículo interdisciplinar, são claros e decisivos: a formação docente na perspectiva da diversidade; o reconhecimento do Ensino Religioso como área de conhecimento nos sistemas de ensino; o planejamento coletivo do currículo escolar; o diálogo entre as áreas de conhecimento; a superação das fronteiras das áreas de conhecimento; a compreensão da complexidade como fator de conhecimento; o contexto histórico como ponto de partida na definição de conteúdos; os projetos integradores das áreas de conhecimento; a postura profissional e ética coerente e comprometida com a vida.

A sala de aula
O espaço escolar e cada sala de aula é um universo de experiências e vivências, dentre as quais também as religiosas. Não se pode, portanto, pretender criar um consenso que anule as diferenças. O desafio é acreditar na riqueza de um ambiente de diversidade que confronte os significados, desejos e experiências de cada um e que garanta a liberdade e a diferença de opiniões para todos.
A escola, e nela o Ensino Religioso, muitas vezes lidam com a diversidade como exceção e até como um problema. Pode ocorrer uma sensação de que melhor seria se alguns tipos de alunos não estivessem na escola. Em outros momentos, os resultados previamente estabelecidos pelos gestores e professores não são atingidos, porque o estudante real é bem diferente do idealizado.
A obrigatoriedade da educação trouxe para a escola crianças, adolescentes e jovens de diferentes origens sociais, experiências de vida e capitais culturais os mais diversos e com perspectivas de futuro desiguais. Os mecanismos de classificação já não são eficazes, e novas práticas classificatórias são criadas para que a homogeneidade da educação não desapareça, a não ser que a escola esteja ciente de sua complexidade e passe a assumi-la de modo positivo.
Na medida em que as escolas são desafiadas a construir seus currículos interdisciplinares a partir de seus contextos reais, flexibilizando a organização dos conteúdos, os conhecimentos novos e diversificados passam a ocupar o tempo e o espaço escolar. Também os processos de aprendizagem começam a ser diferentes na sala de aula. Nesse caso, o Ensino Religioso depara-se com seu campo de trabalho na própria diversidade de pertenças religiosas dos estudantes que, ao invés de ser silenciada em benefício de um espaço homogêneo, será vista como fonte abundante de temas e vivências a serem dialogadas, conhecidas, respeitadas e valorizadas. 

Conclusão
O Ensino Religioso traz uma reflexão necessária para a formação do ser humano nas perspectivas e desafios contemporâneos. Compreendido a partir da legislação vigente, objetiva refletir sobre a formação da pessoa numa sociedade complexa, marcada por experiências religiosas que procuram o sentido da vida nas relações cotidianas. Os currículos tradicionais, elaborados em contextos históricos do passado, não dão conta dos significados das experiências novas vividas pelos estudantes.
A escola, a partir do Ensino Religioso, é desafiada a organizar seu currículo e formar seu corpo docente e discente na perspectiva integral, não fragmentando a educação. A totalidade do conhecimento está relacionada com as relações de poder, gênero,  respeito e reverência ao transcendente, do diálogo que aprofunda as reflexões e constrói a identidade necessária para compreender o ser humano enquanto ser histórico em relações.
A interdisciplinaridade é um caminho desafiador, mas não impossível, quando a escola se ocupa da condição e do sentido da vida a partir da diversidade existente dentro e fora do contexto escolar.



* Henri Luiz Fuchs
Mestre em Teologia e em Educação. Professor do Instituto Federal do Rio Grande do Sul, Campus Caxias do Sul. Integrante da Coordenação do Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso.


Referências

ALCUDIA, Rosa, et alli. Atenção à diversidade. Porto Alegre: Artmed, 2002.
ANDREOLA, Balduino A. Carta de Paulo Freire às educadoras e aos educadores do Rio Grande do Sul.  In: Secretaria da Educação (org.). Caderno Pedagógico 2. Porto Alegre: Secretaria da Educação. 2001.
DELORS, Jacques. Educação: Um tesouro a descobrir. Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. São Paulo: Cortez, Brasília: MEC, Unesco, 1999.
FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. Interdisciplinaridade: História, teoria e projeto. Campinas: Papirus, 1998. p. 18
Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso (Fonaper). Ensino Religioso. Referencial curricular para a proposta pedagógica da escola. Caderno Temático 1, 2000, p. 27
_________. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Religioso. São Paulo: Ave Maria, 1997.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996. 
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JAPIASSÚ, Hilton. Interdisciplinaridade e patologia do saber. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
MEIRIEU, Philippe. A pedagogia entre o dizer e o fazer. A coragem de começar. Porto Alegre: Artmed, 2002.
MENEGOLLA, Maximiliano; SANT’ANNA, Ilza Soares. Por que planejar? currículo – área – aula. Petrópolis: Vozes, 1992.
MOREIRA, Antônio Flávio Barbosa; CANDAU, Vera Maria. Currículo, Conhecimento e Cultura. In: MOREIRA, Antônio Flávio Barbosa. Indagações sobre currículo: Currículo, conhecimento e cultura. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2007, p. 17- 46.
MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita. 6. ed. Rio de Janeiro: Bertrant Brasil, 2000.
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SACRISTÁN, José Gimeno. El curriculum: una reflexión sobre la práctica. Madrid: Morata, 1988.
SANTOMÉ, Jurjo Torres. Globalização e interdisciplinaridade: Currículo integrado. Porto Alegre: Artmed, 1998.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências. São Paulo: Cortez, 2005.

Fonte: Dialogo 75, Agosto/Setembro 2014
Postado por: Diálogo




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