Dos cultos sagrados para as ruas

Data de publicação: 07/11/2018

Dos cultos sagrados para as ruas
 
A data mais animada e, para alguns, mais esperada, é o carnaval. Uma festa popular que faz parte do calendário brasileiro e de muitos países. Não se sabe o significado exato da palavra carnaval, nem a data de sua origem. É provável que o termo proceda do latim carnem levare, isto é, “abstenção de carne” no período da Quaresma, no Ano Litúrgico cristão.

Cultos egípcios e saturnália romana preconizam o carnaval
O carnaval pode ter começado nos cultos aos deuses, destacando-se o de Ísis, no Egito, as festas de Dioniso, na Grécia, e as saturnálias de Roma, em honra a Saturno, o Deus da Agricultura. Esses festejos religiosos pagãos visavam principalmente a louvar e agradecer às divindades pelas colheitas, sinais de fartura e prosperidade.
Em Roma, durante as saturnálias, as escolas fechavam, os escravos eram soltos e os romanos dançavam pelas ruas. E, desde a Antiguidade clássica, o carnaval teve danças ruidosas, máscaras e certa tendência lasciva que se conservaram até hoje. No Brasil, o carnaval adquiriu caráter artístico e cultural com apresentações temáticas.

Vindo da Europa, o entrudo chega ao Brasil
Nos séculos 15 e 16, o carnaval se espalhou pela Europa, Paris, Roma, Veneza, Nápoles, Florença, Munique e Colônia, por meio dos bailes de máscaras elitizados, oferecidos aos nobres. Em Paris o carnaval deixou os salões e ganhou as ruas, popularizando-se.
Foi por volta do século 17 que a festa chegou ao Brasil. Trazido pelos portugueses, o carnaval brasileiro tem em suas origens o entrudo, que consistia em lançar água, farinha, cal e outras substâncias que molhavam e sujavam os brincantes. No Rio de Janeiro, essa diversão, de certo modo grosseira, foi proibida no início do século 20. O entrudo acabou quando seus elementos deram lugar a confetes e serpentinas.
   
Uma festa de muitas faces
Antes das escolas de samba, dos trios elétricos, brincava-se o carnaval no Brasil com os tradicionais bailes de salão, marcha dos corsos – desfile de automóveis enfeitados –, ranchos e blocos de rua. Com muitas caras o carnaval é multifacial e sintetiza antigas e novas formas de manifestar a alegria, que é a sua mais autêntica representação.
Apesar de ser visto como festa profana o carnaval sempre esteve próximo ao campo religioso, até mesmo em consequência do período em que é realizado, antes do tempo quaresmal, que, embora esteja vinculado ao cristianismo, determina a data do carnaval.

O uso das máscaras
Alguns adereços do carnaval têm origem em cultos religiosos. Um destes é a máscara que fazia parte não só de festas, mas também de alguns ritos, funerais, e de peças teatrais. No Egito antigo usava-se a máscara mortuária, que associava a morte à saída do espírito. Tratando-se do faraó, eram retratados na máscara funerária os traços faciais, ligando o seu espírito ao Universo.
Além do uso festivo e em rituais, a máscara também tem um cunho étnico capaz de expressar características peculiares de diferentes grupos, como se percebe nas etnias africanas e indígenas. E a diversidade das máscaras não está apenas no uso, mas também na forma, no modelo, na técnica de confecção, na matéria-prima. Outro uso de máscaras é o de disciplinar, corrigir e castigar. De todos os modos a característica principal da máscara é ocultar a face de quem a usa, garantindo-lhe o anonimato.


Sugestões de atividades

O conteúdo de sambas-enredos de várias escolas resgata os elementos religiosos primordiais da origem da maior festa popular do mundo, como as letras descritas a seguir.



"Festa profana"
O rei mandou cair dentro da folia
Eh! Lá vou eu
O sol que brilha nessa noite vem da Ilha
Lindo sonho que é só meu
Vem, vem amor
Na poesia vem rimar sem dor
Na fantasia vem colorir que a vida
Tem mais cor
Vem na magia
Me beija nesse mar de amor
Vem, me abraça mais
Que eu quero é mais
O teu coração
Eu vou tomar um porre
De felicidade
Vou sacudir, eu vou zoar
Toda cidade
Eh! Boi Ápis
Lá no Egito, festa de Ísis
Eh! Deus Baco, bebe sem mágoa
Você pensa que esse vinho é água
É primavera na lei de Roma
A alegria é que impera
Oh! Que beleza
Máscara negra lá no baile de Veneza
Oi joga água que é de cheiro
Confete e serpentina
Lança-perfume no cangote da menina
Samba-enredo de J. Brito e Bujão, da Escola União da Ilha – Rio de Janeiro, 1989.


"Vovó e o rei da saturnália na corte egipciana"
Caiu dos olhos da vovó
Uma lágrima sentida
Lembrando imagens de criança
Do velho tempo que passou
O seu pranto é colorido
Nas vivas cores da televisão
Que hoje assiste recordando
Formosos ranchos
e grandes sociedades
No esplendor da noite
Como era linda a presença do dia
A corte egipciana
Enredos de nostalgia
Não chore não vovó
Não chore não
Veja quanta alegria dentro da
recordação
Relembre a graça do entrudo
E o fascínio do baile de Veneza
Lá em Roma pagã
Para festejar a primavera
Colhiam frutos e faziam orgia
Que começavam ao
romper do dia
E vinha um rei
Num belo carro naval
Alegrando a saturnália
Inventando o carnaval
De lá pra cá
Tudo se transformou
Mas a vitória da folia ficou
No encanto do meu povo
que brinca
Sambando quando samba a
Beija-Flor
(Vovó)
Samba-enredo, de Savinho e Luciano da Escola Beija-Flor – Rio de Janeiro, 1977.

Análise interdisciplinar

As propostas podem ser adaptadas a cada faixa etária.
Literatura – Partir da expressão “na poesia vem rimar sem dor” e trabalhar a composição poética das duas letras. Propor uma pesquisa em obras literárias brasileiras, nas quais sejam descritos o entrudo, os ranchos, os bailes de salão, a marcha dos corsos, os blocos de rua e outros.
História – Pesquisar sobre as civilizações antigas citadas no texto e nas letras dos sambas.  
Ensino Religioso – Pesquisar à luz dos eixos temáticos do Ensino Religioso e compará-los com costumes da cultura brasileira:
 Mitos – deuses e deusas que aparecem na origem do carnaval;
 Ritos – conhecer o sentido religioso dos ritos e festas que precederam o carnaval contemporâneo;
 Ética – criar um debate acerca das consequências reais de certas expressões poéticas, como: “eu vou tomar um porre”, “eu vou zoar toda cidade”, “faziam orgia que começava ao romper do dia”, “lança-perfume no cangote da menina”.

Em todos os tempos, os povos expressaram suas compreensões do Transcendente, compondo hinos e louvores aos seus deuses.

"Hino à Deusa Ísis"
Porque eu sou a primeira e a última.
Eu sou a venerada e a desprezada.
Eu sou a prostituta e a santa.
Eu sou a esposa e a virgem.
Eu sou a mãe e a filha.
Eu sou os braços de minha mãe.
Eu sou a estéril, e numerosos são meus filhos.
Eu sou a bem casada e a solteira.
Eu sou a que dá a luz e a que jamais procriou.
Eu sou a esposa e o esposo.
E foi meu homem quem me criou.
Eu sou a mãe do meu pai.
Sou a irmã de meu marido e ele é o meu filho rejeitado.
Respeitem-me sempre.
Porque eu sou a escandalosa e magnífica.
(Hino à Ísis descoberto em Nag Hammadi, no Egito, em 1947.)

Fonte: Diálogo 61 – Fevereiro/Abril de 2011
Postado por: Diálogo




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