Da resistência à consciência

Data de publicação: 16/11/2018


Da resistência à consciência
Por, Rodrigo Oliveira dos Santos

O dia 13 de maio, Dia Nacional de Luta Contra o Racismo, faz-nos lembrar que a escola deveria ser um espaço privilegiado de reconhecimento das diferenças étnico-raciais, porém essa questão ainda é um dos maiores desafios atuais, embora a Lei 10.639/2003 torne obrigatórias a história e a cultura africana e afro-brasileira no currículo escolar.
Os alunos do 8º ano da Escola Oscarina Santos, em Salvaterra, na ilha do Marajó – PA, em uma semana de atividades, por ocasião do Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro de 2008, comprovaram que o conhecimento dessa história e cultura leva a superar o preconceito, o racismo e a discriminação.

História e atualidade da resistência


A escravidão do negro na criação de gado da ilha do Marajó começou no século 18 e com ela, os quilombos. Hoje, o município de Salvaterra tem o maior número de comunidades quilombolas da ilha: Bacabal, Mangueira, Pau Furado, Santa Luzia, São Benedito, Rosário, Barro Alto, Providência, Salvá, Siricari, Deus Ajude, Caldeirão, Vila União, Paixão e Boa Vista, já conquistaram o reconhecimento, ainda que continuem a enfrentar lutas contra a discriminação racial e pela posse da terra e o direito de ter sua história e cultura reconhecidas nas escolas.

O Ensino Religioso como aliado da cidadania

Segundo os alunos do 8º ano, o índio e o negro na escola eram alvos de menosprezo e estereótipos como “escravo” e “selvagem”. Ao ver que a turma sofria com o preconceito, eu propus o projeto Semana da Consciência Negra, desenvolvida em cinco temas: história da escravidão, quilombos, culinária, religião e arte (música e dança). Com o apoio da alguns professores, pais de alunos e uma mãe-de-santo, Mãe Bia, a turma começou as atividades de pesquisa com visitas aos quilombos e a um terreiro. Esse contato trouxe melhora visível nos relacionamentos e na superação de preconceitos. Mãe Bia orientou a preparação de vestes sagradas, oferendas de comidas típicas, pinturas, danças e tudo o que convergia para o objetivo de compreender a importância do negro no seu contexto, em sintonia com a luta do herói histórico Zumbi dos Palmares. Os alunos ficavam na escola durante o dia todo, com muito entusiasmo.
Na abertura da Semana da Consciência Negra, os adolescentes ressaltaram a beleza e a estética da negritude no penteado, na maquiagem e nos adornos, o que causou impacto na escola. Houve solenidade na câmara municipal, com exposição fotográfica dos quilombos, capoeira e outras danças afro-brasileiras apresentadas pelos alunos da escola quilombola de Bacabal. O ponto culminante do dia foi a “Roda dos Orixás”, formada por alunos caracterizados pelas vestes sagradas.
As atividades na escola duraram toda a semana e no dia 20 de novembro foi feita uma visita ao quilombo de Mangueira, o mais antigo do município. Durante o percurso, os alunos foram reconstituindo na memória, a história da formação dos quilombos e ao chegarem, organizaram as exposições, danças e falas para a comunidade. A “Roda dos Orixás” foi, então, acompanhada de oferendas de Acarajé e Omolocum, servidos após a dança de Iansã e de Oxum, respectivamente. Os alunos do quilombo dançaram o Carimbó e a Umbanda destacou o culto à Erundina, numa integração entre escolas, comunidade e lideranças quilombolas e religiosas, para a desconstrução dos estereótipos e preconceitos.
As turmas do 8º ano ainda se apresentaram na escola Dom Pedro I e nas escolas das comunidades do Jubim, Barro Alto e Bacabal, onde se destacou a riqueza cultural e religiosa de índios e negros através de danças. Caboclos, Orixás e Encantados representaram a reconstrução da religiosidade de Salvaterra e da Amazônia.
Após a Semana da Consciência Negra, os alunos estavam mudados, mas também perplexos pelas críticas e pressões que sofreram e pela falta de envolvimento e apoio de pessoas significativas na cidade e na educação, inclusive professores. Sentiram na pele o que o negro enfrenta ainda hoje. O contato real com os conteúdos reafirmou o que aprenderam durante o projeto. Embora sobrasse a alegria de terem encarado tudo isso juntos, viram que de todos os temas estudados, a religião afro-brasileira continua sendo a mais perseguida.
Nesse aspecto, eu destaco o Ensino Religioso como componente curricular que melhor contribui para a superação de preconceitos, principalmente o religioso.

A denúncia contra o racismo

Após a Semana da Consciência Negra, os alunos tornaram-se mais audaciosos em reivindicar respeito e apoio à cultura e à religião do negro dentro e fora da escola. Em 22 de março, Dia Mundial da Água, fizeram uma passeata pacífica pela cidade, lembrando também do dia 21 de março, Dia Internacional Contra a Discriminação Racial e dia 18, Dia dos Cultos Afro-brasileiros, no Pará.
No dia 13 de maio, Dia Nacional da Luta Contra o Racismo, a turma não obteve a permissão que esperava para o evento que havia programado na escola, o que levou os alunos a, dias depois, organizarem uma greve seguindo rumo à Secretaria de Educação, ao Fórum e a Câmara Municipal exigindo liberdade de conhecimento em um estado laico e um país que acumula a maior população negra do mundo, fora da África.
Percebemos com isso que, “o mito da democracia racial” ainda impede a “abolição da educação”. Salvaterra é apenas um exemplo de que o racismo fere a auto-estima de milhões de alunos brasileiros, como afirma uma aluna ao descrever o que, para ela, foi mais significativo:
• Aprender sobre o modo de viver a religião, porque nós que moramos no centro, não temos ideia da vida dele (Zumbi) e depois desse trabalho nós tivemos oportunidades de ver e aprender. Até então eu não sabia quem era Zumbi dos Palmares.
• A cultura, o modo de conviver, sem diferenças. Mas o mais difícil foi passar pelo preconceito dos outros e ver que antes desse trabalho nós éramos assim, preconceituosos. Para termos consciência disso foi preciso perceber que nem tudo é um mar de rosas.
• Os quilombolas sofrem com a invasão das cercas. Algumas pessoas dão apoio, mas outras nos desestimulam. Na hora da fama, dizem que o trabalho foi maravilhoso, mas quando é para jogar a primeira pedra, são os primeiros. Fico revoltada porque sabem que nós não somos mais aqueles alunos calados.

Nesses termos, a escola precisa, sim, abordar essas questões para que avancem lado a lado o saber e a construção de uma sociedade livre, onde as diferenças sejam motivos para o exercício da cidadania. Diante de tudo que enfrentamos hoje eu vejo com mais certeza que nossa missão de professores está para além de qualquer coisa, pois formamos o ser humano, a maior obra do Criador.


Rodrigo Oliveira dos Santos
Atualmente é professor de Ensino Religioso no Colégio Salesiano Nossa Senhora do Carmo, em Belém (PA) e de Filosofia na Escola Estadual Professor Ademar Nunes de Vasconcelos, em Salvaterra - Ilha do Marajó. É graduado em Ciências da Religião e pós-graduando em Metodologia do Ensino Religioso, Educação das Relações Étnico-Raciais e Ciências da Religião. E-mail: naumamos@yahoo.com.br
 
 

Fonte: Diálogo 58, Maio/Julho 2010
Postado por: Diálogo




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