Educar à luz da diferença

Data de publicação: 23/11/2018


Educar à luz da diferença

Ancorar os objetos de conhecimento no valor das diferenças vivenciadas pela turma é aventura difícil e, por vezes, imprevisível em toda disciplina, e mais ainda, no Ensino Religioso. Muitas vezes, porém, as surpresas superam não só o temor como até a expectativa de resultados.
Ver o brilho de alegria no olhar de um aluno que se sente evidenciado em sua experiência de vida é a gratificante confirmação de que a prática pedagógica do Ensino Religioso, quando clara e segura, tem eficácia transformadora. É o que revela irmã Bia Leal, professora de Ensino Religioso no Colégio Nossa Senhora do Rosário, em Volta Redonda (RJ).

DIÁLOGO – Bia, que memórias sagradas você guarda de sua trajetória no Ensino Religioso?

Bia – Meu arquivo sagrado conserva 20 anos de lembranças que fazem confirmar o quanto essa prática me envolveu e me conquistou no decorrer do tempo. Comecei a lecionar por necessidade da escola. Insegura e com pouco conhecimento dos novos paradigmas da disciplina, confesso que encontrei dificuldade no início, mas nada superou a paixão que senti ao perceber o Ensino Religioso como possibilidade de integração de todas as dimensões do ser humano.

DIÁLOGO – Pode-se dizer que a paixão educativa é o fermento do Ensino Religioso? E quais são os outros ingredientes de sua receita?  
 
Bia – Para mim, foram a descoberta do conteúdo próprio desta disciplina e a experiência, adquirida com o tempo. Dois fatores que contribuem para o meu contínuo crescimento pessoal, espiritual e profissional e para a consciência do alcance de minha responsabilidade perante os alunos, a escola, a educação e a sociedade.

DIÁLOGO – Na prática cotidiana você vê a parcela específica do Ensino Religioso da eficácia na educação?

Bia – Vejo que o Ensino Religioso contribui para melhorar efetivamente a vida dos alunos, pois ele não é mera transmissão de conteúdos abstratos. É um espaço de liberdade de expressão, onde cada um cresce como pessoa e desenvolve a capacidade de protagonismo da própria história.

DIÁLOGO – Protagonismo capaz de acender a luz da confiança e da felicidade nos olhos dos alunos?

Bia – Sim. Isso me lembra a aluna islâmica que tive em uma turma de 7º ano. Ao falar de textos sagrados a vi com olhos fixos e atentos à minha explicação. De repente, ela se levantou, veio à frente e perguntou em voz baixa: “Professora, eu posso trazer o livro sagrado de minha religião?”. Concordei, e na aula seguinte lá estava ela radiante, com o Alcorão nas mãos, cuidadosamente envolto em um fino tecido. Conversei com a turma sobre a novidade e a convidei a falar aos colegas. Para minha surpresa, uma expectativa e um silêncio quase mágico tomaram conta da sala. Diversos alunos fizeram perguntas, mas o desejo de todos era tocar o texto sagrado. Ela explicou que antes deveriam lavar as mãos e, após o ritual de purificação, fiquei impressionada ao ver o respeito e a veneração com que os alunos seguraram o livro. A partir daquele dia a aluna, antes tímida e reservada, passou a interagir muito mais com a turma e eu conquistei sua confiança e amizade.

DIÁLOGO – Memórias como esta e como tantas outras que permeiam seus 20 anos de prática permitem a você vivenciar um crescimento integral?

BIA – Ao refletir sobre meu trajeto profissional, experimento hoje o prazer de ensinar e vejo que o Ensino Religioso fez de mim uma pessoa amiga e companheira dos alunos, que muitas vezes aprende com eles bem mais do que ensina. Essa troca recíproca é a energia que acende luzes nos olhares deles e nos meus. 


Vinheta de humor


Parceria musical
Na loja de aves:
O canto do pássaro vermelho é maravilhoso!
E qual é o preço?
Só vendo em par com o cinza.
Por quê?
Porque é ele que compõe.

O teste 
Dois regentes avaliam o talento do candidato a trompetista na banda do Exército:
 Que tal a execução?
 Não sejamos tão rígidos. Talvez baste uma suspensão.

Dúvidas e hipóteses do Ensino Religioso
• Viemos ao mundo para ajudar os outros.
Mas e os outros? Para que vieram?
• Por que a televisão anuncia só a morte e nunca anuncia o nascimento dos grandes líderes religiosos?
• O que é o ciclo litúrgico de uma tradição religiosa?
• Deve ser a bicicleta do padre, a do rabino, a do pastor, a do pai de santo, a do pajé a do xeique...




Fonte: Diálogo 57, Fevereiro/Abril 2010
Postado por: Diálogo




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