Construções da fé

Data de publicação: 31/07/2017


Os séculos, suas pedras e suas edificações estão aí a provar o quanto a humanidade criou – forjada pela fé – obras arquitetônicas lindíssimas, templos sagrados em devoção aos seus deuses.

Espalhados pelos continentes, os templos revelam, com grandeza, como a busca do contato com o divino, o bom e o belo permanece no ser humano até hoje. Em cada parede, muro, torre, cúpula, afresco, cor e traçado, em cada ícone ou imagem talhada, há traços de uma cultura, de um povo, de uma fé.
Quem mora na capital paulista, ou a visita, pode realizar essa experiência. Cobrir a cabeça com um véu ou um quipá, sentar-se no chão em silêncio, em meditação ou reverenciar a distância a cidade de Meca, na Arábia Saudita, centro do islamismo, sair de si mesmo e abrir-se ao novo: à cultura e à linguagem do outro, que comunica com sua arte o amor ao próximo, a compaixão e a contribuição para uma sociedade melhor, mais humana, mais sensível. A experiência é um convite a desligar-se de si, de seus preconceitos e barulhos e abrir-se à novidade que vem com respeito e em diferentes idiomas.

Roteiro sagrado

Comecemos saindo da estação Paraíso do metrô, na zona sul de São Paulo (SP), onde se avista ao longe um templo de arquitetura bizantina. Construída na década de 1940, a Catedral Metropolitana Ortodoxa Antioquina chama atenção pelas cúpulas de metal dourado, indicando que ali, em meio ao coração financeiro do Brasil, há um pedaço de fé da Turquia. “Essa é uma réplica da Catedral de Constantinopla, 100 vezes menor. Quando os árabes chegaram aqui, não tinham dinheiro para fazer um templo tão luxuoso como este, começaram com uma pequena capela na região da Rua 25 de Março. Foi em 1940 que eles compraram esse terreno e começaram a construção, a primeira celebração religiosa foi em 1948”, conta o historiador e guia turístico Laércio Cardoso de Carvalho.
Essa é a igreja mais bizantina fora do Oriente. Muito luxuosa, inspirada na antiga Basílica de Santa Sofia, um dos símbolos de Istambul, a catedral é um convite à imersão na fé oriental expressada por sua arte. Olhos atentos passeiam por uma sucessão de janelas e arcos, que criam um espaço de grande beleza e amplidão, entre colunas de mármore italiano de Carrara que sustentam o templo e dão forma ao iconostácio, onde estão 65 ícones de santos, profetas e cenas bíblicas. No centro do iconostácio fica a porta régia, fechada por uma cortina que só o sacerdote pode transpor. Aquele é o espaço onde se consagram o pão e o vinho.
Um caminhar atencioso pelo templo permite observar o grandioso lustre sírio. E também os vitrais das janelas e os afrescos que revestem as paredes internas e se elevam até as cúpulas, tendo Deus no centro, rodeado pela cena da Criação do Mundo, com Adão e Eva, e pela ressurreição de Lázaro. “Vir aqui e conhecer uma religião diferente da nossa faz com que a gente aja com mais respeito, porque o preconceito surge da falta de informação”, diz Yasmim Salviano, 14 anos. A jovem, aluna do Liceu Santista, está entre os 30 alunos que deixaram Santos (SP), em uma quarta-feira aparentemente normal, e vieram, acompanhados dos professores, conhecer diferentes templos da capital paulista.

Respeito e reverência

Deixando a Catedral Ortodoxa, o grupo ruma para a Mesquita Brasil, localizada no bairro Cambuci. As meninas em fila, na porta, colorem a rua cinzenta com seus hijabs ou véus, de todas as cores. “Quem não tem véu não pode entrar, mas eles emprestam”, lembra Cardoso. Homens entram por um lado e mulheres pelo outro, depois de cada um se lavar, retirar os calçados e encontrar dentro de si o silêncio.
O chão da mesquita é revestido de carpete listrado, indicando a posição dos fiéis, que devem se voltar para a cidade de Meca. Meninos à frente, meninas atrás, e o choque cultural é imediato. “Por que os meninos sentam na frente das meninas?”, solta uma das alunas, e a resposta é prática: porque, ao inclinar-se em reverência a Meca e encostar a testa no chão, o corpo é exposto e assim a mulher é preservada. Enquanto os estudantes procuram a posição mais confortável e os professores insistem no silêncio, um mulçumano, em um canto do templo, profere suas orações tão belas e indecifráveis para esta repórter quanto o Alcorão, que se apresenta como uma obra de arte pintada à mão.
A conversa com o sheik Abdel Hameed Metwali acabou com esclarecimentos a  respeito do papel da mulher entre os muçulmanos, sobre hábitos e orações, bem como sobre o grupo terrorista Estado Islâmico, que contribui para difundir no Ocidente o preconceito contra o islã. “Alá não é Deus só dos muçulmanos, é Deus de todo o mundo”, explica o sheik a um dos alunos.
A arquitetura do templo impressiona. As colunas são parte importante da arte islâmica e, com seus capitéis, arcos e laços talhados em madeira, remetem à suntuosidade. Os arabescos enfeitam com capricho a parte interna que tem por base a preservação cultural e religiosa do islamismo na cidade. “O esplendor da arquitetura sempre reflete o esplendor da civilização que a originou, essa é uma regra histórica”, registra Ragheb Elsergany em seu artigo “A arte da construção”. Iniciada em 1927, sendo o primeiro templo muçulmano do País, a Mesquita Brasil é hoje uma das mais importantes da América Latina. São inúmeros os colégios que a visitam para ampliar o conhecimento dos alunos referentes ao islã. “‘Aleluia’, por exemplo, é uma palavra árabe que significa ‘não há divindade exceto Deus’”, ensina o sheik.

Silêncio e meditação

Da mesquita, o grupo parte para o templo budista Tzong Kwan, localizado na Vila Mariana, zona sul da capital. Fundado em 1993 pelo venerável mestre Pu Hsien, o espaço sagrado passa despercebido por quem percorre a Rua Rio Grande, à altura do número 498, porque fica atrás de um discreto portão de cor cinza. O salão cerimonial é espaço de silêncio e meditação. Com todos descalços, uma forma importante de demonstrar respeito diante dos Budas e Bodhisattvas é pedindo que sejam realizadas três reverências diante das imagens.
Há almofadas espalhadas de modo harmonioso, pelo chão de madeira, todas voltadas para um altar onde se encontra a imagem do Buda Amitabha, o mestre da Terra Pura Ocidental. “Tudo aqui veio de Taiwan”, lembra Cardoso, apontando para as imagens dos guerreiros e para um grande sino, à porta do recinto cerimonial. Embora o templo esteja em meio à cidade grande, nada nele se parece com São Paulo. O espaço limpo, o silêncio cortado apenas pelo vento, o sorriso calmo e acolhedor da monja que nos recebe com as mãos postas sobre o peito e a cabeça raspada, levemente reclinada.
“O budismo é uma religião porque se define como um conjunto de práticas e princípios que regem as relações entre o homem e o seu referencial, nesse caso, o Buda. É também uma filosofia de vida, já que a doutrina budista contém princípios e valores da existência, da conduta e do destino do homem”, ensina o guia.

Amor ao próximo
Por último, os alunos seguiram para a sinagoga da Rua Padre Edgar de Aquino Rocha, 8, a antiga Rua Prates, no Bom Retiro, a Sinagoga Adat Ischurun está discretamente localizada em uma espécie de viela. Tem a porta voltada para o Oriente, ajudando os judeus a firmarem seus pensamentos e orações na lembrança da cidade de Jerusalém. Logo na entrada há uma pia para a purificação das mãos e uma pilha de quipás costurados em veludo de diferentes cores, para que os homens os ponham sobre a cabeça e se lembrem de que acima deles existe “alguém” a ser respeitado. Em fila, os jovens entram e se acomodam em bancos que possuem marcações e livros de estudos em seus compartimentos.
O rabino Abrão Zweiman aguarda a todos, à frente da arca sagrada. Homens seguiram para um lado da assembleia, mulheres para o outro. Em dias “normais” as mulheres judias se sentam mais distantes, em uma galeria, no andar de cima, para que não haja flertes durante as cerimônias, segundo o rabino.
“Toda a fundamentação do judaísmo está em um livro chamado Tanakh, conhecido pelos não judeus como Antigo Testamento, a primeira parte da Bíblia. Está dividido em três partes: a Torá, conhecido como Pentateuco ou Livro de Moisés, os Profetas e os Escritos”, explica o rabino, à frente da assembleia de alunos concentrados em manter o quipá na cabeça. A essência do judaísmo resume-se em uma única frase: “Ama o teu próximo como a ti mesmo”. É pela tradição oral e a leitura da Torá, o objeto mais sagrado para os judeus, que essa essência é mantida e alimentada. A Torá é muito valiosa, feita em pergaminhos de pele de carneiro costurados com veias de ovelha, formando rolos, é escrita à mão com tinta natural de essências e raízes. O local onde fica  guardada é a arca santa, um grande armário localizado no centro da sinagoga.
Os 613 mandamentos judaicos são divididos em 248 obrigações de “faça” e 365 obrigações de “não faça”. “365 são os dias do ano, nos quais nós temos que nos preocupar em fazer aquilo que deve ser feito, e 248 é a soma dos nervos, músculos e sistemas que compõem o corpo humano. Significa que quando algo precisa ser feito, nós temos que empenhar todo o nosso organismo e todas as nossas forças em fazê-lo”, explica o rabino. É a lógica bonita do judaísmo! A conversa seguiu no templo com a explicação sobre a dieta restrita dos judeus: seus alimentos, proibições e motivos, enquanto os olhos dos visitantes percorriam o espaço simples, cheio de livros e velas elétricas acesas, lembrando os mortos da comunidade.

Atitude

Para além do contato com a arquitetura local e os costumes religiosos específicos de cada povo, um caminhar pelos templos sagrados, de pés descalços; endossando um hijab ou um quipá; prostrados ou sentados em silêncio; o roteiro sagrado é um momento educativo, não apenas para os estudantes, mas para todos os que, entrando nessas construções de fé, entram também em si mesmos e cultivam a cultura do respeito e o distanciamento da ignorância que gera o preconceito.

Fonte: Dia-Edição 79 - Ago/Set 2015
Postado por: Diálogo




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