Encontros na colina

Data de publicação: 01/08/2017

Encontros na Colina
O Mosteiro Cristão Ecumênico de Taizé, na França, atrai uma média anual de 100 mil jovens do mundo todo. A previsão para o ano de 2015 é a de que os peregrinos ultrapassem esse record, para viverem três celebrações especiais ao lado dos monges: 75 anos de existência da comunidade, 100 anos do nascimento e 10 anos da morte do fundador, irmão Roger Schutz.
Como ocorre todos os dias, entre a primavera e o outono, também naquela manhã de 16 de agosto de 2005, centenas de hóspedes rezavam com os irmãos de Taizé quando foram tomados por inesperada comoção, o irmão Roger fora atacado a facadas por uma pessoa com distúrbio mental, o que o levou à morte instantânea. Muitos anos antes, ele havia escrito em seu diário: “O ápice da alegria, creio descobri-lo no consentimento em deixar um dia a vida terrestre por uma vida que jamais acabará... Consentir a própria morte significa encontrar a fonte da vida” (31 de dezembro de 1969 – do livro Que Tua Páscoa Permaneça para Sempre, p. 77). Naquele dia, aos 90 anos de idade, após uma vida de intenso testemunho de humanidade e de fé, ele chegou ao que acreditava ser o ápice da alegria, deixando por toda a terra marcas de passos seguidos por multidões. 

O mosteiro 

 Roger Schutz nasceu na Suíça, em 12 de maio de 1915. Dos pais protestantes, aprendeu o amor aos pobres e a amizade com cristãos de diferentes denominações. Estudou Teologia e, aos 25 anos de idade, sensibilizado pelos sofrimentos trazidos pela Segunda Guerra Mundial, tomou sua bicicleta e saiu da casa paterna em Genebra, à procura de um lugar para acolher os perseguidos. Entrou na França e encontrou um lugar pobre e esquecido, que ele lembra em seu diário: “Quando, em 1940, escolhi o vilarejo de Taizé, eu estava só... O homem, na solidão, é sensível à presença que o habita” (20 de fevereiro de 1969 – Que Tua Páscoa Permaneça para Sempre, p. 19). Lá, comprou uma casa abandonada e fez dela um refúgio para fugitivos do nazismo.
A guerra acabou e nunca mais o jovem Roger voltou à solidão no lugar que ele amorosamente e por toda a vida, chamará de Colina. Em 1945, alguns amigos protestantes e outros católicos se juntaram a ele e deram início a uma comunidade ecumênica de monges decididos a viver como irmãos em uma vida celibatária, no espírito de simplicidade, acolhida e reconciliação, dedicando-se aos necessitados. A intenção inicial era de silêncio, oração e trabalho ao lado dos operários da região. Não esperavam que a experiência de cristãos católicos e protestantes vivendo juntos em um mosteiro atraísse tanto a atenção e fosse tão amplamente divulgada. Isso, porém, aconteceu rapidamente.

Os peregrinos
Em pouco tempo, jovens da França, da Europa e de todos os continentes afluíram a Taizé à procura de uma palavra de esperança e de orientação, a ponto de os irmãos terem que repensar os objetivos da comunidade e abrir espaço para o acolhimento, como revela o diário: “Em alguns anos, as relações com esses jovens, vindos para alguns dias na Colina, modificaram-se. Primeiramente, não estávamos muito à vontade nos diálogos. Hoje, abordamos aquilo que está no centro de nossa vida. Ao longo destes diálogos tranquilos, simples, qualquer expressão, qualquer olhar tem importância” (dia 22 de agosto de 1969 – Que Tua Páscoa Permaneça Para Sempre, p. 59 ). Tão intenso passou a ser o atendimento aos peregrinos, que irmão Roger declarou em uma entrevista a jornalistas em 1970: “Minha vida consiste em discernir nos outros o que os devasta e o que os alegra. Consiste em comungar com o sofrimento e com a alegria dos homens” (Que Tua Páscoa Permaneça para Sempre, p. 84).
Em 1974, o Concílio de Jovens atraiu para Taizé 40 mil representantes de 42 nações e de dezenas de denominações cristãs. Hoje, até 5 mil jovens por semana chegam à procura de silêncio, paz, confiança encontro com novos amigos e  reconciliação para si, para os cristãos, para as religiões e para o mundo.

A vida cotidiana
Cerca de 100 irmãos de mais de 30 países vivem na comunidade, que se tornou um dos mais importantes locais de peregrinação cristã do mundo, nas pegadas da experiência inicial de irmão Roger, que refletia anos atrás: “Acolhendo sem cessar, pudemos sempre recriar lugares de paz, aqui na Colina. Pergunto-me se esses valores simples, o silêncio, e também o amor das coisas, dos animais domésticos, não fortificariam em nós uma dinâmica criadora” (20 de fevereiro de 1969 – Que Tua Páscoa Permaneça para Sempre, p. 19).
Os irmãos de Taizé vivem do próprio trabalho e não aceitam doações, heranças, ou presentes. O recurso para o acolhimento aos peregrinos vem da contribuição que cada um dá às próprias despesas, sendo que as tarefas práticas são feitas por voluntários. Os alojamentos e as refeições são adequados, mas extremamente simples, e grande parte dos visitantes pernoita no campo, em barracas de campanha e sacos de dormir.
O ritmo diário de Taizé está nos três momentos de oração na Igreja da Reconciliação. Os cânticos são simples frases repetidas em várias línguas, que gradualmente levam à concentração, e, quando a música cessa, a comunidade entra suavemente em silêncio. A reflexão e a partilha de vida têm seus espaços nos grupos linguísticos, onde os irmãos orientam o estudo bíblico, escutam e aconselham pessoalmente os jovens que os procuram.

Um dia típico em Taizé:
8h15 – Oração da manhã seguida de café
10 horas – Estudo bíblico
11 horas – Grupo de diálogo com outros jovens
12h20 – Oração do meio-dia, almoço e descanso
15 horas – Tarefas como limpeza de banheiros e outras
17h15 – Lanche da tarde e tempo de convivência livre
19 horas – Jantar
20h30 – Oração vespertina e repouso

O alcance

A influência de Taizé no ecumenismo e no diálogo inter-religioso é profunda e extensa, e não menos importante é a palavra da comunidade junto aos grandes líderes mundiais e à Organização das Nações Unidas (ONU) em favor da paz, da justiça e dos direitos humanos no mundo. Eventos anuais em grandes cidades da Europa, organizados pelos irmãos,  consolidam a reconciliação e o diálogo no espírito de Taizé.
Em âmbito mundial, os irmãos animam a Peregrinação de Confiança através da terra, lançada pelo irmão Roger há mais de 30 anos. Trata-se de encontros internacionais em grandes cidades de todos os continentes, com afluência de jovens de numerosos países. A confiança recíproca entre os peregrinos e as famílias que os hospedam na simplicidade faz quebrar barreiras e preconceitos e partilhar a vida, as crenças e as esperanças, na opinião do irmão Alois, sucessor de irmão Roger em Taizé.  Pequenas fraternidades de irmãos de Taizé espalharam-se pelo mundo, no Brasil, em Bangladesh, na Coreia, no Senegal, no Quênia, sempre a serviço dos mais necessitados. 
“O otimismo não nos abandona. O impossível abre caminho para o possível” –escreveu o irmão Roger no seu diário (19 de janeiro de 1970 – Que Tua Páscoa Permaneça para Sempre, p. 92). É o que os irmãos confirmam com a atuação intensa e marcante de encontros e diálogos que começam na Colina e se expandem por toda a terra.

Fonte: Dia-Edição 79 - Ago/Set 2015
Postado por: Diálogo




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