Evento e experiência

Data de publicação: 03/10/2017

Alfredo José Gonçalves*
 
Espetacularizar os acontecimentos históricos é o mesmo que envolvê-los num véu de neblina
que não permite revelar seus contornos reais e concretos.


Uma das grandes “magias” dos meios de comunicação social – a mídia em geral – consiste na capacidade de transformar os fatos em eventos. Estes, desfigurados pelos holofotes, câmeras e microfones, ocupam as páginas dos jornais e revistas, assim como o espaço do rádio e da televisão ou internet. Os fatos brutos se convertem em caricaturas que, no palco iluminado da vida cotidiana, desfilam atrás de máscaras, distorsões e meias verdades. Nesse caso, como escreve Simora Forti na introdução do livro de Hannah Arendt Le Origini del Totalitarismo (As Origens do Totalitarismo): “Os homens deslizam sobre a superfície dos eventos, onde consentem a si mesmos dirigir o olhar ao redor, sem penetrar na profundidade, da qual poderiam ser capazes”.
De fato, espetacularizar os acontecimentos históricos é o mesmo que envolvê-los num véu de neblina que não permite revelar seus contornos reais e concretos. A realidade se revela obscura, deformada, falsamente engrandecida ou dimínuida. E, na medida em que tais contornos escapam à nossa visão, pouco ou nada podemos fazer de efetivamente transformador. Limitamo-nos a cruzar os braços e, desde a perspectiva da plateia, assistir ao espetáculo encenado. Um exemplo: em Santo André (SP), anos atrás, um jovem mata a namorada porque esta havia rompido com o relacionamento.
Que faz a mídia? Durante vários dias sucessivos, bombardeia os telespectadores, leitores ou ouvintes com a notícia-bomba: na tela, desfilam parentes, testemunhas, comentários de “especialistas”...  A cada dia, tudo se repete, numa avalanche de repórteres, policiais que trocam tiros com o “assassino”, outros que socorrem a “vítima”, imagens, depoimentos, slogans e opiniões de todos os matizes possíveis e imaginários. Durante esse período, o mundo parecia se reduzir àquele assassinato. A “plateia”, como que hipnotizada, se tornara cega, surda e muda para outras notícias – anestesiada.

Espetacularização e banalização dos fatos

E aqui reside o perigo. A espetacularização daquele fato – o feminicídio – faz com que a violência do dia a dia sofrida pelas mulheres se converta em algo de menor importância, corriqueiro, normal... E mesmo natural e insignificante! A monstruosidade do “assassinato da mulhar amada” – elevada à condição de espetáculo – ofusca outras formas de violência que, cotidianamente, se abatem sobre a mulher. O espectador, sobretudo masculino, consciente ou não, é levado a dizer: “Isso sim é violência, não o que ocorre em casa!”. E com isso segue sua rotina não raro marcadamente machista.
Em outras palavras, a espetacularização de um fato, ao fixar o foco da atenção num caso extremo, dentro do amplo espectro da violência, banaliza os casos intermediários. Não só os banaliza, mas inibe e paralisa qualquer tipo de reação à violência que ocorre no meio em que se move o destinatário da notícia. Ou seja, naturaliza o que nada tem de natural. Resulta que espetacularizar é o mesmo que impedir qualquer ação contra um estado contínuo de violência. O mesmo pode ocorrer com a política – e neste campo, nos últimos meses, o Brasil tem dado um show –, pode acontecer também com a fome ou a guerra – quando se espetacularizam, respectivamente, uma criança esquelética ou uma cidade devastada. A fome e a subnutrição diária, bem como os conflitos de menor monta, acabam sendo ignorados. Fazer da violência um espetáculo tende, no limite, a neutralizar os atos menores de violência ou, pior ainda, a violência disfarçada em gentileza ambígua ou promessa inócua.
Outra coisa é a experiência viva e concreta de determinado fato, acontecimento. Aqui, em vez de deslizar pela superfície das ondas aparentes, mergulhamos nas correntes profundas e subterrâneas. Em lugar de espetáculo, prevalece a análise dos acontecimentos em suas causas, implicações e consequências. Só assim é possível exprimir qualquer juízo de valor. Só assim é possível colocar os dados na mesa de forma aberta, corajosa e transparente. E, olhos nos olhos, avaliar, digerir, dialogar e buscar soluções adequadas. Enquanto o evento, como diz o próprio termo, é varrido pelo vento do próximo espetáculo a ser exibido, a experiência desce às profundezas do coração e da alma humana, cria raízes e faz crescer e amadurecer a personalidade e a visão de conjunto da realidade.
O evento prima pelos contatos fugazes, tênues, efêmeros e transitórios, por seguir a onda que está na crista da moda e pelas últimas novidades do mercado; ao passo que a experiência cultiva relações profundas e duradouras: alimenta-as e, ao mesmo tempo, extrai delas o alimento para enriquecer seu percurso vital. Daí que a experiência seja caracterizada, em geral, por um pequeno número de amigos, mas fiéis e prontos a uma dedicação integral e prolongada. Já o evento, através das redes sociais, por exemplo, é capaz de “fazer, desfazer e refazer” um punhado de “amigos” num único dia. Rede virtual de amigos, a qual pode ser deletada com a mesma rapidez com que foi conectada. Entra em cena a mentalidade provisória e descartável da sociedade contemporânea.
Evento tem a ver com a via curta que gera a expectativa, isto é, a ansiedade intempestiva de soluções imediatas para problemas igualmente imediatos. A experiência, ao contrário, desenvolve e se fundamenta sobre a via longa da esperança, ou seja, a capacidade  lenta e laboriosa de silenciar, escutar e projetar – “dormir no assunto”, como diz a sabedoria popular. O primeiro se sustenta sobre o imperativo do presente, o movimento frenético e estridente do hoje, aqui e agora; o segundo, aprende a ler em profundidade “os sinais dos tempos”, o que lhe confere o dom da profecia. Não se trata de adivinhar o futuro, e sim de manter um olhar crítico sobre o momento atual, a ponto de sentir as tendências ocultas da história. Sim, a experiência é capaz de ouvir a brisa suave da nova aurora, antes mesmo que ela inicie a dança mágica das espigas pelos campos; capaz de perceber os primeiros raios do sol nascente, enquanto todos ao redor ainda dormem.

Experiência e experimento
Além do mais, convém distinguir experiência e experimento. A primeira tem os pés firmes no solo sólido da história, extraindo da terra úmida e escura os nutrientes que a mantêm viva. Daí a capacidade de criar raízes, erguer-se do chão, e desenvolver a esperança, de produzir folhas, flores e frutos. O experimento, por sua vez, tende a acumular tentativas de sucesso, tão entusiasticamente eufóricas quanto é vizinho e nocivo o insucesso. De fato, os eventos navegam nas ondas oscilantes dos sucessos espetaculares, o que significa, cedo ou tarde, cair na bruma turva do fracasso e do esquecimento. O experimento, de forma geral, vale para uma vocação religiosa, para uma profissão, para uma amizade, para um namoro ou para um matrimônio. “Tento, se não der certo, parto para outra”!... Partir para outra, eis o lema de todo experimento. A experiência, em lugar dessa atitude leviana, reflete e avalia as pessoas e implicações que estão em jogo, faz uma opção real, viável e concreta, procura planejar os passos de um determinado caminho, desenha uma meta a ser alcançada, escolhe os meios e estratégias que devem acompanhar a decisão.

* Alfredo José Gonçalves.
Sacerdote da Congregação dos Missionários de São Carlos. Diretor do Centro de Estudos Migratórios (CEM), de São Paulo (SP), e assessor da Pastoral Social na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Atualmente, em Roma, exerce o cargo de vigário-geral da congregação.

Fonte: Edição Nº85 Jan/Mar 2017
Postado por: Diálogo




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