Vida e agonia do Rio São Francisco

Data de publicação: 04/10/2017

Roberto Malvezzi (Gogó)*

Quando Américo Vespúcio, em 4 de outubro de 1501, chegou à foz do Rio São Francisco, como era de praxe, batizou o que tinha diante dos olhos com o nome do santo do dia. Era dia de São Francisco. Para as populações originárias, ele era Opará, ou seja, o Rio-Mar.
Depois ainda recebeu outras alcunhas, bem como Rio da Integração Nacional e até mesmo Nilo Brasileiro. A mais expressiva vem do trato pessoal e carinhoso que a população local lhe confere: Velho Chico.
A partir da instituição das capitanias hereditárias no Brasil, pelo rei de Portugal, dom João III, em 1534, foi inserido o sistema de sesmarias – de lotes de terra inculta ou abandonada que os reis de Portugal cediam aos novos povoadores com o objetivo de cultivar terras virgens. É pelo sertão do São Francisco, povoado de populações indígenas, que os sesmeiros do São Francisco – funcionários reais responsáveis pela distribuição de sesmarias – vão adentrar o sertão, o Brasil. Duas grandes sesmarias partiam de Salvador (BA) e se alongavam na direção do São Francisco: a dos Garcia D’Ávila e a dos Guedes de Brito.
A primeira vai em direção à foz do São Francisco e, por ali, sobe ocupando a região. A segunda vai em direção de Bom Jesus da Lapa (BA), ocupando a Chapada Diamantina. Sob esses comandos, as populações indígenas, depois negras, mestiços, vão viver até 1850, quando é promulgada a Lei de Terras, um pouco antes da Abolição da Escravatura e da Proclamação da República.
Então, ao longo do São Francisco vão se estabelecendo as fazendas de gado, sempre cuidadas por uma família de escravos. Dessas sedes de fazendas surgiram muitas vilas e cidades. Mais tarde, ainda, portos ao longo da calha principal, que levava o povo dos sertões ao Sudeste brasileiro.
As sesmarias estiveram na origem dos grandes latifúndios no Brasil. A distribuição de grandes extensões de terras a um único sesmeiro e a utilização de terras que não estavam dentro dos limites estipulados pelas cartas de Sesmarias contribuíram para a desigual distribuição de terras no Brasil, uma das causas da desigualdade social ainda vigente no País.
O que temos hoje diante dos olhos é fruto de um processo predador de ocupação do Vale do São Francisco, semelhante ao que aconteceu e acontece em todo o território brasileiro. A mentalidade extrativista dos colonizadores permeia nossa cultura. A devastação natural dos nossos biomas e a escravização das populações originárias formatam nosso “pecado original”, até hoje sem redenção. Da forma como nossa civilização começou, continua.

A decadência

Tal decadência pode ser observada a olho nu. Quem teve a graça de viver próximo e até dentro do velho rio por tantos anos não se conforma com o processo de seu assassinato. O Rio São Francisco não está morrendo, está sendo morto.
Ela não se mostra apenas na diminuição do volume de águas, mas também de sua vida rica em peixes, da agricultura de vazante, portanto, de toda uma cultura e culinária oriundas dos bens naturais oferecidos pelo rio e pelo modo de prepará-los, que a criatividade ribeirinha inventou. Decaiu a oferta de proteínas, trouxe mais insegurança hídrica, alimentar, desfez-se o prazer de uma culinária farta e saborosa.
A indignação das populações ribeirinhas – e de todos que com ela comungam – é também acompanhada de um sentimento de impotência. O avanço predador continua, mas o povo não tem forças para resistir, o inimigo parece maior e implacável, embora nunca perca a esperança.

Os números
Segundo o Caderno Globo, nº 9, p. 9, se considerarmos as nascentes do São Francisco no Rio Samburá, seu comprimento é de 2.863 quilômetros. Se tomarmos como referência as nascentes da Serra da Canastra, então encurta um pouco, 2.814 quilômetros.
A Bacia do São Francisco perpassa oficialmente sete estados brasileiros: Bahia (48,2%), Minas Gerais (36,8%), Pernambuco (10,9%), Alagoas (2,2%), Sergipe (1,2%), Goiás (0,5%) e Distrito Federal (0,2%), totalizando um território de 639.219 quilômetros quadrados, de acordo com dados do Comitê Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF). O conjunto de suas águas é formado por 168 afluentes, sendo 90 na margem esquerda e 78 na margem direita. Em seu percurso, vai passar por 521 municípios. Marca presença em três biomas com suas águas: Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica (Caderno Globo nº 9, pp. 8-9). A população do vale do São Francisco era estimada em 14,2 milhões de pessoas em 2010, segundo a Agencia Nacional de Águas (ANA).

Os vapores
Quando começa a navegação dos vapores no São Francisco, importados do Mississippi, começa também a degradação das matas ciliares do rio. Eles eram movidos à lenha, e a madeira mais próxima dos portos era a das matas ciliares. Como resultado desse processo, hoje restam ao São Francisco aproximadamente 5% de sua proteção ciliar original. Um desastre!
Mas o desmatamento ganhará um impulso arrasador quando surge a indústria siderúrgica em Minas Gerais. A madeira faz parte da composição do ferro-gusa e, posteriormente, do aço. Portanto, não há siderurgia no Brasil sem carvão vegetal. Com essa necessidade, a indústria siderúrgica vai avançar de forma devastadora sobre o Cerrado Mineiro.
Por fim, o processo de desmatamento do Cerrado vai ganhar seu auge atual com a entrada da pecuária, exigindo pastos para os rebanhos e o plantio de grãos no espaço antes ocupado pela vegetação das savanas.
De acordo com o artigo “O Berço e a morte das águas”, de Altair Sales Barbosa, com a perda de vegetação e a compactação dos solos, o Cerrado, considerado a mãe das águas brasileiras, já não consegue cumprir seu papel de armazenar as águas originárias do ciclo das chuvas – grande parte oriunda dos rios voadores da Amazônia –, com a consequente fragilização de seus aquíferos. Portanto, aqui está a leitura mais assombrosa dessa história, isto é, para muitos cientistas, o São Francisco não tem mais volta, já que depende do Cerrado e o bioma está sendo extinto. Pior, todos os rios dependentes do Cerrado terão um futuro semelhante ao  do São Francisco.

Perda da qualidade das águas
Some-se à perda quantitativa das águas do São Francisco sua perda qualitativa. O rio é assolado pela falta de saneamento, seja dos dejetos domésticos, industriais, resíduos de agrotóxicos e outros produtos químicos minerários que são lançados em seu leito todos os dias.
A perda da quantidade de água e o aumento da contaminação fazem com que o rio perca a capacidade de dissolução desses dejetos. Além do mais, como muitos têm origem química, a simples depuração bacteriana de sua contaminação não elimina todos os problemas graves gerados.
Além da perda quantitativa e qualitativa de água, há o aumento da demanda, sobretudo para a agricultura irrigada. Essa expansão não se dá apenas no Vale do São Francisco, mas agora se expande para outros estados do Nordeste que demandam água do São Francisco, não só para abastecimento humano, mas para os usos agrícolas e industriais, através da transposição de águas do São Francisco para o Nordeste Setentrional. O resultado é o escasseamento total da água na região semiárida, inclusive para fins básicos e prioritários em lei, como o consumo humano e a dessedentação dos animais.

As barragens e as resistências
Finalmente, agregue-se a esses problemas a construção de cinco barragens para geração de energia elétrica no leito do rio. Elas modificaram a dinâmica das águas, eliminando as lagoas marginais – berçários de reprodução dos peixes –, impedindo a reprodução dos peixes de piracema, decantando o húmus que fertilizava as ilhas e alimentava a flora e a fauna, provocando enchentes arrasadoras e agora armazenando o pouco de água que ainda existe no São Francisco. Para as populações, essa é a face mais visível dos transtornos impostos por um modelo de desenvolvimento que ignorou por completo as populações locais e a própria natureza do rio. Em nome do progresso, está sendo morta a galinha dos ovos de ouro, literalmente.
Talvez seja necessário dizer que há resistências, históricas e profundas. Ainda existem muitas nações indígenas no São Francisco, um dia já dadas por extintas. Ainda há ribeirinhos teimosamente tentando viver nas ilhas e do pescado que resta. Ainda há articulações de movimentos sociais tentando estabelecer resistências ao processo predador. Há quem faça “greve de fome” para avisar que esse caminho de desenvolvimento é morto e gera mortes. Ainda há peixes de piracema, nadando contra a corrente, dizendo que a vida é possível.
Talvez sejamos todos derrotados. Mas, não temos outro caminho. Parafraseando Darcy Ribeiro, detestaríamos estar do lado dos vencedores. Nossa causa tem bom senso e é justa.
 
Referências
    Agência Nacional de Águas (ANA). Região Hidrográfica do São Francisco. <http://www2.ana.gov.br/Paginas/portais/bacias/SaoFrancisco.aspx> Acesso em: 30/10/2016.
     BARBOSA, Altair Sales. “O berço e a morte das águas”. In Caderno Globo nº 9, p. 23. Globo Comunicação e Participação S.A. Globo Universidade. São Paulo, maio 2016.
     Comitê Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF). A Bacia. <http://cbhsaofrancisco.org.br/a-bacia/>. Acesso em 30/10/2016
     Caderno Globo, nº 9. Vozes do Velho Chico. Globo Comunicação e Participação S.A. Globo Universidade. São Paulo, maio 2016.
     MALVEZZI, Roberto. As Várias Faces do Velho Chico. In Caderno Globo, nº 9, p. 11. Globo Comunicação e Participação S.A. Globo Universidade. São Paulo, maio 2016.
 
* Roberto Malvezzi (Gogó).  Formado em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Escritor e músico.





Fonte: Edição Nº85 Jan/Mar 2017
Postado por: Diálogo




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