A morte esculpida em arte

Data de publicação: 04/10/2017

Por Karla Maria

Quem vai à Índia costuma incluir em seu roteiro uma visita a um dos mausoléus mais antigos e famosos do mundo: o Taj Mahal. Símbolo da beleza e do amor, o prédio foi construído entre 1631 e 1654 e inspirado em edifícios mongóis, incorporando tradições do islã, da Pérsia e da própria Índia.
Localizado na cidade de Agra, o Taj Mahal foi feito de tijolo revestido com mármore branco incrustado de pedras preciosas. É rodeado de enorme beleza e magnitude arquitetônica, envolvendo cerca de 20 mil homens em sua construção. No local repousa Mumtaz Mahal, a esposa preferida do imperador Mughal Shah Jahan.
Relata-se que, na ocasião de sua morte durante o parto, todo o reino permaneceu em luto por dois anos, sem músicas e festas, e que após esse período o rei passou a cumprir sua promessa de imortalizar seu amor, ordenando a construção de um monumento-túmulo para que sua rainha sempre fosse lembrada. Hoje, o monumento é uma das sete maravilhas do mundo moderno, patrimônio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), enfim, a atração mais cheia de honras e títulos da Índia.

Arte tibetana homenageia seus mortos
A cerca de 15 mil quilômetros do Taj Mahal, no Brasil, outras belezas naturais e da arte sacra tibetana homenageiam seus mortos. Na cidade de Três Coroas, na serra gaúcha, por exemplo, o templo tibetano de Três Coroas, chamado oficialmente Khadro Ling, destaca-se na paisagem.
Trata-se de um local colorido, com templos para a prática de orações e mantras, pintados à mão com precisão e devoção, cercados por jardins e estátuas que lembram seus mestres, além das oito stupas e nelas cinzas e restos mortais. Estas são estruturas com base larga e ápice pontiagudo que remetem à nossa travessia de vida – desde nosso apego a Terra, nossa escalada pelos degraus de sabedoria até a iluminação suprema.
Até hoje são erigidas stupas quando grandes mestres budistas morrem, mas antes mesmo de Buda nascer elas já eram construídas também na Índia. Algumas com o objetivo de servir de túmulo de reis e nobres, outras como monumentos bramanistas e somente depois da passagem de Buda na Terra as stupas passaram a ser reconhecidas e construídas para fins devocionais.
Mais do que honrar os mortos, essas construções reverenciam a vida, isso porque a stupa é um marco de encontro entre discípulos e mestres, da sabedoria de Buda compartilhada com os homens. As pessoas que visitam tais obras renovam a conexão com os ensinamentos de seus mestres espirituais e são convidadas a meditar e pensar sobre sua vida e sabedoria.
Diante de uma stupa é costume fazer prostrações, orações ou meditações, para assim receber as bênçãos e lembrar os ensinamentos de Buda. Atividades não muito diferentes daquelas em que cristãos, em grande parte do mundo ocidental, realizam quando visitam seus mortos.

Cemitério: um patrimônio artístico
Todos os anos, em 9 de julho, por exemplo, os paulistas visitam o mais emblemático memorial ligado à Revolução Constitucionalista de 1932, uma fracassada revolta contra o governo de Getúlio Vargas. Ali, no Obelisco Mausoléu aos Heróis de 32, mais conhecido como Obelisco do Ibirapuera, descansam os restos mortais de 713 combatentes, além das cinzas dos estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, vítimas da repressão a um protesto estudantil contra Vargas.
Mas os cemitérios, claro, são o local propício para a homenagem aos mortos, e neles há a expressão cultural de seu povo, de seus mortos. No início do século 20, havia a clara preocupação de preservar a memória dos mortos através de obras de renomados artistas plásticos.E é no centro da maior cidade do País, em São Paulo, que é possível verificar a arte como expressão da morte, ou como expressão do sentimento dos que ficam a saudar a saudade.
“Os cemitérios não são apenas um local de lástimas, dor e sofrimento. Nesse espaço mortuário, podemos compreender diversos significados da cidade. Podemos compreender a história da cidade através das pessoas que estão sepultadas. Também podemos compreender os efeitos de sua urbanização e como o cemitério é colocado nesse contexto”, aponta a historiadora Glaucia Garcia.
Ela destaca que antes os cemitérios eram instalados em locais distantes das cidades e o crescimento populacional “engoliu” a necrópole, ou seja, o que antes era longe agora ficou próximo. Isso aconteceu com diversos cemitérios, dentre eles o da Consolação, o Araçá e o São Paulo.
O Cemitério da Consolação é um dos exemplos de espaço de múltiplos olhares sobre a sociedade paulistana, graças às diferentes expressões de identidades culturais particulares e/ou privadas que lá são representadas. Basta fazer uma caminhada por entre os túmulos, guiada por Francisvaldo Gomes, conhecido como Popó, que teve como mestre o falecido historiador Délio Freire dos Santos, responsável pelas primeiras pesquisas sobre o patrimônio artístico e histórico do local.
“Construir túmulos suntuosos dava status àquela família. Os escravos não recebiam homenagens”, aponta Popó, ao lado do túmulo do poeta e abolicionista Luiz Gama, no terreno 17 da rua 12, dentro do Cemitério da Consolação, que trazia em sua lápide em mármore as flores que simbolizam a pureza, o manto que lembra a perda e a dor e o símbolo da maçonaria, da qual era membro.
Em uma visita de quase duas horas, o possível medo ou sentimento de apreensão perdem espaço para a curiosidade histórica, para a contemplação da arte que ampara e homenageia os nomes atrás de cada lápide. Quando no túmulo foi enterrada uma criança, é possível verificar a inscrição: O Inocente.
“Todos os túmulos erigidos são propriamente uma forma de preservação desta memória. Essa memória é preservada e revelada através da confecção de imagens, as quais muitas vezes produzidas por artistas e ateliês consagrados, tornando esse espaço rico também no seu aspecto artístico, onde são identificados elementos que demonstram a história social e artística dessas regiões”, revela o teólogo e historiador Thiago Nicolau de Araújo.

A arte preservando a memória dos mortos
A arte tumular, ensina a historiadora Glaucia Garcia, consiste, portanto, em esculturas que ornam os jazigos e capelas dentro dos cemitérios. Está ligada à simbologia de vida e morte e é feita de diversos materiais, dentre eles mármore, bronze e ferro fundido. “Precisamente em São Paulo as primeiras esculturas de mármore vinham da Itália (final do século 19) e o principal destino era o Cemitério da Consolação”, explica a historiadora Glaucia Garcia.
Glaucia pontua que já na década de 1920, quando São Paulo passava por diversas transformações urbanísticas e culturais, sob os impactos da 1ª Guerra Mundial, a importação de obras tumulares começou a ficar difícil. “Outra corrente mostra que escultores brasileiros estavam aprimorando seus conhecimentos (inclusive escultores de outros países que vieram morar no Brasil) e, assim, esses artistas eram contratados pelas famílias para fazer verdadeiras obras de arte dentro dos cemitérios, dentre eles, Nicola Rollo, Victor Brecheret, Galileo Emendabili, Vicente Larocca e Armando Zago”, conta a historiadora.
E está tudo lá, pronto para ser visto, visitado e absorvido como história e cultura do povo paulista e daqueles que construíram a cidade, os imigrantes. A obra Grande Anjo (1938), do modernista Victor Brecheret, por exemplo, está na quadra 44, terreno 150, e guarda os restos mortais da família Botti.
Outra escultura do autor, e esta premiada, é Sepultamento (1923), na rua 35, terrenos 1 e 2, no jazigo de Olívia Guedes Penteado, com o título original Mise au Tombeau. A escultura em mármore mede 2,26 metros x 3,65 metros, tem formas lineares e uma suavidade melódica para tratar o tema do sepultamento, ainda que de maneira formal, evocando um clima de serenidade.
“Por conterem obras funerárias de renomados artistas, os cemitérios podem ser uma forma de se preservar o patrimônio histórico-cultural de uma região, tornando-se desse modo ‘museus a céu aberto’. Analisando os nomes das famílias e as fotografias, podemos saber a origem e a etnia dos habitantes da área”, revela o historiador Araújo, em seu artigo “Espaço das representações da morte: Arte tumular como expressão da cultura”.
Outro aspecto chama a atenção no Cemitério da Consolação e atrai um público antes impensado para espaços funerários: estudantes, jovens e crianças. Naquele local também estão enterradas personalidades brasileiras como Líbero Badaró, Monteiro Lobato, a Marquesa de Santos, Oswald de Andrade, Paulo Machado de Carvalho, Caio Prado Júnior, Ramos de Azevedo, Emílio Ribas, Tarsila do Amaral e Paulo Goulart, entre outros.
“É justo que essas pessoas tenham sua memória homenageada e não sejam esquecidas. A gente quis chamar as pessoas para aquele espaço para que descobrissem a riqueza que estava escondida e achamos que fazer isso através da cultura poderia ser atrativo”, aponta Fúlvio Gianella Júnior, chefe de gabinete da Secretaria Municipal de Serviços de São Paulo.
Gianella é um dos responsáveis pela visita guiada ao Cemitério da Consolação e destaca que outros cemitérios da periferia são pontos também de encontro para as famílias, já que se tratam de grandes áreas verdes abertas ao público. “Tem de quebrar esse paradigma da morte. A morte é um processo natural da vida. Não tem que esconder isso, as pessoas precisam conviver com essa realidade e saber que estar ali, ocupando os espaços, é também uma forma de homenagear seus mortos”, conclui o chefe de gabinete.

Fonte: Edição Nº85 Out/Dez 2016
Postado por: Diálogo




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