Papel da liderança

Data de publicação: 06/10/2017

Antonio Boeing *

O campo cultural na atualidade encontra-se num processo de grandes mudanças. Mudanças que ocorrem com muita rapidez, principalmente com os avanços tecnológicos, que possibilitam aos indivíduos e grupos transitarem não apenas dentro dos seus limites geográficos, mas também pelas diferentes concepções e tradições culturais e religiosas. Se por um lado os avanços favorecem a organização da vida, por outro também fragilizam, especialmente a identidade humana, pela falta de lideranças e referenciais consistentes. Para compreender tal fenômeno e lidar com ele nos processos educativos, este texto analisa a busca humana, a importância de conhecer referenciais significativos para encantar e envolver as diferentes dimensões da vida.

A busca humana
Quando se analisa o ser humano, percebe-se é que ele não nasce com uma programação biológica que o adapte ao mundo. A inadaptação originária impulsiona-o a inventar e transformar a natureza para que ela se ajuste às suas exigências. Ao transformar o mundo em que ele se encontra, o ser humano inventa técnicas e instrumentos, que podem ser considerados extensões do seu corpo. Ele cria cultura como adaptação da natureza segundo as suas necessidades, desejos, preocupações, sonhos e esperanças. A diferença na maneira de como se dão as adaptações determina o modo de ser de cada pessoa, grupo e sociedade.
O ser humano além de ser aberto é também relacional e simbólico. Relaciona-se em sociedade e tem a capacidade de simbolizar, isto é, atribuir significado que transcende a aparência das coisas. Os símbolos adquirem uma dimensão cultural só compreensível a partir do grupo que atribui os significados. Só a pertença do indivíduo ao grupo lhe garante a vida e o integra na sociedade. De qualquer forma, o sentido de pertença suscita solidariedade e estabelece limites na convivência. E um dos grandes dramas do ser humano é não ter pertença social.
O que se constata também é que tanto o modelo de sociedade fundamentado na dependência/dominação como na independência/individualismo não foram capazes de contemplar a vida nas suas diferentes dimensões. Por isso  se torna urgente desencadear práticas educacionais que ampliem a autonomia do ser humano para que este seja capaz de atuar na interdependência. A construção de uma sociedade cooperativa e sustentável só será possível pela interdependência. É diante deste quadro que se coloca a questão da identidade e função da escola como espaço importante no processo educacional de qualificação da vida de todos. Uma escola que não seja fragmentada, mas que contemple as dimensões da vida, como a biológica, psicológica, relacional, intelectual, social, e também seja capaz de considerar o direito à diferença.

Referenciais para o desenvolvimento humano
O desenvolvimento humano é o resultado do acesso de cada indivíduo a múltiplos referenciais, que possibilitam a assimilação de elementos para a construção do seu ser. Não tem outra forma de se tornar humano, ao menos da forma como se conhece na sociedade atual, a não ser por meio de referenciais com base nos quais seja possível adotar padrões de conduta e de organização da vida. Os referenciais possibilitam o desenvolvimento das potencialidades humanas, pois viabilizam o processo de adoção de novos saberes, enriquecem o processo de experimentação no cotidiano e abrem perspectivas para a criação de novos padrões culturais.
A escola, além da família, é espaço por excelência para a construção da identidade individual e coletiva; por isso tem a responsabilidade de oferecer referenciais éticos que atuem na defesa da vida e da inclusão de todos na sociedade. O ser humano é um projeto inacabado e permanente, por isso vai se fazendo através do seu processo educativo, isto é, a sua identidade expressa o que foi possível aprender de suas relações familiares e circunstâncias sociais. Tanto adultos como crianças necessitam de referenciais significativos para prosseguir respondendo aos desafios de cada momento e contexto histórico e, assim, permanentemente, construírem seu jeito de ser e estar no mundo.
Na atualidade, constata-se uma fragilidade de lideranças que sejam referenciais, pois os parâmetros de conduta são estipulados por interesses alheios, especialmente por aqueles que se arrogam o direito de dirigir e controlar o agir do outro. Delegar a outros a definição dos rumos da vida cria, sem dúvida, um desencanto devido à manipulação e massificação. É impossível construir uma sociedade saudável e inclusiva se os parâmetros norteadores da vida e da organização social forem impostos e, consequentemente, tirarem a possibilidade de todo indivíduo fazer escolhas para construir a própria autonomia. Nesse processo, cada ser humano necessita, continuamente, assumir uma atitude reflexiva diante das próprias ações, pois, caso contrário, comprometerá tanto a sua existência como as outras formas da vida se manifestar.
Sem lideranças que exerçam autoridade e contribuam para criar condições para a organização conjunta da vida, não há como construir a identidade humana. Por isso, a liderança não se concentra em alguém que define o que os outros devem ou não fazer, mas naquele que viveu uma experiência significativa maior na vida e está em processo permanente de crescimento. É necessário que essa pessoa veja além do senso comum, que sonhe, acredite e viabilize caminhos alternativos. Assim, é preciso desencadear um movimento permanente de redes que somem forças, levando em conta a especificidade própria de cada indivíduo e instituição, cientes dos limites que a realidade impõe, mas também da riqueza e da capacidade das lideranças influenciarem indivíduos, grupos e sociedades, na construção de identidades e estruturas saudáveis. Dar visibilidade aos referenciais éticos é um grande desafio, deve-se mostrar que a partir deles é possível assimilar formas de vida pautadas no bem de toda a coletividade.

Conhecer, encantar e envolver
Um dos grandes desafios na sociedade atual é que as mudanças ocorram num processo cada vez mais acelerado. Esse processo aumenta o número de informações disponíveis que, segundo os especialistas, dobra praticamente a cada dois meses. Uma avalanche de informações que atinge a grande maioria da população, especialmente os conectados, mas não só, pois em todos os espaços e tempos há muita produção e projeção, porém pouca assimilação. Humanamente não tem como absorver tudo o que se produz, pois não cabe nas horas do dia, nem da semana, mês ou ano. Sendo assim, da mesma forma que as informações chegam, elas também passam. Diante disso, é possível observar que uma das grandes tentações da humanidade é a perda da memória. Diminui o interesse das novas gerações sobre quem foram os antepassados e quais foram os seus feitos. Desconsiderar a riqueza gestada no processo histórico leva a uma atitude de onipotência e arrogância que inviabiliza uma convivência saudável.
Quando olhamos as culturas de maior Tradição, as informações passadas nos momentos formativos individuais ou coletivos estavam relacionadas àquilo que era o essencial para aquele grupo humano. Eram narrativas que mobilizavam e colocavam todos em pose para realizarem no cotidiano o que era relevante. O relato tocava a vida das novas gerações, mas também das mais antigas, porque trazia à memória aquilo que era o mais importante. Mobilizava emocional, afetiva e intelectualmente toda a comunidade, sobretudo para continuar fazendo aquilo que os antepassados já haviam feito. Não era uma mera reprodução, pois, além de fazer o que já havia sido feito, era preciso avançar, isto é, dar um passo na atualização atenta aos desafios contemporâneos, como também impulsionar para as novas oportunidades.
As narrativas, sejam religiosas, sejam sobre outras dimensões da vida, impregnavam os ouvintes porque eles passavam a conhecer. É importante considerar que aquilo que não conhecemos para nós não existe. As pessoas, valores, referenciais, divindades, carisma, missão, coisas só passam a existir para nós quando as conhecemos. Tudo o que não conhecemos para nós não existe, daí o desafio de passar das informações para o conhecimento, e então abrir caminhos para chegar à sabedoria.
É urgente avaliar quais efetivamente são as narrativas na escola: o que é narrado em cada área do conhecimento? O que é essencial para a comunidade educativa? Se ficar apenas na esfera da informação, jamais chegará ao conhecimento e muito menos atingirá a sabedoria. Toda sociedade totalitária elimina as instituições e faz um monólogo, por isso nestes tempos de esvaziamento das instituições que fragiliza as narrativas comunitárias, é preciso, urgentemente, resgatar o valor das instituições, pois sem elas não temos nenhuma projeção social. As novas gerações têm o direito de conhecer os grandes feitos de pessoas e das instituições através das narrativas, para também aderirem a elas e ajudarem no encantamento da vida.
O ser humano em toda a sua história buscou formas para encantar a vida. Em todos os tempos e lugares, perceberam que sem o conhecimento não tinha como se encantar. O encantamento emerge do processo de conhecimento, quanto mais se conhece maior a probabilidade de se encantar com as dimensões da vida, da cultura, da sociedade, da religião, da família, do lúdico e da educação. É preciso ressaltar que o conhecimento é sempre provisório, é processo permanente e carregado de muito mistério. Mistério que os limites humanos ainda não conseguem compreender ou, talvez, nunca irão compreender.
Quando as culturas tornaram alguns conhecimentos absolutos e intocáveis, infelizmente também desencantaram e comprometeram muitas expressões de vida. As posturas sectárias e fanáticas são a expressão do não conhecimento das múltiplas possibilidades que a vida oferece na sua diversidade.  O ser humano, se estiver focado no essencial, irá perceber que há múltiplas razões e possibilidades de concretizar os sonhos e, sem dúvida, seguir sonhando. O encanto não está na efetivação plena do sonho, pois talvez ele não se realize, antes sim, está na força do processo. O fluir do processo educativo integral já encanta e envolve. O caminho para potencializar e encantar a vida é o despertar contínuo para a dignidade de sujeitos e protagonistas de sua história, ser sujeitos-cidadãos. E, ter sempre como meta, envolver as diferenças para fazer com que aquilo que parece impossível se torne possível.
Para melhor definir as razões e essência da educação, é preciso planejar ações para curto, médio e longo prazo. É necessário mergulhar nas contradições do mundo atual, procurando decodificar e decifrar a novidade numa atitude de busca de sentido, inter-relacionando-o com a complexidade de todos os fenômenos. É preciso também ter presente que as mudanças significativas não se efetivarão através de ações “mágicas”, mas emergirão como resultado de um processo que exige conversão e interiorização do que é o essencial. Conhecer, encantar e envolver, eis as razões essenciais dos processos educativos.

Antonio Boeing *
Licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, mestre em Teologia Dogmática, doutor em Ciências da Religião, ouvidor e formador no Colégio Santo Américo, secretário da Associação Nacional de Educação Católica (Anec) em São Paulo, assessor de Pastoral da Rede Salesiana de Escolas. E-mail:  aboeing20@gmail.com

Fonte: Edição Nº86 Abr/Jun 2017
Postado por: Diálogo




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