Liderar é unir forças e organizá-las para o bem

Data de publicação: 09/10/2017

Fernando Altemeyer Junior *


     O dicionário da língua portuguesa define líder como alguém que tem autoridade para comandar ou coordenar outros. Assim define que o líder político, religioso ou cultural seja sempre aquela personalidade cujas palavras e ações exerçam influência positiva no comportamento de um povo ou de uma determinada cultura. Líderes surgem nas encruzilhadas da História em momentos de crise e de busca. Infelizmente a História recente também nos apresenta certos líderes que assumiram a posição de guias que degradaram e destruíram vidas e povos. Conhecemos a vida e ação fascista do italiano Benito Mussolini, chamado de Il Duce (o condutor); o papel macabro do genocida alemão Adolf Hitler, autoproclamado como Führer (o líder); e as ações imperialistas de Joseph Stalin, o tirano vermelho. Entre a definição do dicionário e a realidade há uma enorme fenda que exige ser compreendida. A liderança nas religiões seguiria o exemplo suave de seus fundadores ou copiaria mimeticamente a ideologia dos líderes das ditaduras modernas?

Na perspectiva de Jesus
     De Jesus e de suas palavras originais aprende-se que líder é de fato uma experiência vital que faz emergir o melhor do outro. Ou seja, liderar é próprio de quem tem autoridade. Distancia-se de poder e de domínio. Aproxima-se de serviço, ausculta e autocontrole. Disse o mestre Jesus aos seus companheiros depois de uma dura disputa sobre cargos e honras entre dois deles frente aos doze apóstolos: “Jesus, porém, chamou-os, e disse: “Vós sabeis que os chefes das nações têm poder sobre elas e os grandes as oprimem. Entre vós não deverá ser assim. Quem quiser se tornar grande, torne-se vosso servidor; quem quiser ser o primeiro seja vosso servo. Pois, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate em favor de muitos” (Evangelho segundo Mateus 20,25-28).
 
 
 
 
 

     Líder não oprime nem cala os pequeninos ou quem pensa diferente. Para Jesus, liderança exige mudança no modo de agir. Líder é todo aquele que reúne em torno de si pessoas entusiasmadas; não cansa os ouvintes; comunica sempre um segredo alvissareiro; conquista a atenção de cada pessoa; faz-se entender; não dá respostas prontas, mas faz perguntas inteligentes; é avesso ao fundamentalismo religioso; dá amplo espaço para pensar e acredita nos jovens e nas mulheres sem impor visão machista ou misógina; é direto e objetivo; trata a todos com respeito e retidão; é bem-humorado e sagaz; vê a realidade, emociona-se, crê na força histórica dos pobres; é movido pelo amor e pela justiça; preocupa-se com aquele ou aquela que o questiona e interpela; ouve o interlocutor e descobre a sua versão da verdade; e, sobretudo, suscita consciência crítica chamando a todos de amigos e abrindo caminho para que outros e outras sejam futuros líderes. Ou seja, para Jesus a liderança é fazer lideranças e não
se perpetuar e controlar poder e domínio. Líder é, paradoxalmente, alguém que busca ser um sem-poder.

Em outras tradições religiosas

     Da fé judaica conhecemos a lição do Pirke Avot (Ética dos Pais). Diz o texto hebraico: “Josué, filho de Perahiá, dizia: ‘Arranja um mestre, adquire um amigo e julga a todos com indulgência’” (capítulo I,6).
     O budismo ensina que líder é quem é capaz de dominar seus desejos ao assumir a missão essencial de liderar seres conscientes para fora do ciclo do sofrimento. Sidarta Gautama, o Buda histórico, assume em sua própria vida o caminho médio da iluminação e molda o papel do líder na comunidade (sangha) e o modo de como viver docilmente a animação de seus seguidores. O próprio Buda destaca dez princípios que um líder precisa cultivar: 1. Dana, entregar-se; 2. Sila, moralidade; 3. Parricaga, generosidade; 4. Ajjava, integridade; 5. Maddava, bondade; 6. Tapo, autocontrole; 7. Akkhoda, não raiva; 8. Avihimsa, não violência; 9. Khanti, paciência; e 10. Avirodhana, aceitação.
     A fé islâmica considera que a maior das batalhas que um muçulmano deve se engajar é aquele que ele faz consigo mesmo. Ela é conhecida como grande Jihad e empenha coração, mente e vida na submissão a Allah como Deus e condutor negando quaisquer submissões terrestres como idolátricas. Esse grande esforço é o único que fará da pessoa um líder de si mesmo.

Falsos e verdadeiros líderes
     O povo brasileiro conheceu líderes nobres, mas também ditadores sanguinários. Vivemos sempre nessa corda bamba de saber distinguir os verdadeiros dos falsos líderes. Na vida política e mesmo nas religiões, desde as nossas origens coloniais foi preciso separar joio de trigo, verdadeiros líderes dos cegos condutores de cegos. Muitos religiosos tornaram-se profetas autênticos; e outros, meras caricaturas que deturpam as origens libertárias das religiões e terminam por confirmar as críticas feitas às religiões por Karl Marx, Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud. A contribuição desses críticos da religião foi essencial para a purificação das próprias expressões religiosas. Não são inimigos, mas críticos necessários para uma fé livre e libertadora. Sem ouvi-los, certamente as denominações religiosas se tornam ópio, discurso necrófilo ou neurose patológica.
     A história recente nos fez conhecer alguns líderes legítimos e inovadores que se colocaram a favor do povo e contra a ditadura cívico-militar que foi imposta entre 1964 e 1985. Com esses personagens religiosos, aprendemos uma coerente forma de ser líder sadio e terapeuticamente feliz.
Formam este belo trio do diálogo inter-religioso: Paulo Evaristo Arns (1921-2016), arcebispo católico e cardeal de São Paulo, rabino Henry Isaac Sobel, da Congregação Israelita Paulista, e o pastor presbiteriano Jaime Nelson Wright (1927-1999), da Igreja Presbiteriana Unida.
     Paulo Evaristo Arns mostrou com suas palavras e ações que o seguidor de Jesus Cristo defende o ser humano como filho amado por Deus. Ao proclamar um Deus que se faz humano, o cristianismo se apresenta como defensor de cada ser humano. Quem machuca a pessoa machuca e fere o próprio Deus. Escreverá o cardeal paulistano: “Na hora em que as lideranças conseguem harmonizar as forças e acordar o verdadeiro patriotismo, a solidariedade pode arrancar do fundo da nação as energias necessárias para superar toda e qualquer dificuldade”. Sua presença constante nas comunidades da periferia urbana em defesa de mulheres, favelados, crianças e moradores de rua valeram-lhe inúmeras campanhas difamatórias por parte de policiais de grupos de extermínio, alguns radialistas e sobretudo os membros da direita brasileira. Quando o menino Joílson de Jesus morreu no ano passado pisoteado por um advogado no Largo de São Francisco, dom Paulo Evaristo celebrou um missa na Catedral e um radialista famoso na capital convocou a população da cidade para que fosse até a Catedral espancá-lo. Felizmente a voz do pastor prevaleceu. “Uma pessoa vale mais que todo o ouro do mundo e quem nela toca fere o próprio Deus Criador”, foi a palavra do cardeal-profeta.
    
Dom Paulo Evaristo Arns
e rabino Henry Sobel
Reverendo Jaime Wright
Rabino Sobel mostrou com suas palavras e ações que ser judeu não é lutar para que o Brasil fosse mais judaico, mas que fosse plenamente humano para que vivêssemos o decálogo de Moisés na defesa de toda e qualquer vida. Para o rabino Sobel a aliança (B’rit) se faz no amor e pelo amor entre os irmãos.
    Pastor Jaime mostrou com suas palavras e ações que um verdadeiro crente é todo aquele fiel que crê na pessoa humana como templo do Espírito Santo. Foi ele o grande companheiro de dom Paulo na edição do livro Brasil:Nunca Mais, contra a tortura e os esquadrões da morte. Foi ele o coordenador do grupo Clamor que passou a buscar os filhos e netos sequestrados pelas ditaduras argentina, brasileira e chilena. Foi ele quem atuava na Cúria Metropolitana como um fiel ouvido religioso, sempre na busca dos corpos dos desaparecidos e perseguidos assassinados pelos órgãos de repressão do Estado brasileiro. O seu irmão Paulo Stuart Wright foi um dos martirizados pela ideologia de Segurança Nacional e até hoje permanece desaparecido e insepulto.
    Três líderes de diferentes religiões e visões de mundo. Três homens de raízes distintas que se irmanaram na busca da verdade e da justiça social. Três pessoas que costuraram entre si um tecido de amizade profunda em favor da liberdade e da paz. De fato, podem ser chamados de líderes. Líderes do jeito de Jesus, Moisés, Sidarta, Lao-tsé, Bahá u´llah e tantos outros iluminados. Assumem a liderança no exato momento em que vencem o ego e o narcisismo. Acreditam que o mundo se mantém por três pilares: verdade, justiça e paz.

Mãos à obras
Identifique algumas pessoas que você as considera líderes: no campo religioso, político, social etc.
- O que as torna líderes? Quais são suas características? Que causas defendem?
- Qual a diferença entre um líder e um chefe?
- Todas as lideranças são positivas? Justifique a sua resposta.
   
  Referência
ARNS, Paulo Evaristo. Encontro com o Pastor 2.2.1985, in: Estrelas na noite escura – Pensamentos, São Paulo: Paulinas, 2006, p.55-56.
* Fernando Altemeyer Junior
Mestre em Teologia e em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Lovaina (Bélgica), doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e professor assistente e doutor na PUC-SP.





Fonte: Edição Nº86 Abr/Jun 2017
Postado por: Diálogo




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