Museu de Arte Indígena

Data de publicação: 10/10/2017

Luzia Sena *

Inaugurado em Curitiba (PR), em 18 de novembro 2016, o Museu de Arte Indígena (MAI) é o primeiro museu particular do Brasil, dedicado exclusivamente à produção artística dos povos indígenas brasileiros e um dos maiores acervos do mundo nesta área.
O MAI é o resultado do cuidadoso trabalho da administradora Juliana Podolan Martins, que começou a adquirir e colecionar objetos indígenas após visita a uma aldeia em Mato Grosso do Sul, em 1997. Desde então, Julianna passou a realizar expedições às aldeias de diferentes etnias, a comprar peças que simbolizam e expressam essas culturas e a pesquisar, intensamente, as várias etnias indígenas brasileiras. Antes de ganhar esse novo espaço em Curitiba, o MAI teve o seu início em Clevelândia (PR), em 2009.
A proposta do museu é resgatar e preservar esse tipo de arte, proporcionando aos visitantes uma imersão no universo indígena brasileiro. Para isso, conta com um amplo espaço de exposição de mais de 700 obras relevantes da cultura indígena, bem como peças de cerâmica, cestarias, máscaras ritualísticas, instrumentos musicais, objetos utilitários e adornos, com destaque para a arte plumária.
Projetadas para retratar as riquezas culturais e a diversidade indígena no Brasil, as paredes do museu seguem linhas orgânicas inspiradas no formato de uma sucuri. Um amplo espaço para eventos reproduz a arquitetura e a atmosfera de uma oca. O museu está dividido em dois ambientes, que representam o ar e a terra – elementos que fazem parte da cultura dessas etnias. O primeiro andar é dedicado principalmente à arte plumária; e o segundo, às cerâmicas, objetos ritualísticos, musicais e cotidianos. Todas as áreas do MAI foram projetadas para receber cada uma das categorias do acervo. Construído com a mais recente tecnologia de climatização que proporciona temperatura e umidade do ar adequadas para a conservação dos objetos, raros e delicados ali expostos. Com curadoria de Anna Itália Paraná Mariano, as peças são apresentadas e detalhadas mediante a origem delas e as tradições culturais das principais etnias indígenas do território nacional.

O Brasil que o Brasil desconhece
Ao apresentar ao público esse universo cultural a partir de objetos e peças que materializam a mitologia e os rituais dos indígenas brasileiros, o MAI pretende instigar o visitante a formar uma nova mentalidade sobre o a cultura indígena.
 
 
   
“Nossa ideia é desconstruir a imagem do indígena genérico, que normalmente é ensinado nos livros de História nas escolas. Queremos ressaltar a diversidade geográfica, linguística, cultural e física das diversas etnias brasileiras”, afirma Julianna Podolan Martins, idealizadora, fundadora e presidente do museu.
Dadas a relevância de seu acervo e a qualidade do atendimento ao público, o MAI se propõe a ser uma referência de pesquisa sobre a produção artística do indígena brasileiro. E, portanto, operar mudanças sociais, comportamentais e culturais a partir da experiência proporcionada aos visitantes, ou seja, sensibilizar o público para um processo pedagógico de cultura inclusiva, possibilitar à criança e ao adolescente o conhecimento e a valorização da sua herança cultural, despertar a visão crítica, inserir a diversidade indígena como parte dos valores nacionais e incentivar os ensinos Fundamental, Médio e Superior ao estudo e à pesquisa histórica das nossas origens. Pois, como afirma Ana Itália Paraná Mariano, “história do Brasil não começa em 1500, quando aqui aportaram os portugueses. Nós já tínhamos história antes de 1500. História muito mal contada e que precisa ser resgatada”. O museu tem essa função social, cultural, pedagógica, artística de socialização do saber dos nossos povos indígenas.

 
 
   
As peças do museu

“O acervo do MAI incita e propõe um mergulho na história do Brasil, um resgate tardio, mas necessário, à recuperação de vínculos com o passado e com a cultura indígena, em um conjunto bastante representativo das etnias indígenas brasileiras. Esta exposição proporciona a visão de um outro mundo, uma linguagem em que a harmonia estética, a composição elaborada, representações de um repertório simbólico com significações iconográficas se fazem presentes”, afirma a curadora.
A respeito da arte plumária, Ana Itália assegura que “para os povos indígenas, esta arte não tem apenas a função de adorno, mas funções socioculturais profundas e bem definidas que regulam seu uso em rituais e cerimônias ligadas à morte, às crenças, à vida, onde apenas os homens se adornam. As mulheres e crianças só utilizam adornos em momentos determinados”.
A plumária brasileira reúne adornos corporais, máscaras rituais, artefatos diversos para várias finalidades, brinquedos, armas, cestos, instrumentos musicais. Vejamos algumas peças:

Grinalda Cobre Nuca Myhara etnia Rickbatsa 
Também conhecidos como Orelhas de Pau ou Canoeiros, os Rickbatsa vivem na bacia do Rio Juruena (MT). Essa grinalda, considerada a peça mais relevante do acervo do MAI, é usada em rituais importantes e, sobretudo, em guerras. Até hoje é usada por comandantes em enfrentamentos. Acredita-se que haja poderes a ela associados. A tarefa de produzir, manusear e usar a peça é essencialmente masculina e restrita a homens maduros com filhos, considerados detentores da sabedoria das tradições.

    Cocar etnia Kayapó-Gorotire 
O equilíbrio está sempre presente nas peças kayapó. Além de ser o adorno mais importante para a maioria das etnias, o cocar, circular e solar, também sinaliza a disposição das casas na aldeia em Mato Grosso. Este, com amarração básica, mostra grande harmonia no uso das cores. Somente os homens têm o direito de usá-lo. Ostentam este diadema em cerimônias, em especial, no ritual de imposição de nomes kwyr-kangô.
   
               

Instrumentos musicais
O cântico como tradução do imaginário indígena é um dos traços marcantes da cultura deste povo. Sendo uma das atividades culturais mais socializantes entre as tribos, a música dos índios brasileiros é uniforme e, ao mesmo tempo, de enorme variedade. Desde os tempos jesuíticos (séc. XVI) é conhecido o amor dos Guarani pela música e a inter-relação da música com dança, espiritualidade, poesia, mitologia, ecologia, ancestralidade, tudo entrelaçado no cotidiano com simplicidade e sabedoria. Os rituais de nascimento, casamento, ritual de passagem e travessia são alicerçados sobre cânticos de uma cultura viva, sempre em mutação, como uma vitrine das múltiplas visões do mundo que este povo cristalizou em tradição sonora.
 
  Flauta
 
   Mbaraka

Em seu texto colaborador para o Museu de Arte Indígena, Ju Cassou, diz que “o papel central da música já está colocado num Mito Guarani, no qual a diferença entre índio ecivilizados se dá em relação ao “mbaraka”, instrumento musical, e ao “kuatiajehairan”, papel para escrever; pela opção do índio pelo mundo sonoro e musical, quando escolheu para tomar como seu o mbaraka, e do branco pelo mundo da palavra escrita, quando escolheu o papel. Os Guarani tem sido considerados como portadores de uma cultura centrada na palavra. O “ayvu” ou “ne’e”, traduzido preferencialmente por “palavra”, é alma, vida e linguagem, englobando também a música. Importante lembrar a sustentação que a música dá à esta palavra. Sem o acompanhamento dos instrumentos musicais não há o movimento que transforma o peso dos corpos em leveza e beleza; sem a afinação do coro o grupo não “sobe nos fios” que os ligam as aldeias divinas. A música como linguagem de comunicação com os deuses é algo que pode se considerar universal. Para os Guarani os deuses não falam, eles cantam”.
Todos os rituais religiosos dos povos indigenas empregam a música para transcender a um universo mágico, de mitos fundadores, ligados à ancestrais com finalidade de culto, socialização, cura e catárse. Originária dos deuses ou do mundo dos sonhos a música para o índio será sempre uma conexão com o mundo do além.
Os instrumentos musicais são considerados como seres vivos, afirma Cassou. Requerem um contexto para seu efetivo emprego e um tratamento adequado para que exerçam suas qualidades. Os instrumentos marcadores de ritmo mais importantes são o “mbaraka” (chocalho) usado pelos homens para marcar o compasso e o “takuapu”, bastão de ritmo, de uso das mulheres para acompanhar.

Takuapu

O takuapu é um bastão de ritmo confeccionado com taquaras cortadas em tamanhos diversos. Nos rituais ele é batido pelas mulheres sobre a terra fazendo o som dos trovões, marcantes e ouvidos a larga distância. À medida que ele tem impacto com a terra tem-se a sensação que adquire vida própria e toca sozinho. O tamanho do takuapu depende do tamanho da mulher para qual o instrumento é feito.
Cantar na própria língua dá aos Guarani força espiritual e corporal que ajuda na manutenção da comunicação com as divindades. Sem dançar e cantar, a vida do Guarani neste mundo estaria em risco. Como os deuses tocam seus instrumentos para fazer existir a Terra, os seres humanos também devem acompanhar. Todos fazem parte da mesma orquestra, conclui Ju Cassou.
Fonte de dados: www.maimuseu.com.br
 
Mãos à obra
  • Escolher um dos vídeos e, a partir dele, elaborar algumas questões ou atividades a serem discutidas em grupo.
  • Se houver na cidade ou região um grupo indígena, convidar algum integrante para um bate-papo com os alunos. Para isso, preparar algumas questões a serem discutidas.

Canal YouTube

 
   
* Luzia Sena.
É Irmã Paulina, com licenciatura em Filosofia, bacharelado em Teologia e mestrado em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Membro da Iniciativa das Religiões Unidas (URI, sigla em inglês).
 




Fonte: Edição Nº87 Jul/Set 2017
Postado por: Diálogo




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