A fé de cada um

Data de publicação: 13/10/2017

Cristiane Bueno *

     A minha escola respeita a individualidade e as manifestações de pensamento e ideias de seus alunos, portanto, quando surgem dúvidas acerca de algum assunto nas disciplinas, procuramos saná-las possibilitando um sentimento de pertença e condição básica para aquisição do conhecimento. Em virtude desses motivos, a Escola Municipal Centro de Educação Infantil (CEI) Issa Nacli, em Curitiba (PR), promoveu um encontro inusitado entre religiões e crenças.
     A religião faz parte da história e da cultura dos povos e, nesse sentido, quando conhecemos essa diversidade, podemos entender a necessidade de garantir o direito ao respeito das várias crenças e das suas organizações religiosas.
     Na disciplina do Ensino Religioso, foram abordados vários conteúdos contemplando as quatro matrizes religiosas: oriental, ocidental, indígena e africana, valorizando o conhecimento e o despertar do respeito quanto à diversidade religiosa e os direitos humanos.
    Como vimos nos noticiários de televisão ou em jornais e revistas, o ano de 2016 foi marcado por constantes conflitos nas regiões da Síria (oficialmente República Árabe da Síria), país localizado na Ásia Ocidental. Quanto à religião daquele país, a maioria é muçulmana, apenas 10% da população é cristã. Presenciamos na mídia o êxodo do povo sírio e de outros povos também, em busca de refúgio em outros países. Todas essas imagens e informações chegam confusas nas mentes infantis e questões sobre refugiados veem à tona:
“Qual o motivo dessa guerra? Por que as pessoas fogem do seu país? O que é um refugiado? Por que as igrejas são destruídas?”
     A partir dessas abordagens, preparei os alunos para um diálogo inter-religioso na escola, convidando o padre cristão ortodoxo Samaan Nasri, refugiado da Síria, pároco da Igreja Ortodoxa Antioquina São Jorge, de Curitiba (PR), para esclarecer algumas dúvidas sobre a intolerância religiosa, direitos humanos e a acolhida aos refugiados.
     O padre Samaan Nasri, Simão em português (na foto ao lado com os alunos da escola), desde que chegou da Síria com sua esposa e filhos (os padres da Igreja Ortodoxa podem se casar), faz da sua igreja no bairro do Bigorrilho uma casa para refugiados, prestando auxílio àqueles que fogem da intolerância religiosa sofrida na sua terra de origem. Na condição de servo da igreja, a sua missão é a de buscar a paz entre os povos.
      Com o objetivo de compreender a diversidade religiosa do Brasil, construindo o seu referencial de entendimento das diferenças, elaboramos com o 4o ano, ciclo II, questões pertinentes ao diálogo inter-religioso, contemplando o conteúdo das organizações religiosas e o respeito à diversidade religiosa, avaliando se o aluno identifica e compreende a diversidade religiosa no Brasil e suas diferentes formas de organização.
     As questões foram construídas coletivamente a partir das dúvidas pertinentes aos alunos e embasadas no plano curricular do Ensino Religioso do município de Curitiba seguindo os critérios de avaliação e os objetivos propostos:
1.    Qual é a função principal de um servo de Deus?
2.    A igreja ortodoxa permite o casamento de seus líderes, a família nesse caso favorece o trabalho religioso?
3.    Por que é importante defender a liberdade religiosa?
4.    O que acontece quando não temos liberdade religiosa?
5.    A perseguição por motivos religiosos causa conflitos por todo o mundo. Em sua opinião, qual a razão para tanta intolerância e quais as soluções para podermos conviver com as diferentes crenças?
     O padre Samaan respondeu as questões conforme a sua experiência e vivência desde a fuga da Síria há dois anos, a acolhida no Brasil e a saudade de seu país quando estava em paz. Respondendo às perguntas, disse que ao ser um servo de Deus é pedido a obediência, a humildade, o amor ao próximo, independentemente da sua crença ou não.
     A Igreja Ortodoxa permite o casamento de seus padres. Mas, se algum deles se tornar viúvo, não pode casar novamente, e a família favorece no trabalho religioso apoiando em suas missões.
    Segundo o padre Samaan é importante defender a liberdade religiosa, o direito de cada pessoa manifestar o seu pensamento, a sua opção de praticar ou não uma crença. Quando o ser humano é privado dessa liberdade, os seus direitos humanos estão sendo negados.
    A razão para a intolerância religiosa é a falta de reconhecimento, aceitação e respeito às diferenças do próximo. Surgem então a perseguição e a injustiça. Precisamos nos educar para a valorização e o respeito às diferenças. Só assim podemos conviver em harmonia, dialogando e conhecendo o outro.
     Ao confrontar os alunos com uma realidade presente, à qual se busca soluções pacíficas entre os povos de diferentes religiões, o diálogo inter-religioso procura estabelecer um propósito de paz, ponto comum entre as religiões.
    Durante a visita, o padre recebeu uma lembrança das crianças, um mosaico da imagem de São Jorge em arte bizantina, ele por sua vez trouxe doces e velas representando a luz e a fé de cada um, pois não importa à religião, a crença, o importante é o respeito mútuo e o seu direito à vida. Ao concluir a visita, citou um trecho da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 10 de dezembro de 1948, Artigo 18: “Todo homem tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião”.
 

Mãos à obra

•    Converse com os alunos sobre o que eles veem na mídia sobre refugiados. Alguma cena os impactou? Por quê?
•    Conhecem algum refugiado? Se na cidade houver refugiados, convidar alguns para falar dessa questão com os alunos.
•    Assistir ao vídeo e comentar sobre refugiados sírios:
* Cristiane Bueno
Graduada em Pedagogia pela Universidade Castelo Branco. Pós-Graduação e especialização em Gestão Educacional na área de Orientação e Supervisão, pós-graduação e especialização em Gestão de Políticas Públicas Sociais na área de Ciências Sociais pela Universidade Barão do Rio Branco. Pós-Graduação e especialização em Educação Especial e Inclusiva pelo Centro Universitário Internacional (Uninter). Pós-Graduanda em Mídias na Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professora da Rede Pública Municipal de Curitiba.




Fonte: Edição Nº86 Abr/Jun 2017
Postado por: Diálogo




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

A Antropologia e a Religião
A antropologia procura compreender o ser humano na totalidade e vê que uma de suas marcas indeléveis
Ensino Religioso, o que ensinar?
A disciplina de Ensino Religioso (ER) aos poucos vem ocupando seu espaço no currículo escolar.
A ética das religiões frente ao tráfico humano
A intensificação do tráfico de pessoas em pleno século 21
O desenvolvimento religioso
O sentimento religioso nasce e amadurece no encontro com pessoas significativas na trajetória da existência humana
2013-2022, Década do Afrodescendente
A ONU, aprovou a Resolução A/66/460 Contra o Racismo, a Discriminação Racial a Xenofobia e a Intolerância
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados