Dia da consciência de todos nós - 20 de novembro

Data de publicação: 16/10/2017

Marco Antonio Fontes de Sá *

    O tempo da escravidão no Brasil registra 350 anos. Contando como início da nossa história a chegada de Cabral, em 1500, temos mais tempo como nação escravocrata do que como país de homens e mulheres livres, e ainda faltam 160 anos para chegarmos a um empate.
    Esse é um bom começo para falarmos do dia 20 de novembro, nomeado Dia da Consciência Negra, escolhido por ser a data da morte de Zumbi dos Palmares, líder de um dos maiores quilombos do século 17. A escravidão deixou de fazer parte da nossa vida há tão pouco tempo que é difícil acreditar que muitos já se esqueceram ou nada sabem sobre ela. Lei como a 10.639 e o Dia da Consciência Negra reconhecem que essa amnésia é nociva e pretendem restaurar tal memória.
    A história da África faz parte da nossa história desde que os primeiros homens e mulheres do Congo e de Angola, chamados de bantus, foram sequestrados para trabalhar nas plantações de açúcar. Mais de 4 milhões de africanos foram trazidos da África para cá, e os bantus eram a maioria deles. Formamos uma sociedade repleta de costumes e do saber bantu, que serviram de base para que outras culturas, de outros africanos também trazidos como escravos, pudessem encontrar, através das irmandades – associações organizadas sob a proteção de um santo padroeiro e com o objetivo de preservar identidades, alforriar e sepultar homens e mulheres negros –, um modo de sobreviver e de resgatar sua identidade e dignidade. Quando falamos camundongo, bagunça, cafundó, quiabo, moleque e mais centenas de palavras, estamos falando bantu.
    Boa parte da nossa religiosidade popular se estabeleceu com base na cultura bantu e não é por acaso que uma das mais importantes festas dessa religiosidade se chama congada. A partir de 1690 vieram os africanos sudaneses, chamados de jejes e nagôs, e, por causa do comércio de fumo, a criação de uma rota de navios negreiros que ligava Salvador, na Bahia, à Costa da Mina, na África, explica a massiça presença desses africanos e de seus descendentes nessa região do Brasil.
    A eliminação de um sistema tão cruel de trabalho se deu com muita luta, dedicação e sofrimento. Todo o esforço foi escondido durante muito tempo por uma historiografia que atribuiu o fim da escravidão à assinatura da Lei Áurea (1888) e a algumas leis como a dos Sexagenários (1885) e a do Ventre Livre (1871).
    A assinatura da lei Áurea terminou com a prática da escravidão oficial, mas não eliminou a injustiça, especialmente a social, que continuou mantendo afrodescendentes como reféns de uma sociedade branca, que assumia o preconceito, considerava os negros inferiores e achava justa a discriminação étnica. Na prática, abolir a escravidão sem levar em conta a necessidade de integração da população negra à sociedade deixou os ex-escravizados à mercê do mesmo sistema injusto que os escravizava, de modo que a lei, efetivamente, teve um efeito prático muito limitado. Não se cria uma consciência negra só assinando uma lei.

Uma consciência negra e não de negros
    O Dia da Consciência Negra (20 de novembro) foi criado pela Lei 12.519 de 2011 e tem como objetivo não apenas fazer memória de um líder quilombola revolucionário, mas também incentivar a revisão dessa história, colocando os holofotes em outras personagens que conduziram o roteiro histórico da abolição, sendo até mais importantes do que a própria princesa Isabel. Acima de tudo, essa consciência, negra em suas origens, tem que ser assumida por todos nós.
    Recentemente, num grupo que discutia a figura de Luiz Gama (1830-1882) –,filho de uma mulher negra, violentada por um homem branco que o vendeu como escravo, ainda criança e que se tornou um abolicionista que libertou centenas de escravos, cuja história é mais impressionante do que a ganhadora de um Oscar, 12 Anos de Escravidão, me emocionei com as palavras de um homem com deficiência visual e me dei conta de que sua limitação era uma vantagem em relação ao preconceito que existe, ainda que dissimulado, em nossa sociedade. Enfim, jamais julgaria uma pessoa pelo tom de pele. Para ele, todos são verdadeiramente iguais.
    O 20 de novembro convida a fechar os olhos e ser cegos para enxergar o quanto os escravizados fizeram por todos nós. Por causa deles somos únicos no mundo. Música, comida, idioma, religião… Difícil encontrar um aspecto da nossa cultura, e daquilo que nos identifica como povo, que não seja transpassado ou tenha começado com um saber africano.
    Somos, ontologicamente, negros, e sem a negritude não seríamos como somos. Somos negros na maior parte das vezes em que cantamos, dançamos, comemos e fazemos boa parte das coisas que nos dão alegria e nos permitem sonhar.
O tráfico de escravos em navios negreiros demorava meses entre o embarque dos escravizados e sua chegada ao porto de destino. Nesse tempo se estabeleciam-se novas relações sociais entre os aprisionados que se autodenominavam malungos, palavra que pode ser traduzida como companheiro. É com a consciência negra que nos interessaremos pela história da África e nos tornaremos Malungos nessa viagem de descoberta da importância do povo negro na nossa história.
    A cultura europeia produzia um saber em que, praticamente, só se usava as mãos. Música, pintura, literatura… Os africanos nos ensinaram a fazer arte com o corpo, na medida em que era dançando e cantando que se celebravam (e ainda celebram) os grandes momentos de suas vidas. samba, samba de roda, jongo, tambor de crioula, capoeira. O corpo inteiro celebrando a vida!, de acordo com a coleção de estudos memórias Ancoradas em Corpos Negros, Editora de Pontifícia Universidade Católica (Educ),São Paulo,2015. As danças da Europa colonizadora tinham muito pouco dessa alegria corporal africana, vista pelo colonizador como pecaminosa, obscena e usada como pretexto para a acusação de que povo negro cultuava (e ainda cultua) o diabo, uma personagem que nunca existiu e não tem similar na cosmovisão dos africanos que vieram como escravos para o Brasil.
 

Leia a matéria na íntegra na Edição 88 - Outubro/Dezembro de 2017. Clique aqui!

Fonte: Edição Nº88 Out/Dez 2017
Postado por: Diálogo




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Museu de Arte Indígena
O Museu de Arte Indígena (MAI) é o primeiro museu particular do Brasil, dedicado exclusivamente à produção artística dos povos indígenas brasileiros e um dos maiores acervos do mundo nesta área.
Líder e liderança entre os povos indígenas
O papel de lideranças que seguem sendo exemplos de postura, ética, e que marcaram a vida das comunidades e a nossa.
Antônio Conselheiro
Antonio Conselheiro decide fixar-se no velho arraial de Canudos, rebatizá-lo como Belo Monte e dotá-lo de condições que tanto viabilizem a vida aqui como preparem aquela do além, não estranhará que o vilarejo cresça enormemente.
Vida e agonia do Rio São Francisco
Quando Américo Vespúcio, em 4 de outubro de 1501, chegou à foz do Rio São Francisco, como era de praxe, batizou o que tinha diante dos olhos com o nome do santo do dia. Era dia de São Francisco.
Mata Atlântica
Muitas pessoas têm a falsa impressão de que a Mata Atlântica está restrita àquelas grandes áreas de florestas distantes das cidades. Na verdade, ela está muito mais perto do que a gente imagina.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados