O fundamentalismo religioso nos três monoteísmos

Data de publicação: 10/04/2018


O fundamentalismo religioso nos três monoteísmos

A origem do termo contemporâneo fundamentalismo associa-se aos The Fundamentals, um conjunto de textos editado pelo Instituto Bíblico de Los Angeles entre 1910 e 1915. Os autores, representantes de segmentos evangélicos norte-americanos, tentaram reagir à Modernidade e ao liberalismo teológico do mundo evangélico, especialmente o europeu. O objetivo foi reafirmar o que julgavam essencial na fé evangélica em face às verdadeiras ou supostas ameaças de desintegração da sua identidade.
A partir deste evento pode-se inferir que um dos propósitos do fundamentalismo é refinar o essencial e elaborar estratégias de ação em vista deste objetivo. No processo está implícito o intuito de fortalecer a identidade grupal quando questionada ou em crise ou então, construir tal identidade. O fortalecimento e a construção implicam na afirmação insistente de aspectos tidos como fundamentais de determinado grupo social, étnico ou religioso. A repetição ritual ou litúrgica das verdades oficiais sedimenta os pontos fundamentais. Há certa tendência ao extremismo ou radicalismo militante, que se expressa em dificuldades de diálogo, mas isso não significa que o fundamentalismo seja associado a ações terroristas com recurso a instrumentos bélicos.
No campo religioso, a condensação de verdades ou consensos grupais se expressa em doutrinas e estas, em geral, afirmam convencimentos fundamentais por meio de formulações concisas de pontos de fé, como forma mais elaborada da linguagem religiosa. Nas três religiões monoteístas, judaísmo, cristianismo e islamismo, os aspectos doutrinários essenciais estão no contidos nos textos sagrados, embora outros tenham se formado ao longo do tempo.
As três tradições religiosas têm estruturas similares quanto à constituição de seus conteúdos fundamentais e a expressão “religiões do livro” revela que os conteúdos estão arquitetados na forma de um conjunto autoritativo e normativo de textos. Apesar de variações de gênero, a origem dos textos é tida como revelação divina. Deus, com suas variações de nomes – Jeová, Jesus, Trindade, Alá – revelou os conteúdos pela mediação de um profeta. No judaísmo, Moisés é celebrado como o profeta maior (Deuteronômio 34), embora haja outros personagens proféticos. No cristianismo, apesar da afirmação messiânica, Jesus figura como profeta, revelador da vontade de Deus. No islamismo, Maomé é o último profeta, que recebe a definitiva a revelação da vontade de Alá. Esse mecanismo assegura uma reivindicação de verdade fundamental. O próprio Deus figura como elemento de garantia da revelação. Nas três tradições, porém, apesar da similaridade na estrutura, há variações nos conteúdos.

O judaísmo
No judaísmo, a Bíblia hebraica, chamada Tanakh (Torá, Profetas/Nevi’im e Escritos/Ketuvim), apresenta alguns convencimentos fundamentais. Um deles é a definição de Deus em termos monoteístas. Na fase de composição da Bíblia Hebraica, no final do século 5 a.C., a exclusividade do Deus Yahweh é o critério organizador do conjunto, com a exclusão dos textos destoantes do credo no Deus Único. Outro elemento do credo monoteísta judaico é a afirmação do caráter inefável e sem forma de Deus. O segundo mandamento bíblico, em Êxodo 20, 4-6, é enfático na exigência do aniconismo, isto é, da renúncia a imagens para representar o Sagrado. Com isso, a classe sacerdotal dirigente no antigo Israel procurou se distanciar das expressões religiosas do entorno, nas quais o recurso às imagens da divindade era comum. Pode-se agregar ainda um terceiro elemento fundamental da tradição judaica, que se refere aos hábitos alimentares. Uma série de animais, com destaque para o porco, não devem fazer parte da dieta judaica. Esta prescrição certamente visou um distanciamento dos outros grupos cananeus do período bíblico. Cada um destes elementos foi recebido e retransmitido ao longo das gerações na história de Israel, especialmente em suas peregrinações como povo da dispersão. A afirmação radical destes elementos constituiu uma forma de resistência e de retro-afirmação da identidade grupal judaica até o presente.

O cristianismo
No cristianismo, a estruturação das verdades nos textos sagrados é similar, embora tenha havido deslocamentos em termos de conteúdo. O ponto nevrálgico é o reconhecimento e a afirmação da messianidade de Jesus de Nazaré. No momento originário, esta controvérsia cristológica promoveu um distanciamento dos cristãos em relação ao judaísmo; no seu prolongamento no tempo, ela se evidencia como potencial de exclusividade e superioridade em termos de salvação, se comparada a outras expressões religiosas. Para o cristianismo era importante constituir o movimento com identidade própria. Os outros elementos fundamentais da tradição judaica foram gradativamente flexibilizados: a unicidade de Deus abriu espaço para a concepção trinitária e o aniconismo foi superado na medida em que o cristianismo se encontrou com outras culturas. A afirmação da superioridade religiosa do cristianismo foi incrementada no século 4, quando Constantino lhe conferiu status de religião oficial e as decisões conciliares passaram a ter valor imperial. Tal status, ao longo dos séculos, converteu-se, em certos momentos, em práticas fundamentalistas. Só a estrutura republicana, da Idade Moderna, foi capaz de dissolver esta reivindicação de exclusividade cristã frente a uma cidadania religiosa mais ampla ou plural.

O islamismo
O islamismo absorveu influências da tradição semítico-judaica e compartilhou da mesma estrutura normativa e autoritária dos outros monoteísmos. O seu fundamentalismo reside na reivindicação do caráter finalista da revelação de Alá a Maomé, afirmado como o último dos profetas! A estrutura teológica simplificada assimilou traços do judaísmo, superou o dogmatismo trinitário cristão e assim facilitou a aceitação do credo islâmico. O aniconismo radical é outro elemento de continuação da tradição judaica, a qual no cristianismo foi também resgatada por segmentos da reforma radical no século 16. Por suas práticas cotidianas simples embora sempre  reiteradas, o islamismo confere uma dimensão militante à fé. Esta militância muitas vezes adquire expressões extremistas ou xiitas, em parte para a afirmação de convicções internas, em parte como intervenção deliberada no esforço de recuperar espaços geopolíticos, perdidos com a dominância cristã durante o período medieval e o moderno. 
O fundamentalismo nos três monoteísmos deve ser entendido sempre na ambiguidade da ação de afirmar a identidade diante de ameaças supostas ou reais e de ocupar espaços em decorrência das exigências totalitárias de cada uma das três tradições religiosas.

* Haroldo Reimer
Doutor em Teologia; professor na Pontifícia Universidade Católica de Goiás e na Universidade Estadual de Goiás. E-mail: haroldo.reimer@gmail.com; Home page: www.haroldoreimer.pro.br

Fonte: Diálogo 65
Postado por: Diálogo




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