Integração família-escola na educação

Data de publicação: 10/04/2018



Integração família-escola na educação


A escola ocupa na sociedade papel e função essencial, por ser a detentora de uma dupla responsabilidade que envolve apresentar e refletir a diversidade de conhecimentos e, concomitantemente, contribuir na formação cidadã de seus estudantes. Disto, cabe-lhe conceber uma proposta de educação em favor do desenvolvimento integral do ser humano, garantido por meio do processo educacional que oferece aos estudantes.
Oferecer formação integral, contudo, é uma via de mão dupla. Ou seja, de um lado está a escola; e do outro, a família, que assim como a escola possui um papel essencial e intransferível na formação integral do sujeito. É a família a primeira educadora de seus filhos, a quem compete alimentar e garantir uma educação progressiva – intelectual, afetiva, relacional, religiosa –, visando a aquisição da maturidade humana necessária à vida em sociedade, à inserção no mundo acadêmico e do trabalho.
Como afirma a teóloga americana Florence Bourg, “educadores familiares, escolares (...) reforçam-se (idealmente) mutuamente para socializar gradualmente (...) [o estudante] em sua linguagem, modelos de papéis, rituais e leis; isso molda hábitos de percepção, emoção e comportamento”. Encontramos nas palavras de Bourg algumas chaves de leitura para a integração família-escola em favor da formação integral do estudante, como a compreensão de que família e escola possuem papéis distintos, porém complementares. À escola compete oferecer para a família informações precisas e claras sobre o modo que realiza seu trabalho de ensino-aprendizagem, bem como, conceder recursos para acompanhar a vida acadêmica de seus filhos. Por sua vez, compete à família se interessar em conhecer a proposta da escola, seus objetivos e projetos.
Isto implica que a parceria de complementaridade entre a escola e a família configure o ensino-aprendizagem como um processo amplo que permite ao sujeito aprender a agir, a amar e viver melhor, por haver uma estreita relação de testemunho entre o que se diz e o que se faz, junto ao estudante, nestes dois espaços educativos. Essa relação se estabelece pelo movimento dinâmico de interdependência entre viver, testemunhar e ensinar, o que configura, segundo Edgar Morin, um “conhecimento integrador, dialógico e múltiplo”, necessário aos tempos atuais.
Na parceria família-escola, em vista da formação integral dos estudantes, a dimensão religiosa configura-se como um fator de diferenças que se encontram no espaço escolar. Este espaço, pelo seu caráter formativo, propicia a interação entre as dimensões individual e social do estudante e oportuniza um processo de aprendizagem que contempla a diversidade, para promover um ato de convivência, em que se realiza gradativa e progressivamente a descoberta do outro como alguém que não só pensa diferente, mas também possui um modo próprio de crer. E esse é também, assunto da escola, que pretende capacitar seus estudantes para o exercício da cidadania e convívio social fundamentado no respeito às diferenças, ao direito do próximo em suas escolhas e opções. Portanto, o conhecimento da religião enquanto fenômeno humano e das diversas formas de expressão das culturas e tradições religiosas é parte do processo de escolarização que considera em sua proposta educacional todas as dimensões que envolvem os estudantes.
Nesse contexto, ao oferecer em seu processo educacional o Ensino Religioso, este precisa caracterizar-se pela compreensão de que ao pluralismo não se pode responder unicamente com tolerância religiosa recíproca, pois isto conduziria centrar-se na própria realidade, o que não é mais viável, “num mundo em que as comunicações múltiplas e rápidas venceram as distâncias e obrigam os homens a encontrar-se”, como afirmou o psicopedagogo Roberto Zavalloni (1920-2008). E, por ser neste mundo de rápidas comunicações que os estudantes estão inseridos, torna-se função da escola garantir em sua proposta educacional o Ensino Religioso com a intencionalidade de oportunizar aos estudantes analisarem o papel das tradições religiosas na estruturação de diferentes culturas, bem como oferecer uma reflexão que possibilite abertura ao diálogo inter-religioso, compreendendo que, segundo Zavalloni “os contatos cotidianos com as outras religiões do mundo colocam em evidência as nossas divergências, mas impelem-nos também a buscar as convergências, a encaminhar um diálogo franco e sincero, partindo daquilo que nos une ou pode unir-nos, para criar juntos uma sociedade humana mais justa, mais fraterna, mais igualitária”.


Parceria na educação
Neste quesito¬ família e escola, busca-se construir um consenso, uma vez que por longo tempo o Ensino Religioso esteve – e em algumas realidades ainda está – associado à presença das Igrejas na escola. Por esse motivo, ao ofertá-lo a seus estudantes no âmbito inter-religioso, a escola movimenta a família em sua opção religiosa e a põe em reflexão sobre essa dimensão.
É sabido que, ao ofertar o Ensino Religioso, a escola acaba, mesmo que involuntariamente, levando o estudante a realizar questionamentos religiosos à família, que nem sempre se encontra apta a respondê-los. E, ainda, sente-se intimamente invadida em algo que muitas consideram propriedade privada. Em alguns casos, o conflito família-escola instaura-se quando não é clarificado à família que o objeto do Ensino Religioso e seus objetivos não contemplam o convencimento dos estudantes para a existência do universo sagrado e, também, não se trata do seu oposto. Portanto, é necessário esclarecer que o Ensino Religioso na perspectiva de formação integral não se fundamenta em aspectos dogmáticos de afirmação ou negação da fé. Mas, ao modo das ciências, o processo pedagógico consiste em contextualizar os fatos, manifestações, elementos simbólicos e outros aspectos que permitam ao estudante compreender como ocorre a experiência religiosa das tradições, primando pelo conhecimento da diversidade cultural religiosa de modo livre de preconceitos para que possa participar da construção progressiva de cultura do respeito, tão necessária entre pessoas, grupos, sociedades e religiões.
Para este entendimento implica que a família se posicione, como detentora ou não de uma opção religiosa, e ajude o estudante a aprimorar o conhecimento de sua expressão, bem como, estar aberta ao entendimento de que conhecer a diversidade religiosa pelo viés científico é melhor do que adquiri-lo de modo informal e por vezes irreal ou preconceituoso, o que pode levar seus filhos a atitudes extremas de desrespeito ao próximo por faltar-lhes tal entendimento de modo adequado.
Já por parte da escola, é necessário e imprescindível definir seu espaço de atuação ao adentrar na dimensão religiosa e garantir que os valores universais comuns entre as tradições religiosas sejam alvo de reflexão, bem como, acolher as concepções de fé professadas pelos estudantes, o que faz com que o Ensino Religioso esteja fundamentado na teoria educacional escolar e contribua para capacitar estudantes a contribuírem responsavelmente para um mundo mais justo e pacífico, exercitando-se como cidadãos capazes de agir corretamente em relação ao direito e à liberdade dos demais.
Família e escola são parceiras na educação quando somam esforços para testemunhar o que num ato educativo-pedagógico, distinto e complementar, transmitem aos estudantes, contribuindo para sua formação.

* Marilac Loraine R. Oleniki
Mestra em Educação. Professora da Faculdade Vicentina de Curitiba (PR). Diretora da Praemium Consultoria Ltda. Consultora editorial e pedagógica. É coautora do livro Encantar: Uma prática pedagógica no Ensino Religioso. E-mail: marilac@oleniki.com.br

Referências bibliográficas

BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano – Compaixão pela terra. Petrópolis: Vozes, 2004.
BOURG, Florence Caffrey. A casa como lugar de formação religiosa. In: Revista Concilium. Petrópolis: Vozes, nº 4, fasc. 297, 2002.
LÜCK, Heloísa. Gestão da cultura e do clima organizacional da escola. Petrópolis: Vozes, 2010. (Série Cadernos de gestão).
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2001.
OLENIKI, Marilac L. R.; DALDEGAN, Viviane. M. Encantar: Uma prática pedagógica no Ensino Religioso. Petrópolis: Vozes, 2003.
SHURE, Mirna K. Eu posso resolver problemas: Um programa de solução cognitiva para problemas interpessoais. Petrópolis: Vozes, 2006.
ZAVALLONI, Roberto. Pedagogia Franciscana: Desenvolvimento e perspectivas. Petrópolis: Vozes, 1999.

Fonte: Dialogo 67 Agosto/Setembro 2012
Postado por: Diálogo




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