Espaço do desenvolvimento humano e religioso

Data de publicação: 11/04/2018


Esta temática me fez pensar na obra literária do filósofo francês Gaston Bachelard (1884-1962), A poética do espaço. Considerando a riqueza do espaço família-casa e do espaço escola-casa, pretendo provocar uma reflexão inicial sobre a importância do estabelecimento de vínculos entre as pessoas que constituem estes espaços para o desenvolvimento do “eu” religioso da criança e do adolescente. Este artigo é uma tentativa de apresentar a importância da experiência de reciprocidade entre as pessoas para o desenvolvimento da religiosidade, bem como para o conhecimento da cultura religiosa.
A vinculação família e escola apresenta-se muitas vezes com rachaduras e é preciso reaprender a arte de sonhar com realidades novas. Para cultivar sonhos, faz-se necessário acordar desejos adormecidos e buscar o que dá sentido ao viver humano. Penso que a casa-família e a “casa-escola” deve se transformar no espaço favorável ao desenvolvimento de utopias e busca do transcendente. Assim, Bachelar escreve que a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa nos permite sonhar em paz; representa o grande berço, o aconchego e a proteção, desde o útero materno até os últimos dias da existência terrena. Para este autor, a imaginação criadora é portadora das sementes de transformação, grande impulsionadora do pensamento e da dinamicidade para criar a experiência de encontro. Assim, a “casa” é o espaço interno e externo que abriga o ser humano na sua essência.
Neste texto, a casa refere-se ao espaço “família” e o espaço “escola” que abrigam pessoas e é fonte de aprendizado, construção de significados, compartilhamento dos mesmos e desenvolvimento do sentimento religioso. Estes espaços no contexto atual estão dominados pela tecnologia, consumo, velocidade das informações, fragilidade nas relações interpessoais, pluralidade cultural, meios de comunicação social e por tudo o que influencia e constitui a nossa realidade de seres humanos no século 21. Estas questões expressam algumas das dificuldades na atualidade para a compreensão do valor da religiosidade na formação das crianças e adolescentes.

A família e a escola no desenvolvimento da fé

Alguns conceitos ampliam a nossa visão sobre a missão da família e da escola como espaços favoráveis para o desenvolvimento da religiosidade:
•    A religião, para vários estudiosos, é uma realidade culturalmente construída, constituindo um conjunto estruturado de pensamentos e sentimentos, através do qual o ser humano aprende, conhece e toma consciência do sentido último da sua existência – Deus.  A religião, como um sistema organizado de crenças, símbolos, práticas, rituais, é uma mediação para o encontro com o outro e com o sagrado, o transcendente, Deus.
•    A religiosidade pode ser compreendida como uma maneira pela qual a pessoa acredita, segue, pratica uma religião, sendo influenciada pelo contexto cultural, no qual nasce, cresce e se desenvolve.
•    A experiência religiosa é uma experiência amorosa, vivenciada de dentro, repleta de sentido e valor. A ênfase está na vivência pessoal influenciada pela transmissão cultural e religiosa do mundo em que vive, transformando a vida e ampliando a visão de si mesma, do outro, do mundo e de Deus.

Religião, religiosidade e experiência religiosa são três pilares na formação do “eu” religioso e no processo de humanização das relações e busca do sentido da vida. Assim, a família e a escola são espaços privilegiados para o despertar do conhecimento interligado destes pilares, o que possibilita uma compreensão da religião para além de uma instituição religiosa e transmissão de doutrinas, mas  a religião como um espaço mediador do encontro com o outro e com o grande Outro – Deus. O “eu” religioso constitui-se pelas experiências de mutualidade, como diz o psicólogo da religião Edênio Valle, a religiosidade comporta um encontro com o outro – o Outro.
Para o pesquisador do desenvolvimento da fé James Fowler, nós nascemos com capacidades para serem ativadas e para vincular nossas emoções com o espírito. Para este autor, onde esta mutualidade de relações se faz presente e consistente, o bebê mostra uma forte predisposição para formar vínculos, para recrutar o amor e o cuidado dos adultos, para crescer em direção a relacionamentos saudáveis.
O desenvolvimento do sentimento religioso apresenta uma dimensão relacional, na qual Fowler descreve como a tríade da fé formada pelo eu, o outro e os centros de valor e poder compartilhados  – família, escolha de valores, poderes que sustentam e dão sentido à vida humana. Na sua visão, a fé é uma categoria mais fundamental da busca humana de relacionamento com a transcendência, seja ela religiosa ou não; é uma forma ativa de ser e comprometer-se; é um meio de adentrarmos e modelarmos nossas experiências de vida e é sempre relacional. Esta temática comporta uma amplitude de ideias, mas destaco a vinculação humana, na qual emerge a vinculação com Deus. Nós lemos, ouvimos muito sobre as várias dificuldades encontradas pela família e escola no despertar da religiosidade, mas pouco tempo paramos para refletir sobre o prisma dos encontros interpessoais.

Contribuições da família e da escola
Como a família e a escola podem contribuir para o desenvolvimento religioso das crianças e adolescentes? Muitas respostas poderíamos elencar, mas acredito que o essencial está na construção de significados e no compartilhamento dos mesmos através da experiência de encontro. Alguns princípios podem nos ajudar, como educadores e eternos aprendizes:
•    Fé e cultura religiosa. Valorize a dimensão histórica e religiosa no contexto cultural do mundo contemporâneo. Reconheça na realidade atual a possibilidade de reaprender o valor da tradição religiosa, como mediação para a experiência religiosa. Reaprenda a olhar para você, para o outro, para a natureza e para Deus, desenvolvendo a dimensão da fé religiosa na cultura em que você está inserido.
•    Ressignificação de valores. Reconheça no espaço-família e no espaço-escola a possibilidade e oportunidade para uma relação significativa que desperta o coração e a mente para a vivência dos valores que edificam a vida no planeta. Os valores aprendidos da cultura religiosa fortalecem o nosso ser em relação com os demais seres vivos.
•    Utopias e sonhos. Cultive a capacidade de sonhar de forma criativa e deixe fluir em sua vida pessoal e social a riqueza da utopia. A esperança aumenta a nossa capacidade de superação dos conflitos e nos faz corajosos para amar e contribuir com um mundo mais saudável.
•    Rede de relações. Cultive a disposição interior para reconhecer o significado das experiências vividas, do encontro com as outras pessoas e o prazer do encontro com o Criador de tudo e de todos.  A chave para o desenvolvimento da religiosidade supõe esta travessia na busca do sentido da vida e da transcendência. Você é um ser social e reside em um espaço interativo. Abrace os valores que sustentam a sua experiência religiosa e seja agradecido a Deus.
E assim finalizo este breve texto refletindo que não existem dificuldades para a contribuição na formação religiosa das crianças e adolescentes, o que existe é uma oportunidade para que família e escola cresçam no conhecimento do que é religião, religiosidade e experiência religiosa. Acredito que muitos caminhos se abrem quando não buscamos respostas prontas, mas quando nos deixamos nas mãos do Criador para sentir e viver a experiência amorosa que nos torna mais humanos e convictos da filiação divina.
   
* Maria Eliane Azevedo da Silva
Mestra em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), psicóloga, pedagoga. Membro da Congregação das Missionárias do Sagrado Coração de Jesus. Atua em clínica psicoterápica e assessoria para instituições educacionais e religiosas. E-mail: elianeaz2010@hotmail.com

Referências bibliográficas

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. In: Os pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1978.
FOWLER, James. W. Estágios da fé: Psicologia do desenvolvimento humano e busca de sentido. São Leopoldo-RS: Sinodal, 1992.
SILVA, Maria. Eliane. A. da. SOARES, Afonso.M.Ligario. Formação docente e o Ensino Religioso: Resultado preliminar de levantamento sobre teses e dissertações no Brasil. In: Revista Pistis & Praxis: Teologia e Pastoral. Curitiba-PR: Champagnat, 2010.
VALLE, Edênio. Psicologia da Religião. In: USARSKI, Frank. (org). O espectro disciplinar da Ciência da Religião. São Paulo: Paulinas, 2007.
_____. Psicologia e experiência religiosa: Estudos introdutórios. São Paulo: Loyola, 1998.

Fonte: Dialogo 67 Agosto/Setembro 2012
Postado por: Diálogo




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