Família, escola e os desafios a enfrentar na contemporaneidade

Data de publicação: 12/04/2018

A relação família/escola e a responsabilidade de cada uma dessas instituições nos processos educativos é um tema recorrente e relevante no campo educacional. Discute-se muito a importância de tal aliança, bem como de que forma ela deve ser estabelecida. Do mesmo modo, é comum ouvirmos pais e professores dizerem que uma ou outra instituição precisa assumir as suas responsabilidades e repensar o seu papel para melhor contribuir com a educação das nossas crianças e jovens.
Pode-se dizer que a necessidade de estabelecer funções definidas para cada uma dessas instituições acompanha toda a história da educação – mais precisamente, desde a constituição da escola moderna, no século 16. A organização da família nuclear e da escola moderna foi fundamental no processo de ordenação da sociedade.
Porém, com o advento da globalização, estamos vivenciando profundas mudanças sociais, culturais, econômicas e políticas, que afetam diretamente nossas formas de ser e de estar no mundo.  A modernidade – século 16 em diante – foi pensada a partir da lógica do quadriculamento do espaço, o que pressupõe o estabelecimento de lugares sociais – lugar da família, lugar da escola – e a definição de responsabilidades educativas das diferentes instituições. Atualmente, isso está mudando. Como incita-nos a pensar o sociólogo britânico Anthony Giddens, quando diz que “continuamos a falar da nação, da família, do trabalho, da tradição, da natureza, como se todos continuassem iguais ao que foram no passado. Não continuam”. No caso da família, tais mudanças são cada vez mais evidentes, pois produzem um impacto não apenas no contexto familiar, mas na instituição escolar, que acaba assumindo uma série de funções que antes eram da família – processos educativos básicos –, questão já discutida por vários autores.
E é justamente nesse sentido que faço a seguir um breve recorte histórico que possibilite compreender a constituição da família, da modernidade aos nossos dias.  

A constituição da família e suas funções

A família nuclear, pensada em termos de pai, mãe e filhos, é uma instituição que surgiu apenas há cerca de 200 anos. A noção do que seja uma família é variável ao longo da história e entre as diversas sociedades, sendo que, em alguns casos, pode nem haver esse conceito. Por um longo tempo, no Ocidente, a família foi constituída por um meio social intenso – vizinhos, amigos, amos e criados, crianças e velhos, mulheres e homens, ou seja, a antiga sociabilidade. A família era a instituição central responsável pela educação das crianças, de forma que a aprendizagem destas se dava basicamente na relação que estabeleciam com os adultos. Nessa época, ainda não havia se formado uma noção de infância. As crianças tinham as mesmas atividades, vestiam as mesmas roupas e frequentavam os mesmos lugares que os adultos.
A organização social moderna pode ser notada principalmente a partir do século 18, quando o Estado passa a se responsabilizar pelos cidadãos, proporcionando-lhes assistência, trabalho, educação e saúde. A partir daí, a família estará no centro do debate social, pois será preciso que ela se constitua enquanto um espaço programado – família nuclear: pai, mãe e filhos.
A instituição familiar terá um papel fundamental na reorganização social vigente. A família burguesa passa a assumir a responsabilidade de educar as crianças, questão que antes era transferida para os serviçais. Nesse contexto, teremos o médico de família, que passará a instruir a mãe sobre como deve educar seus filhos, afirmava o sociólogo francês Jacques Donzelot.  Pode-se dizer, portanto, que comportamentos considerados “naturais” no nosso tempo, como é o caso, por exemplo, dos cuidados que devem ser dispensados às crianças, nem sempre o foram. Tais comportamentos são construções históricas datadas que se deram com todo um investimento de constituição da família nuclear a partir do papel do médico e de inúmeras campanhas sociais que reforçavam a importância da organização familiar na reorganização da sociedade. Ao lado da escola, a família cumprirá a função de cuidar, proteger e educar as crianças.
A organização da família nuclear partiu de um modelo disciplinar rígido, que foi questionado posteriormente por organizações da sociedade civil e por estudiosos da área, dentre outros. Tais questionamentos dizem respeito principalmente ao fato da dita família tradicional, que não é homogênea, ter como seus principais princípios: a constituição de uma unidade econômica; a transmissão da propriedade como base do casamento; a desigualdade entre homens e mulheres; a relação com as crianças a partir de certo autoritarismo – a consagração dos direitos da criança na lei é muito recente; a sexualidade ser dominada pela reprodução.
Nesse sentido, pode-se dizer que a família contemporânea avançou. Os diferentes arranjos familiares possibilitam novas relações entre as pessoas. Porém, ao mesmo tempo em que tais mudanças contribuem com uma “democratização dos relacionamentos”, precisamos refletir sobre “o que estamos fazendo de nós mesmos” e “o que estamos fazendo das relações que estabelecemos com os outros”.
Esses tempos de menos rigidez e de mais flexibilidade podem ser muito produtivos, mas também muito inquietantes no contexto familiar. Como nos diz o sociólogo polonês Bauman Zygmunt, a modernidade líquida – tempo e espaço atual – traz consigo uma fragilidade dos laços humanos que estimula desejos conflitantes, pois, ao mesmo tempo em que possibilita um estreitamento de
laços, produz um movimento para mantê-los frouxos. Os sujeitos contemporâneos são impulsionados à mobilidade e à insatisfação permanentes.
O sociólogo norte-americano Richard Sennett, em seu célebre livro A corrosão do caráter, desafia-nos a pensar em como podemos evitar que as relações familiares sucumbam ao comportamento de curto prazo, à fraqueza da lealdade e do compromisso mútuo que constituem o mundo do trabalho na atualidade, uma vez que a família deve enfatizar a confiança, a obrigação formal, o compromisso mútuo e o senso de objetivo – virtudes de longo prazo. Segundo o autor: “Esse conflito entre família e trabalho impõe algumas questões sobre a própria experiência adulta. Como se podem buscar objetivos de longo prazo numa sociedade de curto prazo? Como se podem manter relações sociais duráveis? Como pode um ser humano desenvolver uma narrativa de identidade e história de vida numa sociedade composta de episódios e fragmentos?”.
Segundo Richard Sennett, o capitalismo de curto prazo corrói as qualidades de caráter que ligam os seres humanos uns aos outros e dão a cada um deles uma identidade sustentável. Penso que as questões elaboradas por Sennett podem se caracterizar como um desafio para as famílias contemporâneas: como as famílias têm contribuído e acompanhado os processos educativos de seus filhos? Que laços afetivos têm fomentado? Fica o desafio.

* Viviane Klaus
Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professora do Curso de Pedagogia e demais Licenciaturas na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

Referências bibliográficas

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
GIDDENS, Anthony. Mundo em descontrole: O que a globalização está fazendo de nós. Rio de Janeiro: Record, 2003.
DONZELOT, Jacques. A polícia das famílias. Rio de Janeiro: Graal, 1986.
KLAUS, Viviane. Repensando a relação família/escola na contemporaneidade. Novo Hamburgo, RS, NH na Escola, p.2-3, 29, 2006.
SENNETT, Richard. A corrosão do caráter: Conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 2004.

Fonte: Dialogo 67 Agosto/Setembro 2012
Postado por: Diálogo




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