O imaginário do sagrado e do profano

Data de publicação: 08/05/2018


Sagrado, palavra que se arvorou na consciência humana de forma fantástica, vem da raiz latina sacrum, em referência a Deus e aos deuses ou, ainda, ao poder deles emanado. Deus, por sua vez, é uma das concepções (e conceito) mais remotas e férteis do patrimônio cultural da humanidade. Deriva do indo-europeu Deiwos, que significa resplandecente, luminoso. Originariamente em relação aos corpos celestes (Sol, Lua, estrelas, etc.) por oposição aos humanos, telúricos por natureza, ou terrestres, os sem luz própria e tão admiradores e desejosos dela.

A fascinante inspiração do firmamento
São muitos os exemplos para o vínculo entre o sagrado, divindade e o Céu. Vejamos um deles, citado pelo historiador das religiões, Mircea Eliade (1097-1986). Na Mesopotâmia, o termo sumério para divindade era dingir, e tinha por significação uma epifania celeste: claridade, brilho; por sua vez, o ideograma que exprimia “divindade” era o mesmo que exprimia Céu (2008a, p. 61). Sobre o imaginário humano do encantamento do Céu, Mircea Eliade afirma que a prece mais popular do mundo (do Ocidente) dirige-se ao “Pai nosso, que está no Céu” (2008a, p. 39), refletindo que a prece mais antiga da humanidade se dirigia também a um pai celestial. O Céu, desde sempre, burilou o imaginário humano.
Dados históricos revelaram a quase universalidade das crenças em um ser divino celestial que criou o Universo e a Terra, garantindo a fertilidade através de encantadoras gotas d’água que vêm do Céu, a morada dos deuses, lugar encantado, no imaginário humano mais primordial. Céu, do latim caelu, refere-se às regiões acima da superfície da Terra, onde estão situadas as entidades celestes. Pela sua própria estrutura, o Céu inspira a imaginação humana, por ser alto ou superior, poderoso, inacessível, inalcançável, amplo ou infinito, constante ou imutável, eterno, etc., todas estas acepções fazem referências ao universo religioso e às divindades. Diz o botânico Jean Chevaliere Alain Gheerbrant: “O Céu é uma manifestação direta da transcendência, do poder, da perenidade, da sacralidade: aquilo que nenhum vivente da terra é capaz de alcançar (...). A transcendência divina se revela diretamente na inacessibilidade, na infinitude, na eternidade e na força criadora do Céu (a chuva)”.
Esse imaginário consiste tanto na evocação de lembranças, quanto na construção de margens criadas livremente. As formas da natureza, os mitos, os sonhos, o devaneio, a transcendência são panos de fundo que inspiram a imaginação humana. A imagem diz respeito à representação de um objeto ausente ou à reprodução de uma sensação na ausência da causa que a produziu.  O imaginário, por sua vez, é o produto e a função da imaginação; é a representação de algo numa tradução poética e livre, não meramente reprodutora. Graças ao imaginário, a imaginação é essencialmente aberta. Ela é, no psiquismo humano, a própria experiência da novidade. Portanto, pelo imaginário que é fruto da observação, do devaneio, da meditação humana voltada para as imagens e formas da natureza, do que elas evocam ou inspiram, o homem foi criando um vínculo com um mundo inicialmente desconhecido.
De obscuro e misterioso, o mundo foi sendo clareado à medida que o homem passou a ter experiências diversas que o permitiram ir forjando intuições, interpretações e conformações a ele. O sentido de sagrado enquanto divino foi uma das intuições e elaborações engendradas a partir do que o Céu e os seus elementos manifestaram e inspiraram para a consciência humana.

O mundo profano e o sagrado se tocam
Mircea Eliade diz que o homo religiosus toma conhecimento do sagrado porque ele se manifesta, ou seja, mostra-se, revela-se; ainda, absolutamente diferente do profano. O termo que o autor criou para designar a manifestação do sagrado é hierofania.  (2008b, p.17).
Para ele, o sagrado é o que se opõe ao profano: pro: ante; diante + fano: sagrado; profano: ante, perante o sagrado. O profano é o ordinário, o comum, o mundano, o que não é sagrado. Por vezes é tido como irreal, em oposição ao real, que é o sagrado. Ainda, o sagrado é o “totalmente outro”, o misterioso e poderoso, que não pertence à ordem natural do mundo.
O Sagrado é uma verdade sólida e inabalável na consciência do homo religiosus, que o faz crer firmemente em uma realidade absoluta, a realidade por excelência, que é poder, que é Ser. Tal realidade é sagrada porque não é do mundo terrestre, passageiro, que se desgasta, por ter sido criado diferente do sagrado, a realidade última, divina e eterna. Sobre o mundo como reflexo do sagrado, diz Mircea Eliade: “O mundo existe porque foi criado pelos deuses. O cosmos “vive” e “fala”. A própria vida do cosmos é uma prova de sua santidade, pois ele foi criado pelos deuses e os deuses mostram-se aos homens por meio da vida cósmica” (2008b, p. 135).
É para essa realidade máxima que o homem religioso se volta, dirigindo-lhe atos religiosos e sendo por ela abrangido, enquanto espera a deslumbrante hora de estar em seu seio. Assim, esse homem tem acesso ao sagrado em diversas manifestações experimentadas. Para o religioso, o sagrado se manifesta no mundo profano por uma mediação. Assim, o profano se torna suporte do sagrado, que se mostra heterogeneamente através de diversos signos, meios: objetos (uma árvore, uma pedra, um rio, um monte, um cajado, etc., todos se tornam sagrados a partir da manifestação); fenômenos da natureza (raios, trovão, Sol, Lua, estrelas, meteoritos, cheias etc.); pessoas (um sacerdote, um xamã, um pajé, um pai de santo etc.); acontecimentos (catástrofes, surgimento de uma planta ou pessoa em certo lugar ou “do nada”, o nascimento de uma criança, uma parada ou morte de animais em certo lugar etc., tudo é manifestação do sagrado); palavras (orações, recitações de um mito, leitura de um texto, entoações de mantras, palavras de bênção etc., são sagradas); tempo (festas religiosas restauram tempos sagrados, por exemplo); espaço (templos, cabanas, terreiro, montes, o centro de uma aldeia etc. são espaços sagrados); símbolos (os símbolos religiosos das diversas religiões do mundo são sagrados).

Para o religioso, o que vem de outro lugar e se manifesta evidentemente é o sagrado, e aquilo que serve de mediação para que o sagrado venha é o profano. O sagrado e o profano são as formas que o homem assume na vida e que se constituem em modos de ser no mundo (religioso ou não religioso), situações existenciais assumidas pelo homem ao longo de sua vida. O exercício de olhar a experiência humana do sagrado é fantástico, independentemente de “verdades” religiosas. É como se adentrássemos na alma para contemplar uma deslumbrante tela existencial. Um filme com projeção espiritual.

Fonte: Dialogo 70 maio/junho 2013
Postado por: Diálogo




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