Os sentidos da festa

Data de publicação: 11/05/2018


Os sentidos da festa

Nos últimos anos, a historiografia tem dado especial atenção ao campo da religiosidade enquanto vivências concretas da religião. Para os organizadores Flamarion Cardoso e Ronaldo Vainfas, em que pese essa discussão, pode-se dizer que: “A nova História cultural revela uma especial afeição pelo informal e, sobretudo, pelo popular (...) o distanciamento em relação à chamada história das ideias, história do pensamento formal, da filosofia ou dos grandes pensadores”.

Objeto de pesquisa histórica no campo da religiosidade

De tradição que remonta à antiguidade, as festas sempre povoaram o imaginário e as representações das sociedades humanas e tiveram conotação religiosa focada na ideia de ação de graças aos deuses dos cultos politeístas, tanto da Antiguidade como de outras temporalidades e espacialidades.
Ao longo da História, a festa assumiu papéis e funções capazes de servir às mais variadas intenções de regulamento ou dominação, notadamente em períodos revolucionários. Para Emile Durkheim: “Toda festa, mesmo quando puramente laica em suas origens, tem certas características de cerimônia religiosa, pois, em todos os casos ela tem por efeito aproximar os indivíduos, colocar em movimento as massas e suscitar um estado de efervescência, às vezes mesmo de delírio, que não é desprovido de parentesco com o estado religioso”.
O estudo da religiosidade permite vislumbrar a formação do sentimento de pertença, ao passo que questões como singularidade e alteridade tornam mais clara e significativa a compreensão de manifestações e representações coletivas no campo da pesquisa histórica. Elementos como cultura, sociedade e história reacendem as discussões em torno de aspectos pouco ou nem sempre levados em conta, como o cotidiano, e aqui, de modo especial, a festa.
Entre as repercussões dessa remodelação teórica, três pelo menos sobressaem: a festa recebe destaque, pois é através dela que os homens são convertidos em cidadãos, ela desperta o interesse dos historiadores e se concentra sobremodo em manifestações populares de aspecto religioso. Assim, é preciso ver a festa como um objeto de estudo na discussão da cultura popular. Para tanto, o contexto proporcionado pela História Cultural permitirá compreendê-la na dinâmica das sociabilidades, as quais fomentam identidades de variados agrupamentos humanos e sociais. Sob essa abordagem, é possível entendê-la como parte do imbricamento das “ligas” culturais – os cruzamentos das manifestações culturais, entre as quais estariam, convencionalmente, as formas “erudita” e “popular” –, Roger Chartier.

Significados e funções da festa
Embora seja importante entender a essência do conceito festa, o entendimento não pode prescindir de sua contextualidade nem da premissa de ser um fenômeno cultural e subversivo. Em Emile Durkheim, três elementos já podiam ser notadamente verificados nos estudos sobre a festa: a transgressão das normas sociais; a coesão do grupo social, e a produção de um estado de efervescência coletiva. Com Festa e civilizações, Jean Duvignaud verifica que a festa é um componente central na vida social, em que pesem seus contornos e peculiaridades. Ainda segundo esse autor, é possível caracterizar a festa em duas situações: a de representação e a de desregramento. A primeira está relacionada ao teatro, onde nem todos são atores e a maior parte do público é assistente. A segunda, além de destrutiva e ao mesmo tempo criativa, envolve todos numa espécie de universo desaculturado. Nesse sentido, afirma Duvignaud: “Quando dizemos que a festa é uma forma de ‘transgressão’ das normas estabelecidas, referimo-nos ao mecanismo que, com efeito, abala estas normas e, muitas vezes, desagrega-as”.
Para José G. Cantor Magnani, de modo expressivo e particular, uma festa tem na essência a força de comunicação simbólica. Os aspectos emocional, lúdico, mágico e de socialização, bem como a materialização de uma fé, levam a pensá-la a partir da visão de seus próprios portadores. Vista como um fato coletivo, a festa ultrapassa o sentido da comemoração e ajuda a reforçar os laços sociais e afetivos, e a religiosidade aproxima as pessoas e lhes dá um sentido de comunidade. O caráter de ascendência espiritual perpassa pela celebração do sagrado e dá à festa um tom ideológico capaz de manter coesos interesses e vivências díspares. Segundo Rita de Cássia de Mello Peixoto Amaral, os sujeitos tornam-se uníssonos através de práticas culturais que rompem as ações do cotidiano, como dançar, cantar e orar efusivamente, fazer promessas, romarias, procissões e festas. Associada ao trabalho, a festa seria como o bálsamo da lida temporal programada, a fuga da fadiga e da opressão. É o extravasamento da vontade reprimida.
Livres de amarras, os atores da festa se sentem absortos e envolvidos, transitando entre a exacerbação profana à glorificação religiosa. Para J. de Almeida, “a festa seria um paroxismo de vida, a contrastar violentamente com as preocupações da vida cotidiana. O homem suportaria as obrigações do tempo profano, apenas pela recordação da festa passada e pela expectativa da próxima”.
Outro aspecto importante da festa é o seu caráter inclusivo-democrático. Todos se tornam agentes protagonistas. A alegria e o movimento, aspectos típicos desse objeto de pesquisa é, sobretudo, o resultado da mistura de gente e seus respectivos códigos, virtualizado em um conjunto de vivências e emoções que criam um corpo coletivo.

A festa no Brasil 
A historiografia brasileira dá destaque a duas posições clássicas. Para Mary Del Priore, a elaboração da festa no país está relacionada à construção da sociabilidade. Em Rita Amaral, a festa e a religiosidade teriam contribuído na mediação entre as diferenças culturais que se instalaram historicamente no Brasil, o que teria originado uma cultura nacional diversificada.
Do ponto de vista religioso, durante anos, especialmente entre os séculos 18 e 19, a festa exerceu uma função específica, que ao mesmo tempo também atendia às necessidades do Estado português: a conversão dos africanos escravizados ao catolicismo e a sua consequente socialização entendida como docilidade e nenhuma resistência. O caráter subversivo da festa é um aspecto marcante e pode ser avaliado sobre situações multifacetadas. “A festa enquadra-se nesse universo lúdico com possibilidades de denúncia da realidade e subversão da ordem vigente, considerando que, embora não de modo exclusivo, é particularmente no tempo de lazer que são vivenciadas situações geradoras de valores que poderiam ser chamados de revolucionários”, segundo Nelson Carvalho Marcellino.
De modo geral, vê-se que a festa, na ótica da dinamicidade e da multiplicidade, caracteriza diferentes sentidos da vivência cotidiana, que muitas vezes está na essência de sua realização. Condensa e expressa a vida dos agentes sociais e históricos, tanto no âmbito da sociedade como também da economia, da política e da cultura.
Concluindo, pode-se ainda dizer que a dinamicidade da festa religiosa permite entender não só elementos internos, mas sobretudo situações de ordem contextual, social e local, enriquecendo o trabalho do pesquisador dessa área, que, fatalmente, mergulhará num universo cultural marcado pelo hibridismo das formações, pela multiplicidade das representações e pela complexidade de certas apreensões do divino ou sagrado nas ações cotidianas e popularescas das festas brasileiras.
Extrato do texto A festa como objeto de pesquisa histórica no campo da religiosidade, utilizado em minicurso homônimo do XII Encontro Sergipano de História – Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe, em 2008.

* Claudefranklin Monteiro Santos
Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe. Pesquisador do GPCIR (Grupo de Pesquisa Cultura, Identidades e Religiosidades) e Doutorando em História pela Universidade Federal de Pernambuco.



Referências

ALMEIDA, J. Todas as festas, a festa? In.: SWAIN, T. N. (org.). História no plural. Brasília: UNB, 1993, p. 154.
AMARAL, Rita de Cássia de Mello Peixoto. Festa à brasileira. Significados do festejar no país que “não é sério”. 1998. 387 f. Tese (Doutorado em Ciências – Antropologia). Universidade de São Paulo.
CARDOSO, Ciro Flamarion & VAINFAS, Ronaldo (orgs.). Domínios da História. 4ª ed. Rio de Janeiro: Campus, 1997, p.149.
CHARTIER, R. A história cultural, entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1990.
DEL PRIORE, Mary. Festas e utopias no Brasil colonial. São Paulo: Brasiliense, 1994.
DURKHEIM, Emile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Edições Paulinas, 1989, p. 547 e 548.
DUVIGNAUD, Jean. Festas e Civilizações. Fortaleza, Edições Universidade Federal do Ceará & Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1983, p. 223.
HUNT, Lynn. (org.). A nova história cultural. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
MARCELLINO, Nelson Carvalho. Estudos do lazer: Uma introdução. Campinas: Autores Associados, 2002, p. 96.
MAGNANI, Jose Guilherme Cantor. Cultura popular: Controvérsias e perspectivas. RIB Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v. 12, 1981, p. 23-39.

Fonte: Dialogo 70 maio/junho 2013
Postado por: Diálogo




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