O desenvolvimento religioso

Data de publicação: 05/06/2018


O sentimento religioso nasce e amadurece no encontro com pessoas significativas na trajetória da existência humana. Assim, o eu ou self  religioso é uma dinâmica relacional.

A religiosidade comporta o encontro com o outro

James William Fowler, psicólogo e teólogo americano, estudioso do desenvolvimento da fé na perspectiva psicológica, apresentou em sua obra clássica (1981) Estágios da fé: Psicologia do desenvolvimento humano e busca de sentido um diálogo com teólogos, cientistas da religião e estudiosos do desenvolvimento cognitivo, moral e psicossocial, como Jean Piaget, Lawrence Kohlberg e Erik Erikson. Vinte anos mais tarde ampliou sua teoria, no diálogo com Daniel Stern sobre a constituição do self e com Ana Maria Rizzuto sobre a representação das imagens de Deus.
A inovadora contribuição de Fowler abriu espaço para estudos do desenvolvimento do “eu religioso”. Para Edênio Valle, professor de Psicologia Científica da Religião na Pontifícia Universidade Católica (PUC-/SP), a religiosidade comporta um encontro com o outro (o Outro) e o modo como esse encontro é vivenciado se inscreve no itinerário de vida e autopercepção de cada um.  Pode-se dizer que o tema é atual e motivador para a continuidade de pesquisas e estudos de Psicologia, Educação, Ciência da Religião e outras áreas afins.
Para Fowler, a  fé ultrapassa a adesão a uma religião e emerge das relações da pessoa desde os primeiros anos de vida. O sentimento religioso assenta-se na matriz relacional e a fé humana é a base da fé religiosa. O autor vê a fé como integrante da personalidade e engloba a construção dos relacionamentos e dos propósitos e significados da vida.

O desejo do encontro nasce com o ser humano
Desde o nascimento, a criança é dotada de capacidades inatas para a fé, que são ativadas, conforme ela é recebida no mundo e passa a formar a disposição para a confiança por meio da experiência compartilhada de amor. Esta vinculação é a base do desenvolvimento da fé e das imagens de Deus.
Fowler afirma que a criança deseja um encontro com a face do outro e uma presença que a abençoa e a reconhece na sua essência. O olhar afetivo do bebê para a mãe e da mãe para o bebê é algo transcendente. Tal disposição para a sintonia afetiva favorece a experiência de encantamento e admiração de algo e alguém que está dentro e além de si mesmo. A partir dos teóricos estudados para o tema “processo de desenvolvimento da fé” vê-se que o “eu religioso” é reconhecido como fruto de uma experiência amorosa nas relações interpessoais. Fowler afirma: “Onde esta mutualidade de relações está presente e é consistente, o bebê mostra uma forte predisposição para formar vínculos, para recrutar o amor e o cuidado dos adultos, para crescer em direção a relacionamentos saudáveis. A criança nasce com potencial para a construção de um sentido de fé e de significado que sustenta a vida”.
Em 1980, Fowler já escrevia sobre a estruturação e os estágios de desenvolvimento da fé: “Desejo reconhecer que existe um complexo interjogo de fatores a serem considerados quando se pretende começar a entender o que é o desenvolvimento da fé. Esse jogo inclui  a maturação biológica, emocional e cognitiva, a experiência psicossocial  e as influências religiosas de origem cultural.

A disposição para a fé evolui com a personalidade
A teoria fowleriana publicada em 1981 mostra os estágios da fé como processo evolutivo, no qual ocorre uma mudança na expressão de fé de uma pessoa de acordo com cada ciclo da vida. O termo “estágios da fé”  é visto como um movimento em espiral, no qual cada estágio possuiu uma força e uma base capaz de favorecer ou não a transição para um estágio mais amadurecido. As características de um estágio podem estar presentes em outro, independentemente da faixa etária.
Eis um resumo sucinto do pré-estágio e dos seis estágios da fé segundo Fowler:

a)    Pré-estágio da fé indiferenciada.  Do nascimento aos 2 anos de idade. Depende da maturação biológica do organismo e envolve a confiança emocional que constitui a base para o desenvolvimento da fé.
b)    Estágio 1 da fé intuitivo-projetiva. Neste estágio, formam-se as imagens religiosas de longa duração, com a capacidade perceptiva, imaginativa e afetiva. A criança, ainda centrada em si mesma, começa a ter consciência das proibições e normas morais, bem como a conhecer a dimensão religiosa através das experiências que remetem à noção de encantamento e de sagrado. A fé fantasiosa e imitativa é marcante nesta fase.
c)     Estágio 2: da fé mítico-literal. Aproximadamente dos 7 aos 12 anos de idade. A criança  começa a perceber as perspectivas do outro, apropriando-se de forma literal das crenças, símbolos e regras, bem como aprende a distinguir a fantasia da realidade.
d)    O estágio 3 (fé sintético-convencional) compreende o período de 12 a 18 anos de idade. Surge na adolescência e amplia a experiência de mundo para além da família. É um estágio conformista, no qual a pessoa não possui percepção segura da sua identidade. Assume uma ideologia, mas não tem reflexão crítica sobre ela. As avaliações dos outros, internalizadas, são as limitações deste estágio, gerando, assim, conflitos nas relações interpessoais e na relação com Deus. A avaliação e a expectativa dos outros de um modo sacralizado e a experiência de traições interpessoais podem acarretar um relacionamento compensatório com Deus ou um sentimento de desespero.
e)    O estágio 4 (fé individuativo-reflexiva) entre 18 e 25 anos de idade. A pessoa começa a assumir a responsabilidade, compromissos, estilos de vida, crenças e atitudes, bem como reconhece a complexidade da vida. O eu, antes sustentado por uma identidade marcada pelos significados das outras pessoas, adquire nova identidade, formada pela consciência de suas próprias fronteiras e conexões interiores. A capacidade de refletir sobre a própria identidade, a ideologia e a capacidade de compreender os significados da pessoa ou de seu grupo é a força emergente deste estágio.
f)     O estágio 5 (fé conjuntiva) começa após os 25 anos. É a aceitação e  integração das polaridades. Nesta fase a pessoa retoma as experiências vividas e adquire consciência crítica de si mesma. A convivência com o diferente, embora ameaçadora, favorece a luta para unificar os opostos na mente e na experiência. A capacidade de compreender os mais poderosos significados da pessoa ou de seu grupo constitui a força emergente deste estágio.
 g) O estágio 6 (fé universalizante) é atribuído à maturidade, sem idade específica. A característica básica é o engajamento em uma comunidade humana e o compromisso com a transformação da realidade, visando os valores transcendentais. As pessoas universalizantes são contagiantes; criam zonas de libertação dos grilhões sociais e políticos; vivem um sentido de unidade com um poder que unifica e transforma o mundo. Fowler reconhece como pessoas de fé universalizante Mahatma Gandhi, Martin Luther King, madre Teresa de Calcutá, entre outras.

Intuições acerca do Ensino Religioso
O Ensino Religioso, como área do conhecimento, deve priorizar o desenvolvimento humano e religioso e avançar em uma formação docente qualificada para o estabelecimento de vínculos saudáveis com as crianças, adolescentes, jovens e adultos. Desta maneira, a educação contribuirá para a formação de cidadãos globais, críticos, criativos, solidários, felizes e comprometidos com a promoção da vida de todos os seres vivos.
Princípios essenciais para a formação docente no Ensino Religioso:
•    Disposição para a experiência de encontro interpessoal que favoreça o amadurecimento humano e religioso;
•    Grupos de estudo e pesquisa sobre a  dimensão relacional da fé a partir da compreensão das narrativas da história de vida de cada pessoa;
•    Diretrizes para a formação docente por meio de um diálogo interdisciplinar sobre o desenvolvimento humano e religioso no campo da Ciência da Religião.

É preciso que o Ensino Religioso ultrapasse os muros do “ensinar” e avance na dinâmica do aprender a conhecer, fazer, conviver e ser, a partir de uma experiência relacional da fé.


*Maria Eliane Azevedo da Silva
Mestra em Ciências da Religião PUC-SP, pedagoga, psicóloga, religiosa na Congregação
Missionárias do Sagrado Coração de Jesus e estudiosa do  desenvolvimento humano e
Religioso. E-mail elianeaz2010@hotmail.com

Referências
FOWLER, James W. Estágios da fé; psicologia do desenvolvimento humano e busca de sentido. São Leopoldo: Sinodal, 1992.
_____. Faithful change; the personal and public challenges of postmodern life. Nashville: Abingdon Press, 1996, p. 12.
______Faith and the structuring of meaning; In: FOWLER, J. W. e  VERGOTE, A.
(Eds.). Toward moral and religious maturity, Morriston, N. J.:  Silver Burdett, 1980, p. 159..
SILVA, M. E. A; SOARES, A. M. L. Formação docente e o Ensino Religioso: resultado preliminar de levantamento sobre teses e dissertações no Brasil. In: Revista Pistis & Praxis: Teologia e Pastoral. Curitiba: Champagnat, 2010.
VALLE, Edênio.  Psicologia da religião. In: USARSKI, Frank., 2007.

Fonte: Dialogo 71, Ago/Set 2013
Postado por: Diálogo




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