A proposta da transdisciplinaridade

Data de publicação: 07/06/2018

Tipos de conhecimento: a proposta da transdisciplinaridade

Por, Ubiratan D’Ambrosio

Neste artigo reelaboro, focalizando o tema do título, ideias já apresentadas em outros de meus trabalhos. Minha grande motivação é o estado da civilização e a situação de risco por que passa a humanidade.

O cenário preocupante
Em um impactante editorial de um número recente da revista Science, o eminente cientista britânico Martin Rees alerta para o estado atual da civilização:

“As principais ameaças à existência sustentável da humanidade agora vêm de pessoas, não da natureza. Choques ecológicos que degradam irreversivelmente a Biosfera poderiam ser desencadeados pelas exigências de um crescimento insustentável da população do mundo. A rápida disseminação de pandemias poderia causar estragos nas megacidades do mundo em desenvolvimento. E as tensões políticas serão provavelmente decorrentes da escassez de recursos, agravados pelas alterações climáticas. Igualmente preocupantes são as ameaças imponderáveis resultantes das poderosas novas ciber, bio e nanotecnologias, pois estamos entrando em uma era na qual alguns indivíduos poderiam, por meio de erro ou terror, provocar uma ruptura social irreversível.”

Acredito que uma análise dos sistemas de conhecimento pode nos dar alguma ideia para lidar com essa ameaça ao futuro da humanidade. Estamos passando por grandes transformações na sociedade e na educação. Hoje, falamos em educação bilíngue, em medicinas alternativas, no diálogo inter-religioso. Inúmeras outras formas de multiculturalismo são notadas nos sistemas educacionais e na sociedade em geral.
As profundas transformações nos sistemas de produção e de emprego, de comunicação e de informatização, são resultados da mundialização e dão origem à globalização e ao multiculturalismo. Os reflexos na geração e aquisição de conhecimento são evidentes.

Alternativas e objetivo da educação
Um resultado esperado dos sistemas educacionais é a aquisição e produção de conhecimento atualizado. Isso ocorre fundamentalmente a partir da maneira como um indivíduo percebe a realidade nas suas várias manifestações:
 
°    uma realidade individual, nas dimensões sensorial, intuitiva, emocional, racional;
°    uma realidade social, que reconhece a essencialidade do outro;
°    uma realidade planetária, que mostra dependência do patrimônio natural e cultural e responsabilidade na sua preservação;
°    uma realidade cósmica, que leva a transcender espaço e tempo e a própria existência, buscando explicações e historicidade.

As práticas ad hoc (individuais, focalizadas) para lidar com situações problemáticas surgidas da realidade são o resultado da ação de conhecer. Isto é, o conhecimento é deflagrado a partir da realidade e, graças ao conhecimento, o indivíduo lida com as situações, os problemas e os questionamentos que se apresentam na sua realidade. Conhecer é saber e é fazer.
    
A geração e o acúmulo de conhecimento em uma cultura obedece a uma forma de coerência. Há, como dizia o astrônomo Johannes Kepler no livro Harmonices mundi, publicado em 1618, uma comunalidade de ações na qual se manifesta o “zeitgeist”, termo alemão que significa “sinal dos tempos” e que viria a ser fundamental na proposta historiográfica do filósofo Friedrich Hegel, no século 19.

Essa comunalidade de ações caracteriza uma cultura. Ela é identificada pelos seus sistemas de explicações, filosofias, teorias ou ações e pelos comportamentos cotidianos. Tudo isso se apoia em processos de observação, de classificação e de comparação, de representações e de comunicação; de contagem e de medição; de inferências, que se dão de maneiras diferentes em toda a espécie humana, em qualquer local que se transformam ao longo do tempo, em diversas culturas e que se influenciam mediante a dinâmica dos encontros culturais. O conjunto desses processos constitui conhecimentos que sempre revelam as influências do contexto ambiental e social, evoluem com o tempo, se organizam com uma lógica interna e são, então, codificados e formalizados. Assim nascem os mitos, as religiões, as tradições e as disciplinas.

Nosso grande objetivo é encontrar outra proposta civilizatória, que contemple as vantagens da civilização atual, mas se liberte de seus efeitos danosos. Uma estratégia é entender o conhecimento e o comportamento humanos nas várias regiões do planeta, ao longo da evolução da humanidade. Naturalmente, reconhecendo que o conhecimento se dá de modo diverso em culturas diferentes e em épocas diferentes. É, em todos os casos, lidar com as situações, os problemas e os questionamentos que se apresentam na sua realidade.

Potencial da transdisciplinaridade
Em meados da década de 1970, eu propus um programa de pesquisa para entender o conhecimento e o comportamento humanos nas várias regiões do Planeta ao longo da evolução da humanidade. A ideia nasceu da minha análise das práticas: de observar, classificar e comparar, de representar e comunicar, de contar e medir e ainda de  inferir, práticas estas que conheci em muitas visitas a vários países e na recuperação e nova leitura de narrativas históricas, algumas maldosamente distorcidas, outras rejeitadas ou esquecidas. Conclui que havia muitas maneiras de entender, explicar e lidar com a realidade. Examinei a história dos mitos e das religiões, das técnicas e das artes, da linguagem e das atitudes pessoais e valores em várias culturas. Adotei um enfoque externalista e holístico, que significa procurar as relações entre o desenvolvimento de todas essas manifestações da inteligência humana e as relações íntimas entre cognição e cultura. Por razões várias, dei o nome Etnomatemática a esse programa de pesquisa.
Uma análise holística da história do conhecimento consiste essencialmente da análise crítica e integrada de várias etapas do conhecimento, ao longo da evolução da humanidade: da sua geração e produção, da sua organização intelectual e social e da sua transmissão e difusão. No enfoque disciplinar tradicional, essa análise se faz subordinando cada uma das etapas, de forma estanque, a teorias de cognição, à epistemologia, à história, à política, à educação, às comunicações, como se fosse possível considerá-las isoladamente. O enfoque holístico reconhece que há influências mútuas entre essas várias etapas.

Eficácia do método transdisciplinar
Considerando que a percepção de fatos é influenciada pelo conhecimento, ao falarmos em história do conhecimento estamos falando da própria história do homem e do seu habitat no sentido amplo, isto é, da Terra e mesmo do Cosmos. Mas não há como falar da Terra e do Cosmos, desligado da visão de que o próprio homem criou e tem da Terra e do Cosmos. A ciência moderna, organizada em disciplinas, procura “teorias finais”, isto é, explicações que se pretendem definitivas sobre a origem e a evolução das coisas naturais, e assim esbarra numa postura de arrogância. A proposta transdisciplinar visa substituir a arrogância do pretenso saber absoluto e das verdades incontestáveis, que tem como consequências inevitáveis soluções finais, pela humildade da busca incessante, cujas consequências são o respeito, a solidariedade e a cooperação.

As disciplinas dão origem a métodos específicos para conhecer objetos de estudo bem definidos. Lembremos que variantes e extensões da postura disciplinar têm sido propostas. Em 1699, Bernard Bouvier de Fontenelle, secretário da Academia de Ciências de Paris, dizia: "Até agora a Academia considera a natureza só por parcelas (...). Talvez chegue o momento em que todos esses membros dispersos (as disciplinas) se unirão em um corpo regular; se juntarão por si mesmas de certa forma.”

A multidisciplinaridade procura reunir resultados obtidos do enfoque disciplinar, como se faz ao se organizar uma grade curricular nos programas escolares. A interdisciplinaridade, muito praticada hoje, sobretudo nas escolas, associa métodos de umas disciplinas a métodos de outras, identificando novos objetos de estudo. Por exemplo, surgem a Psicopedagogia, a Sociolinguística, a Bioquímica. Tornam-se, na verdade, novas disciplinas e passam a mostrar as mesmas limitações das disciplinas tradicionais. Surgiram então os especialistas em áreas interdisciplinares.

A transdisciplinaridade vai além das limitações impostas pelos métodos e objetos de estudos das disciplinas e das interdisciplinas. Não nego que o conhecimento disciplinar, consequentemente o multidisciplinar e o interdisciplinar, é útil e importante. Tais conhecimentos continuarão a ser ampliados e cultivados, mas só poderão conduzir a uma visão plena da realidade se forem subordinados ao conhecimento transdisciplinar.

A pesquisa e a educação caminham rapidamente em direção a uma educação transdisciplinar. É nossa esperança que uma nova geração, pensando e agindo com uma postura transdisciplinar, possa evitar uma ruptura irreversível da civilização.


 * Ubiratan D’Ambrosio  
Doutor em Matemática. Professor Emérito da Universidade de Campinas (UNICAMP) e Professor de Pós-Graduação da Universidade Bandeirantes Anhanguera de São Paulo - SP.


Referências

     D’AMBROSIO, Ubiratan. Etnomatemática. Arte ou técnica de conhecer e aprender. Editora Ática, São Paulo, 1990.
    ___________. Etnomatemática. Elo entre as tradições e a modernidade, Editora Autêntica, Belo Horizonte, 2001.
   ___________. Transdisciplinaridade. Editora Palas Athena, São Paulo, 2009.
   FONTENELLE, Bernard B. de. Histoire de l'Académie des Sciences, 1699.
   REES, Martin. Editorial,  Science, 8 march 2013, p. 1123.


Fonte: Dialogo 71, Ago/Set 2013
Postado por: Diálogo




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