O pensar filosófico e religioso africano

Data de publicação: 02/07/2018



Hoje, o pensamento africano é um dos grandes pilares que sustentam a sabedoria humana.
Ferran Iniesta

Conforme diz Iniesta, a África pensa e seu pensamento é robusto e poderoso, embora seja pouco ou quase nada conhecido. O pensar africano é alicerce da sabedoria humana há tempos imemoráveis, à semelhança da grande explosão do big bang que gerou a energia da qual ainda hoje usufruímos.
A palavra pensamento é formada com o verbo pensar e o sufixo mento que tem o sentido de “ação ou resultado de ação”. Já o verbo pensar vem do latim pensare. A etimologia das palavras é muito reveladora. Conforme o Dicionário etimológico resumido, “suspender as conchas da balança, pesar”, com sentido figurado, passou a “sopesar mentalmente, meditar, pensar”. Mais tarde também “cuidar de alguém, dar comida a animais”, talvez, com influência do cuidar, que vem do latim cogitare “pensar”. Observa-se que o verbo meditar vem do latim meditare com o sentido de exercitar-se, aplicar-se, refletir, estudar, repetir um papel, em sentido figurado preparar.
Depois dessas considerações, é possível compreender que o pensar africano está associado a um exercício constante de reflexão, de pesar as coisas mentalmente, com o objetivo de cuidar de todas as coisas abstratas e concretas. O pensamento africano consiste em um preparar-se mentalmente para eventos possíveis em qualquer tempo, já que a cosmovisão africana contempla o visível e o invisível e relaciona ciclicamente o passado,  o presente e o futuro do universo e da vida.
Alguns aspectos do pensar africano podem ser expressos, resumidamente, nos seguintes pontos: percepção do universo como unidade; harmonia entre o natural e o sobrenatural; reconhecimento de elementos metafísicos; concepção de uma cosmogonia; diversidade de substâncias; presença de forças dinâmicas. Disto, conclui Ferran Nascentes: “O africano é holístico, de conjunto, e pouco redutível ao pensamento atomista moderno”.
O pensar africano, abstrato e concreto, possui vários canais de expressividade, tais como, tambores, dança, música, arte, religião, provérbios, palavras, mitologia. É um pensar que se constitui numa sabedoria, numa filosofia, que pode tomar forma teórica e prática. Quanto à filosofia, há quem defenda a existência de uma filosofia africana; e outros que a questionam; entretanto, diante do dilema da existência ou não de uma filosofia, reflitamos a seguir. 


Filosofia na África
A definição clássica de filosofia a vê como produto da mente grega do século 6º a.E.C. (antes da Era Comum ou Era Cristã). Entretanto, sabe-se que grandes filósofos gregos foram beber da água da sabedoria em fonte africana. Vejamos alguns exemplos.
Tales de Mileto, nascido na Ásia menor, considerado, como um dos sete sábios e iniciador da filosofia, passou longo período estudando com os sábios do Egito; Pitágoras, nascido na Ásia menor, permaneceu em terras egípcias durante, aproximadamente, 22 anos. O historiador antigo Flávio Josefo informa-nos que Tales e Pitágoras foram alunos dos egípcios; Champollion afirmava que a interpretação dos monumentos do Egito demonstrava a origem egípcia das principais doutrinas filosóficas da Grécia. E Platão, de origem ateniense, deve seus conhecimentos de matemática aos egípcios.
Por esses poucos exemplos, nota-se a recorrência ao Egito a procura de conhecimento, isso, no dizer de Biyogo, levou alguns pesquisadores a afirmar que o Egito seria o berço da filosofia e não a Grécia. Clemente de Alexandria dizia que a cabeça da filosofia e seus chefes eram os profetas egípcios. Pode-se constatar que antes da Grécia, a África, através do Egito, já praticava, há bastante tempo, o pensamento que, mais tarde, passaria a ser rotulado pelos gregos de filosófico. O que nos leva a falar de uma filosofia africana e de um pensar também africano.

Filosofia africana: origem da filosofia europeia
É sabido, por muitos, que a palavra filosofia é atribuída a Pitágoras, de acordo com Cícero, mas o fato de se criar um termo não implica dizer que só a partir de então se deu vida ao respectivo assunto. O termo filosofia, por ser grego, confundiu esse vocábulo com a atividade originada na África. Sendo assim, não se pode deixar de registrar que a África foi o berço dos sistemas e das filosofias do mundo. John Pappademos, citado por Ondó, afirma: “É pueril crer que a ciência começou na Grécia. O milagre grego tinha sido preparado por milênios de trabalho egípcio. A ciência grega era menos uma criação do que um renascimento”.
As palavras de Pappademos são estranhas para os que não concebem o conhecimento fora do limite europeu, porém mais estranhas ainda e quase estarrecedoras, para o erudito ocidental, são essas palavras de Fulgencio Fernández, também citado por Ondó: “A filosofia africana está na origem da filosofia europeia”. Tal afirmação chega a quase adquirir o status de “heresia” para quem ainda conserva o preconceito e o fundamentalismo científico.
As considerações acima expostas são meios pelos quais, paulatinamente, se demonstra que a África, além de ser o berço da humanidade, se constitui também como o berço da filosofia. Continua Ondó: “Os inumeráveis dados que analisamos nos levam a concluir que a filosofia, cuja origem se atribuiu aos gregos, nasceu no Egito e da negritude. Ao ser transplantada para a Grécia, mil anos depois, estendeu-se por todo o Ocidente e, de modo simultâneo, por todo o continente africano”.
 

A religião como expressão do pensar africano
Estudar os sistemas religiosos africanos implica em conhecer o próprio povo em sua complexidade. O pesquisador queniano John Samuel Mbiti reconhece: “Os africanos são notoriamente religiosos, cada povo tem seu próprio sistema com um conjunto de crenças e práticas que permeia o interior da vida em todas as dimensões. Nem sempre é fácil ou possível ver a religião isoladamente”. É difícil falar de religião africana no singular, pois tendo o continente uma grande variedade de etnias, cada uma com seu sistema religioso, isso constitui um sério problema quanto ao estudo da religiosidade, portanto, é preferível usar a expressão no plural: religiões africanas.
Vale salientar que, por religiões africanas, se quer dizer religiões tradicionais. A religiosidade africana é um forte elemento na tradição e exerce profunda influência no pensamento e na vida do africano. O sistema religioso tradicional africano pode ser, sucinta e superficialmente, caracterizado pelos seguintes pontos:
a)    Ênfase na comunidade, na coletividade;
b)    Espiritualidade, religiosidade étnica;
c)    Ausência de propagadores, a espiritualidade reside no limite de cada etnia;
d)    Crença na continuidade da vida após a morte;
e)    Ausência de fundadores ou reformadores;
f)    Ausência de conversão de uma tradição religiosa para outra;
g)    Ancestralidade;
h)    Libação e oferenda de alimentos;
i)    Diferença no animismo e do fetichismo;
j)    Monoteísmo: Deus como pai, Deus como mãe;
k)    Respeito e reverência pela natureza;
l)    Doutrina transmitida por meio de oralidade: danças, tambores, cantos, histórias, poemas, máscaras e mitos.
As religiões tradicionais estão no coração do povo africano, elas concretizam o abstrato da metafísica, da cosmogonia, explicação da origem do universo, e da teogonia, no politeísmo, narração do nascimento dos deuses e de sua genealogia, plasmam uma visão do universo e expressam simbolicamente a forma de pensar do africano.
Por fim, fica lançada a semente da expressão do pensar africano.

Everaldo Lins de Santana
Mestre em Temática Africana e professor de Filosofia em Rolim de Moura - RO.

Referências

BIYOGO, Grégoire. Histoire de la  philosofie africaine. Livre I, Le berceau égyptien de la philosophie. Gabão (Libreville): Editions L’Harmattan, 2006, p. 97.
INIESTA, Ferran. El pensamiento tradicional africano. Madrid: Casa de África, 2010, p.11; p.84 (tradução do espanhol, Diálogo).
MBITI, John Samuel. African religions and philosophy. Heinemann,1989, p.1. (tradução do inglês, Diálogo).
NASCENTES, Antenor. Dicionário etimológico resumido. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1966, p. 569.
ONDÓ, Eugenio Nkogo. Síntesis sistemática de la filosofía africana. Barcelona: Ediciones Carena, 2001, p. 79; p. 80; p. 47; p. 202 (tradução do espanhol, Diálogo).




Fonte: Dialogo 73 Fevereiro/Abril de 2014
Postado por: Diálogo




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