Divindades da bola

Data de publicação: 03/07/2018


Em fevereiro de 2014, completaram-se 120 anos da chegada da primeira bola de futebol ao Brasil, na mala do paulistano filho de ingleses Charles Miller. De volta de um período de estudos na Inglaterra, o jovem trouxe a novidade no ano de 1894. Desde então, poucos eventos despertam no povo brasileiro tanta procura de ajuda sobrenatural como os jogos. Rezas dirigidas a Deus, aos santos e aos orixás são comuns antes e durante as partidas decisivas dos campeonatos e da Copa do Mundo de Futebol.
Se não bastasse a religiosidade popular para justificar aulas de Ensino Religioso inspiradas na Copa, tem-se ainda um grande potencial de pesquisa, conhecimento e reflexão nas remotas origens sagradas desse esporte, que começou por motivos religiosos ou bélicos.

Chute inicial
É incerta a primeira civilização que usou alguma forma de bola em exercícios coletivos, fossem eles destinados a treinar o exército, ou fossem ritos sagrados em honra dos deuses. Os escritos chineses de Yang-Tse, ao falar da lendária dinastia imperial de Hi, de 3 mil anos a.E.C. (antes da Era Comum ou Era Cristã), referem-se ao tsu-chu, o ato de golpear com o pé. Era um exercício de agilidade reservado à guarda pessoal do Imperador Huang-Ti. Os militares chutavam uma bola de couro uns para os outros, sem deixarem que ela tocasse o solo. Na mesma época, os sacerdotes egípcios usavam bolas nos cultos ao deus Sol, e os da Mesopotâmia as dedicavam à deusa Lua.
O império japonês, consagrado ao Sol, praticou desde 2.500 a.E.C. o rito religioso kemari o de chutar a bola. Depois de recomendada à proteção das divindades, a bola era jogada com grande reverência e delicadeza em um campo delimitado pelas quatro árvores sagradas, a cerejeira, o pinheiro, o plátano e o salgueiro. Enquanto no Japão os imperadores En-ji e Ten-ji praticaram o kemari como exercício de autocontrole, no Ocidente, então desconhecido, as civilizações astecas e maias recriavam seus mitos de origem com uma bola de látex jogada em determinadas datas do calendário religioso. Os astecas tinham o tlatchtli, e os maias, o tipitzil. Os dois ritos representavam as lutas dos deuses do bem e do mal, ao criarem a terra e a bola era o símbolo da cabeça do deus do mal, vencido pelo bem.
 
Os gregos praticaram o sphairomakia, jogo com esfera. A bola grega parece ter servido para lazer e educação dos jovens, que exercitavam jogos com o propósito da harmonia mental e corporal, assemelhando-se assim a Apolo, deus da beleza. As garotas gregas jogavam bola com as mãos em honra da musa Urânia, senhora da astronomia, representada com uma esfera nas mãos. Homero  descreve na Odisséia, como a princesa Nausíaca filha de Alcínio rei dos feáceos, da região da Esquéria, acompanhou as aias que foram lavar roupas no rio. Enquanto as roupas secavam ao sol, as moças almoçaram e passaram a divertir-se com a bola. “Quando se acharam, porém, satisfeitas, Nausíaca e suas servas de si lançaram os véus, entregando-se ao jogo da bola... Joga a princesa para uma das suas criadas a bola, sem que, porém acertasse, indo a bola cair na corrente”  (Odisséia, canto VI, 100-110).
Em Roma, os homens das altas classes sociais exercitavam-se nas termas, espécie de clubes com piscinas quentes e espaços para ginástica e jogos com bola. Já as mulheres jogavam bola, com as mãos, nos jardins fechados das residências.
Os soldados romanos exercitavam o harpastum como exercício militar. Chutavam uma bexiga de boi cheia de ar, que chamavam fole. Os habitantes de Ashbourne no condado de Derby, na antiga Bretanha, atual Inglaterra, realizaram a façanha inédita de vencer os soldados romanos em uma partida de harpastum em 217 a. E.C. Neste mesmo ano, pela primeira vez, foram recrutados escravos para o exército. Os novatos, ainda pouco treinados no exercício militar, perderam a partida para os bretões que já a haviam aprendido anos antes com legiões veteranas. O fato passou a ser lembrado nas datas  cívicas da região e acabou por integrar o folclore inglês. 

Crânios humanos
Em 1175, o autor inglês Willian Fitztephe, no livro Descriptio Nobilissimae Civitatis Londinae, descreveu um dia do ano em que habitantes de aldeias e cidades inglesas saíam às ruas chutando uma bola de couro para comemorar a expulsão dos dinamarqueses. A bola simbolizava a cabeça do comandante invasor.
Não existem registros seguros de que qualquer civilização tenha de fato usado crânios de inimigos nos jogos sagrados. Sabe-se, porém, que os vencidos nos jogos das culturas mesoamericanas eram decapitados em homenagem aos deuses representados nos jogos.

Sugestões de atividades interdisciplinares de Ensino Religioso
1.    Pesquisar e reproduzir trajes e gestos dos primeiros jogadores, nas civilizações que usaram a bola.
2.    Produzir uma história em quadrinhos sobre as origens e os personagens dos primeiros jogos de bola.
3.    Analisar os gestos e os sons coletivos geralmente adotados pelas torcidas, nos atuais estádios de futebol (levantar, erguer os braços, agitar bandeiras, gritar palavras e frases...); Comparar esses gestos com os que são feitos nos ritos das várias tradições religiosas.
4.    Pedir que os estudantes descrevam os sentimentos coletivos vivenciados nos estádios (confiança, esperança, alegria, festa, desilusão, frustração...), compará-los com os sentimentos das pessoas que realizam ritos religiosos.
5.    Refletir sobre os objetivos dos jogos na Antiguidade e os objetivos da Federação Internacional de Futebol Associado (Fifa) ao promover a Copa do Mundo de Futebol (harmonia, solidariedade, encontro entre os povos...)
6.    Debater: a violência nos estádios e entre as torcidas rivais encontra justificativa na história dos jogos de bola?  Como podemos definir a violência atual?  

Fonte: Diálogo 74, Maio/Junho 2014
Postado por: Diálogo




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