Família: configurações e projetos

Data de publicação: 03/07/2018


Ao falarmos de família, para os mais atentos parece óbvio entender as novas modalidades e possibilidades. O certo, porém, é que a família, ou como queiramos denominar essa microcomunidade humana, sempre nos desafia, pois é geradora e, ao mesmo tempo,  resultado de múltiplos movimentos antropológicos e sociais.
Vamos enfatizar, neste artigo coloquial, algumas abordagens possíveis no âmbito da escola e, mais especificamente, quando essa perspectiva deve ser trazida para a aula de Ensino Religioso, ainda que não exclusivamente para esse espaço-tempo escolar.

Família e escola no Ensino Religioso
As tradições religiosas da humanidade carregam concepções de família, reiteram esses modelos e os justificam. Você pode assistir, por exemplo, a um documentário de uma tradição religiosa com esta perspectiva. No exercício de observar como se concebe e se opera a relação com a família em suas várias versões atuais, o educador, especialmente o professor de Ensino Religioso, terá um cuidado extremo para não estigmatizar nenhum aluno em função de suas convicções ou realidade familiar.
Um dos primeiros aspectos que precisamos retomar é a questão da natureza. Quando dizemos que algo “corresponde à natureza”, estabelecemos a ideia de que  qualquer coisa diferente é anormal, inadequada, praticamente inaceitável. Diferentemente disso, a nossa natureza e a natureza das relações humanas são constituídas culturalmente, portanto, cultura e natureza estão sempre conversando. Aquilo que em dada cultura é obviamente “natural”, por vezes choca, indigna e escandaliza em outras tradições culturais. As religiões também são marcadas pelas culturas quando pensam e propõem o seu critério de família. É o que afirmam os psicólogos norte-americanos David Barash e Judith Lipton:  “O que realmente separa os seres humanos dos outros primatas é que nós não só vivemos em sociedade, como temos que produzir sociedade de modo a poder viver”. Em suma, num legítimo ambiente dialógico e plural, não dá para terminar a conversa sobre as configurações da família simplesmente dizendo que é “conforme a natureza”.
Outra questão crucial é perceber a função social e o papel decisivo da família no desenvolvimento dos seres humanos. Quando usamos a expressão latina cellula mater (célula mãe), reconhecemos que, ordinariamente, as famílias assumem a manutenção da vida, a segurança e as primeiras aprendizagens; monitoram os primeiros impasses, garantem a humanização e a culturalização dos filhos. Segundo o psiquiatra Sigmund Freud, a culturalização educa, molda, enquadra e controla o ego, que assim aprende a postergar o prazer em nome do princípio da realidade. Com certeza, há outros conceitos de culturalização, mas é importante refletir, com a filósofa Simone de Beauvoir, que não nascemos prontos.
Diferentemente de outros seres vivos, delimitados e “com programação bastante fechada”, nosso potencial e repertório são construídos nas relações estabelecidas com os outros seres humanos e com o meio ambiente, o que provoca uma variação muitíssimo grande e dificilmente enquadrável. O filósofo espanhol José Ortega y Gasset já consagrou a expressão: “Eu sou eu e minhas circunstâncias”. Reconhecer a riqueza dos contextos é um bom passo para acolher a realidade de cada pessoa e de cada grupo humano como manifestação única na humanidade. As famílias são contextualizadas e tornam-se contexto fundamental para a forja da pessoa humana.
Um terceiro e importante pressuposto é a “lente” da tradição religiosa, que, na visão sobre família, faz priorizar não tanto as definições, mas, sobretudo, os princípios. Acostumamo-nos a simplificar o discurso e as propostas das religiões em receituários e determinações assertivas que exigem, muitas vezes, apenas cumprimento e não compromisso. A linha divisória entre bem e mal, certo e errado, graça e condenação é facilmente identificada e, tristemente, colocamo-nos em posição de juízes e não de pessoas em caminho. O teólogo e escritor padre João Batista Libânio (1932-2014), em seus escritos, trabalhava as mentes e os corações dos leitores para admitirem a ambivalência que caracteriza todos os processos humanos e históricos. Outros autores também têm procurado ler o real com a perspectiva da presença de Deus, quando esta não fica evidente. Por isso, queremos destacar os aspectos programáticos, propositivos, paradigmáticos das configurações e das propostas acerca da família. Como todos os processos que envolvem a dimensão da espiritualidade, também as questões da família exigirão não apenas configuração por identidade, mas vinculação dinâmica aos propósitos e necessidades de quem se comprometeu com valores verdadeiramente humanizadores.
Cito o romancista Andrew Solomon, exatamente para reforçar essa perspectiva: “Tanto minha jornada em busca de uma família quanto este livro me ensinaram que o amor é um fenômeno multiplicador – qualquer aumento de amor fortalece o amor do mundo, que o amor que sentimos por nossa família pode ser um meio de amar a Deus, de modo que o amor que existe numa família pode fortalecer o amor de todas as famílias”. Mesmo quando as configurações familiares são as menos clássicas, todos nós buscamos o espaço-tempo em família como estrutura que alicerça o crescimento dos que se aglutinam em torno desta mesa. Lembro, metafórica e praticamente, a ideia da comensalidade e dos valores comuns cultivados. A esse título, o papa Francisco, que se tem notabilizado pelo cuidado com as pessoas, declarou em entrevista à Rádio Capital do Rio de Janeiro, durante a Jornada Mundial da Juventude: “A família é importante, é necessária para a sobrevivência da humanidade. Se não existe a família, a sobrevivência cultural da humanidade corre perigo”. O que seria, nesse caso, “sobrevivência cultural”? Tenho a firme convicção de que não estamos falando de aspectos periféricos, e sim da essência da nossa condição humana conquistada e necessariamente vivenciada em família.

A escola complementa a família
Somos o que somos, construímos um mundo ainda com tantas contradições, mas o suporte e o sentido para a nossa presença neste mundo é a família. Com raras e louváveis exceções, carecemos do colo, da mão, do ouvido, da palavra, de tudo o que a família pode proporcionar como sustentáculo para sermos e convivermos.
Para apresentar uma experiência significativa, nossa escola tem buscado uma sintonia duradoura com as famílias. A comunicação e o diálogo com os pais são permanentes, também, utilizando das tecnologias, mesmo insistindo no contato pessoal e em momentos coletivos. Acompanhando as buscas e os impasses de muitas famílias na educação dos filhos, queremos dar nossa contribuição com uma parceria solidária e tecnicamente consistente. Complementamos o olhar dos pais e buscamos indicar caminhos e alternativas quando estão em jogo o crescimento, o desenvolvimento e as aprendizagens dos estudantes.
Um movimento para evidenciar nossas crenças no valor intransferível da família é a celebração do Dia da Família, já há muitos anos. Sem desmerecermos o valor do pai e da mãe como figuras parentais essenciais, apontamos também para a realidade de muitas famílias que integram esses papéis em dinâmicas novas e, consequentemente, que exigem empenho, flexibilidade e muito afeto. Colocamos a família em evidência, com todos os seus desafios e maravilhosas potencialidades. O nosso Dia da Família é uma manifestação eloquente do que acreditamos e da fundamental exigência da educação que acontece em casa e na escola, pois, como diz a canção de Wilson Rocha sobre Marcelino Champagnat: “Para educar é necessário amar. Amar é dar o melhor que existe em nós”!

Temos visto, com alegria, outras iniciativas no sentido de aproximar as famílias da escola e a escola das famílias. Uma referência dessa necessária vinculação e desse mútuo conhecimento é o trabalho da Secretaria de Educação do Município de Taboão da Serra (SP), iniciado em 2005. Os educadores que vão ao encontro das famílias, conhecendo a realidade, as necessidades e as possibilidades. Constrói-se um novo cenário para a educação que acontece também na escola. A escola que prescinde das famílias e de suas atuais configurações, acredito, será muito pouco relevante para os estudantes.
Para concluir esses apontamentos: o Ensino Religioso, dentro do projeto da escola, poderá ser momento e ocasião de aprofundamento dessa condição que nos é dada pela família. Precisamos da família como raiz, como base, como terreno firme de construção do nosso ser. Tendo ou resgatando essa dimensão, podemos pensar em projetos de vida, em sonhos e em um futuro com paz, perdão, cidadania e amor.

* Ascânio João Sedrez
Pedagogo, filósofo e diretor-geral do Colégio Marista Arquidiocesano de São Paulo (SP). 
     
Referências
BARASH, David; LIPTON, Judith. O mito da monogamia: fidelidade e infidelidade nos animais e nos seres humanos. Cascais, Portugal: Sinais de Fogo, 2002.
SOLOMON, Andrew. Longe da árvore: pais, filhos e a busca da identidade, São Paulo: Cia das Letras, 2013, p. 810.

Saiba mais
Dia da Família: 
www.colegiosmaristas.com.br/noticias/rede-de-colegios-Um-dia-diferente-na-companhia-da-familia
Visita dos professores às casas dos estudantes: www.gestaoescolar.abril.com.br/politicas-publicas/rede-taboao-serra-incentiva-482318.shtml (consulta em 26/05/2014).

Fonte: Dialogo 75, Agosto/Setembro 2014
Postado por: Diálogo




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