Animações desbancam o estereótipo do amor instantâneo

Data de publicação: 20/07/2018



Desde o começo desta década, algumas animações lançadas no cinema internacional, principalmente pela Walt Disney Animation Studios e Pixar Animation Studios, mostram a mulher como protagonista. Mas isso não é novidade, já que a maioria dos contos de fadas adaptados na telona tem uma princesa como personagem principal, como as tradicionais Branca de Neve e os sete anões (1937), Cinderela (1950), A Bela Adormecida (1959), A Bela e a Fera (1991), A Pequena Sereia (1989).
Mas, as diferenças que chamam a atenção nas tramas de hoje implicam na abordagem e na forma da narrativa. Antes, o amor verdadeiro, ou o beijo do amor verdadeiro, curava todos os males, acordava princesas adormecidas, transformava a fera em príncipe, fazia soar a voz da sereia. A formação do casal, a cerimônia do casamento, a família tradicional compunham o “foram felizes para sempre e fim”.
Rapunzel (Enrolados, 2010), Merida (Valente, 2012) e Elsa (Frozen, 2013) buscam algo diferente, principalmente a liberdade. Cada uma delas fica “acorrentada” por boa parte da vida a determinada realidade opressora, e ao retirarem o verniz das questões mágicas, encantadas ou enfeitiçadas que só servem de pano de fundo para as atitudes tomadas, fica essencialmente a busca por autoconhecimento e amor fraternal.
Tiana (A Princesa e o Sapo, 2009) já mostrava determinação em realizar o sonho de abrir um restaurante, projeto herdado do pai, mas ainda precisou do amor de um príncipe para torná-la princesa e uma pessoa melhor. Ela seguiu adiante e conseguiu seu final feliz, não correspondendo à onda de mudança de comportamento das personagens.

Mergulho no gélido coração
Os contos de fadas ou contos maravilhosos são variações das fábulas e se caracterizam pela presença de um herói ou uma heroína que precisam vencer os obstáculos e o mal. Tal estrutura é subvertida em Frozen, com a mudança para um estilo que tem a ver com a visão muito pouco maniqueísta do que é bem e do que é mal. Como exemplo, vemos Elsa, que, para não machucar a irmã, Ana, se esconde por toda a vida, aumentando, com o medo, o poder ou a maldição congelante que carrega.
A animação, que é uma releitura do conto A Rainha da Neve, de Hans Christian Andersen, venceu na categoria de Melhor filme de animação no Prêmio Globo de Ouro em 2014 e ganhou o Oscar 2014 de melhor Filme de Animação e melhor canção original. É o 18º filme na lista das maiores bilheterias na história, sendo a segunda animação a ultrapassar 1 bilhão de dólares arrecadados.
A frase “encobrir, não sentir, não deixar saber” é repetida durante todo o filme no ensinamento do rei e da rainha que deixam a primogênita isolada para que aprenda a controlar seus poderes, após o acidente ocorrido em uma brincadeira das duas irmãs, quando crianças. Elsa costumava brincar com seu poder sobrenatural, criando estruturas de gelo e fazendo nevar no salão do castelo. Acidentalmente, feriu Ana na cabeça com um raio gelado, os pais procuraram a ajuda dos trols – criaturas antropomórficas imaginárias do folclore escandinavo, que, no caso de Frozen, são considerados os especialistas em amor. O mais velho e sábio deles disse que foi sorte o raio não ter atingido o coração, pois “o coração não pode ser mudado com facilidade, mas a cabeça é fácil de convencer”.
A resposta do pai ao mestre dos trols que cura Ana é taxativa: “Vamos protegê-la, pode aprender a controlar, tenho certeza, até lá trancaremos os portões, reduziremos os empregados, limitaremos o contato dela com as pessoas, e manteremos os poderes escondidos de todos, incluindo a Ana.” Essa proposição define a forma de vida da menina a partir de então, isolada, afastada da irmã que tanto ama e vivendo com seu pior inimigo, o medo.

“O medo faz escolhas onde o risco é menor”
Algo que chama a atenção é a relação entre liberdade e amor que permeia a história das irmãs. Ana quer se libertar da solidão e do fato de ter sido ignorada pela irmã mais velha, mesmo após a morte dos pais, e Elsa carrega um medo descomunal de que alguém descubra a “maldição” que a cerca e talvez nem sonhe com a liberdade, tamanho seu sofrimento.
No momento em que a princesa Elsa se vê obrigada a abrir os portões do castelo e se expor a todos, por ocasião de sua coroação, houve o desenlace, e o contraponto entre as duas ficou mais forte. Ana traz um príncipe, apresenta-o à irmã e diz que vão se casar quase que imediatamente. A já coroada rainha questiona: “Não pode se casar com quem acabou de conhecer!”, gera, assim, um conflito interessante que não é vivido pelas princesas tradicionais como Branca de Neve, Cinderela, A Bela Adormecida, A Pequena Sereia, e outros, que em outra época definiam o encontro da princesa com o príncipe como a solução para todos os problemas. Em Frozen, definitivamente, o relacionamento amoroso instantâneo entre o príncipe e a princesa não tem tanta importância quanto as questões afetivas que envolvem as duas irmãs.
Com seu segredo revelado, a “Rainha da Neve”, busca exílio nas montanhas geladas e, pela primeira vez, sente-se livre e feliz: “De longe tudo muda, os medos que me controlavam, não vejo ao meu redor”, e só então conhece a beleza de seu poder, ao construir um palácio de gelo e cristais, e afirma para si mesma “o frio não vai mesmo me incomodar”.
Embora tenha a bondade como característica primordial – afasta-se da irmã por amor, para protegê-la durante toda a vida –, quando a irmã a confronta, já conhecendo sua condição, para afastá-la de vez, a qualquer preço, cria um monstro de gelo que pode ferir, sem saber que já atingira seu coração em um rompante descontrolado.
Em toda a história, a presença do mal é representada mais por uma condição do que por uma pessoa, pode-se dizer que os pais não souberam lidar com a situação, pois o “poder do amor” é muito maior que a força do medo. Afastar Ana da companhia das pessoas, principalmente da irmã querida, só causou mais dor e sofrimento para toda a família. Ao mesmo tempo, Elsa, depois de adulta, poderia ter procurado lidar com o problema, mas preferiu permanecer oculta e, mesmo se sentindo livre após abandonar a irmã e o reino, só conseguiu fazê-lo porque tudo e todos estavam longe de seus olhos.

Princesas e a construção do imaginário infantil
A influência dessas histórias no cotidiano das crianças, principalmente das meninas, cerca todo o universo infantil, desde os filmes até roupas, acessórios, materiais escolares e brinquedos. Muitos vídeos com crianças interpretando as princesas Elsa e Ana, de Frozen, foram publicados na internet depois da exibição do filme nos cinemas, principalmente por se tratar de um musical. A manifestação criativa dos fãs produz algo novo inspirado na ficção e insere essas narrativas no cotidiano das crianças.
Até que ponto as imagens e as músicas poderiam influenciar o comportamento das crianças e alterar, de forma positiva, o conceito já enraizado do tão esperado “felizes para sempre e fim”? A assistência de Frozen e de outras animações, com tramas complexas como as citadas neste artigo, pode suscitar uma discussão saudável sobre relações familiares, respeito, escolhas, liberdade, “amores instantâneos”, coragem frente os desafios, medos, inseguranças, abrindo, assim, um diálogo sobre crenças e valores.
A continuação das animações baseadas em contos de fadas tradicionais também traz questões que podem ser problematizadas, como releituras do que já é prescrito. No caso da Cinderela, uma de suas irmãs rouba a varinha da fada madrinha e a madrasta decide que Cinderela não terá o seu “felizes para sempre” e apaga da mente do príncipe a imagem da protagonista, fazendo com que ele pense que, na verdade, dançou com a irmã de Cinderela. Numa terceira continuação, o príncipe, atarefado com as questões do reino, sempre está viajando ou ausente, e fica a cargo da recém-casada Cinderela tomar conta de todo o castelo e preparar um banquete. No filme, bem mais recente que o original, ela ainda quer agradar e fazer-se aceita.
Criar um movimento em que as mídias e a educação conversem sempre é um desafio, elaborar dinâmicas, questionários, encenações, com temas de filmes, de telenovelas ou de séries, proporciona o diálogo de forma espontânea e positiva, aproximando o educador do aprendiz e colaborando para a produção do saber.

* Silvia Torreglossa
Mestra em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), especialista em Comunicação pela União das Faculdades dos Grandes Lagos (Unilago), graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina, PR (UEL), professora do Serviço à Pastoral da Comunicação (SEPAC), de Paulinas e repórter de Paulinas Revistas.

Referências
CITELLI, Adilson Odair; COSTA, Maria Cristina Castilho. (Orgs.). Educomunicação: construindo uma nova área de conhecimento. São Paulo: Paulinas, 2011.
CITELLI, Adilson Odair. (Org.). Educomunicação: imagens do professor na mídia. São Paulo: Paulinas, 2012.
JESUS, Silvia Terezinha Torreglossa de. Função educativa da telenovela brasileira: do merchandising social à ação socioeducativa em Salve Jorge. 2013. Dissertação (Mestrado em Teoria e Pesquisa em Comunicação), Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. Disponível em: . Acesso em: 2014-03-18.
SOARES, Ismar de Oliveira. (Org.). Educomunicação: o conceito, o profissional, a aplicação: contribuições para a reforma do ensino médio. São Paulo: Paulinas, 2011.
TORREGLOSSA, Silvia. LOURENÇO, Carlos Eduardo. Narrativas, linguagem e poder na relação aluno-professor. In: Tecnologias digitais nas interfaces da comunicação/educação desafios e perspectivas. Curitiba: Editora CRV, 2012, v.1, p. 29-54.

Fonte: Diálogo 74, Maio/Junho 2014
Postado por: Diálogo




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