Filhos da Mãe-Terra

Data de publicação: 05/09/2018



O intuito da Assembleia Geral das Nações Unidas, ao proclamar 2015 como o Ano Internacional do Solo, é sensibilizar as nações para o valor dos saberes dos povos tradicionais. No Brasil, as práticas culturais sagradas dos povos indígenas, que sempre cuidaram da terra e dos bens que ela oferece, quando ouvidas e valorizadas, podem ajudar a sociedade a se reeducar na relação com a natureza. É o que crê e propõe o escritor e líder indígena guarani Olívio Jekupé. 

Amor filial   
Falar da Mãe-Terra é maravilhoso e me alegra muito, porque sei o quanto ela é importante para nós, indígenas, tanto Guarani quanto de outras etnias. O valor da terra é o melhor elemento de nossa cultura, porque sabemos que sem ela nada somos. Aprendemos que ela foi criada por Nhanderu, o nosso Deus, e se destruirmos algo dela, como as florestas, por exemplo, seremos todos afetados, tanto nós como a sociedade não indígena.  É o que vemos no momento, com as altas temperaturas, as enchentes, ou a falta de chuva. Nós, Guarani, não temos uma religião oficial, como a têm os jurua kuery (não indígenas). Nossa própria cultura e nossa vida cotidiana é religião, nós cumprimos os rituais sagrados todas as noites e em todos os momentos importantes para cada um de nós e para a vida da aldeia.
Eu moro na aldeia guarani Krukutu, situada na Mata Atlântica, na região de Parelheiros, município de São Paulo (SP). O povo guarani é um dos mais de 300 grupos étnicos indígenas do Brasil atual. Muitos imaginam que os índios estão extintos e estranham quando ouvem dizer que existem comunidades indígenas na cidade de São Paulo. Por isso espero que, através deste artigo, possam conhecer nossa aldeia.

Uma opy na metrópole
Aqui na aldeia, nós temos a opy, o espaço sagrado onde, todas as noites, fazemos nossos rituais. Assim como na cidade as pessoas têm igrejas e templos, nós, Guarani, nos reunimos na opy. Nesse espaço, as nossas crianças aprendem a valorizar a cultura guarani e cantam nossos cânticos sagrados ao lado dos jovens e dos mais velhos. O xamoĩ kuery, conhecido pelos não indígenas como pajé,  é uma pessoa importante para nós, por seu dom sagrado de curar os doentes. É grandemente respeitado nas comunidades, porque conhece muitas coisas e sempre, durante os rituais, dá conselhos a todos, principalmente às crianças. Por isso, eu sempre digo que precisamos educar as crianças enquanto são novas, porque elas aprendem melhor a valorizar e amar a Mãe- Terra. Ensinar esse valor a alguém depois de adulto, eu sei o quanto é difícil.
No passado, os brancos pensavam que os povos indígenas não tivessem nenhuma crença religiosa, mas nós a temos, sim. É por isso que nossa cultura ensina a valorizar tudo o que faz parte da natureza e da Mãe-Terra, pois é ela que mantém a vida de todos. É isso que ensinamos às nossas crianças. Desde cedo elas aprendem que o rio e o mar são moradias de Piragui, personagem conhecida na cultura brasileira como sereia;  de Jaxy Jaterê, o protetor dos animais; de Ba'y, a ave sagrada protetora de todas as aves; de Jaxy, a lua e de Kuaray, o sol. Em todos os cantos da natureza existe um protetor, que as crianças aprendem a respeitar, elas sabem que cuidar do rio é não jogar sujeira nele, porque ali vive Piragui e outros seres benfeitores. Assim as crianças vão crescendo, valorizando, cada vez mais, tudo o que Nhanderu criou e entendendo que a nossa missão é não destruir a natureza.

Visão ao longe
Nós temos televisão nas aldeias e vemos as florestas sendo destruídas e os rios mortos pela ação das pessoas. Nossas crianças assistem a tudo isso e nós aproveitamos para mostrar a elas que não podemos fazer a mesma coisa. Sei que muitos acham engraçado quando nos ouvem dizer que a terra é nossa mãe, mas reafirmo que é, porque é ela que nos acolhe. Já pensou em tudo o que ela faz por nós? Sem ela não teríamos vida, e por isso é tão importante ensinar nossas crianças a amar tudo o que faz parte da vida, desde um rio ou uma árvore, porque tudo o que existe tem vida. E, se quisermos que a terra nos dê uma vida boa, temos que seguir esse caminho, não destruindo o que faz parte da natureza. Sempre ensinamos que a floresta é o nosso grande bem, às crianças, e só usamos o necessário, sem destruir nada no solo ou nos rios.
Quando ando por São Paulo e vejo os rios Tiête e Pinheiros, olho para eles com tristeza, porque estão mortos. Neles, não se pode nadar nem beber água. Mas todos sabem que eles já foram belos rios, onde tudo se fazia, desde nadar, pescar e até beber, mas agora nada disso é possível, porque os seres humanos os destruíram.


Esperanças
Se todos tivessem tomado os cuidados necessários, nada de negativo teria acontecido, mas uma coisa eu digo, ainda há tempo, basta educar as crianças e os adultos para verem que o rio é importante para nós todos e para os outros seres vivos. Aliás, a água é nosso bem maior, as pessoas acreditam que nada de ruim vai acontecer, mas pode acontecer, sim. São Paulo, por exemplo, passa por uma grande falta d’água, e isso é uma reação da mãe-natureza, que está sempre em movimento.
Acredito que uma das melhores coisas que podemos ensinar as crianças o quanto é importante plantar uma árvore, porque ela só nos fará bem. Por isso, ame a Mãe-Terra, que você estará cumprindo uma grande missão! É como se estivesse praticando uma religião. Uma das coisas que Deus mais ama é ver-nos cuidar do que ele criou. Quem destrói o que Deus fez não está sendo religioso na prática, nem sequer está amando a Deus.
* Olívio Jekupé
Formado em Filosofia, professor, escritor e palestrante, morador da aldeia Guarani Krukutu, é presidente da Associação Guarani Nhe´e Porã e membro da Associação de Escritores e Artistas Indígenas (Assearin). É autor dos seguintes livros: Arandu Ymanguaré,  Editora Evoluir; Xerekó Arandu - A morte de Kretã e Iarandu, o cão falante, ambos da Editora Peirópolis; Ajuda do Saci, Editora DCL; Tekoa conhecendo uma aldeia indígena, Editora Global; Literatura escrita pelos povos indígenas. Editora Scortecci; A mulher que virou urutau, Editora Panda Books; A queixada e outros contos guaranis, Editora FTD; Tupã Mirim, o pequeno guerreiro, Editora Leya; O Batismo guarani, A volta do Tukã e 500 anos de angústia, publicações independentes; e, finalmente, Indiografie, Editora Costa & Nolan de Milão, Itália.


Visite a aldeia Krukutu
Muitos acham engraçado quando ouvem dizer que vivem índios em São Paulo, por isso esperamos que, através desta matéria, muitos venham conhecer nossa aldeia. 
Nós recebemos escolas ou turistas e cobramos uma pequena taxa por pessoa. Levamos os visitantes ao Centro de Educação e Cultura Indígena (Cecil Krukutu), onde assistem a uma palestra sobre a cultura guarani e os problemas sociais dos povos indígenas. Depois os monitores da aldeia acompanham a turma até a floresta e, na volta, todos passam pela lojinha de livros e artesanatos de autores guaranis. A visita termina com cânticos apresentados pelo coral guarani.
Contatos:
cecilkrukutu.blogspot.com.br
oliviojekupe@yahoo.com.br



Fonte: Dialogo 77, Fevereiro/Abril de 20145
Postado por: Diálogo




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