Alimento do céu

Data de publicação: 05/09/2018

Alimento do céu

Não existem festa ou momento especial da vida que pareçam impróprios para se presentear alguém com bombons. O chocolate, com sua sensação prazerosa, atinge o paladar e o olfato, invade áreas emocionais e simbólicas e conduz a pessoa a um bem-estar, de certo modo, inexplicável. Não é sem motivo que a botânica atribui ao cacaueiro o nome Theobroma, em grego, alimento dos deuses! Mitos dos povos maias, olmecas e astecas atribuem a origem do cacau à benevolência dos deuses do bem, que o transplantaram dos jardins celestes para a terra. 

Histórias sagradas
Deuses, seres humanos, animais e plantas encontram-se e influenciam os destinos uns dos outros, nos relatos de origem das civilizações pré-coloniais latino-americanas. Identificada pela antiga língua náhuatl como kakáwa – amarga –, a amêndoa produzida pela árvore Theobroma cacao, cercada de ritos e segredos religiosos, é originária da região de Chiapas, ao sul do México e oeste da Guatemala, na costa do Oceano Pacífico. Era consumida há 4 mil anos, pelos mokaias, ancestrais dos maias, e há 2.500 anos pelos olmecas, predecessores dos Astecas.
O xocoatl (do náhuatl xocotl, fruto e atl, água), em forma de suco forte, acentuado com pimenta, era proibido ao povo e disponível ao rei, aos nobres e aos sacerdotes, que o utilizavam em cerimônias religiosas. De acordo com a mitologia maia, quem criou o mundo foi o deus U Qux Cah – o coração do céu. Compassiva e alegre, a divindade quis  brindar a criação com uma bebida especial e, para isso, criou o cacau. Todos os anos, os maias renovavam a memória do mito com oferendas de cacau.
Os astecas adaptaram o mito maia a Quetzalcóatl, deus do vento, transmissor do conhecimento, que ensinou aos humanos o cultivo do milho e do cacau. Vindo ao mundo ensinar a sabedoria, o deus teria trazido o cacau do jardim divino. Os outros deuses não o perdoaram, por isso ele foi banido para a terra, em forma de uma serpente. 

Do templo ao mosteiro
Segundo historiadores da colonização das Américas, em 1520, o rei asteca Montezuma pediu aos sacerdotes que fossem colher amêndoas frescas de cacau no jardim sagrado de Talzipetec e preparassem o xocoatl. Pronta a bebida, o reverente soberano a ofertou, em uma taça de ouro, ao conquistador espanhol Hernán Cortez, por imaginar que se tratasse do próprio deus Quetzalcóatl em aparência humana. 
Levado como presente dos chefes astecas ao rei Felipe II da Espanha, católico convicto, o xocoatl foi entregue por ele aos monges espanhóis. Deve-se aos mosteiros a iniciativa de acrescentar mel ou açúcar à bebida de cacau, que os monges passaram a usar como energético nos períodos de jejum, quando não consumiam alimentos sólidos. Da Espanha, a famosa bebida do Novo Mundo imigrou para outros mosteiros da Europa e originou a produção artesanal, ainda praticada, a exemplo das famosas barras de chocolate artesanais dos monges trapistas italianos. 
Em 1657, pequenas barras de manteiga de cacau, próprias para a preparação de chá, foram postas à venda pela primeira vez, ao lado do café, em uma loja de Londres. Porém só no século 19, na Suíça, alguém teve a grande ideia de substituir a água por leite, o que deixou a bebida irresistivelmente cremosa. Foi o passo que faltava para o chocolate sólido, obtido com a adição de leite em pó, por iniciativa de Henri Nestlé, um químico alemão radicado na Suíça. A esta altura, o chocolate já havia perdido, na Europa, a aura de bebida sagrada, se popularizando nas mesas das famílias. 

Inspiração literária
A floresta tropical do norte do Brasil pré-colonial foi habitat de cacaueiros centenários de mais de 10 metros de altura, originários das mudas mais tarde transplantadas para o leste do território. A nova cultura se aclimatou bem nas praias do oceano Atlântico e fez do estado da Bahia um dos maiores produtores mundiais do “alimento dos deuses”. Grandes escritores encontraram na cultura e na população da região cacaueira uma nascente exuberante de inspiração. Os livros de Adonias Filho, Servos da morte, Memórias de Lázaro e Corpo vivo; de Jorge Amado Cacau, Terras do sem fim e São Jorge dos Ilheus; e de Hélio Pólvora – Galos da aurora e A mulher na janela, são expoentes da literatura brasileira reveladora dos dramas, sofrimentos, conquistas, frustrações, amores e sonhos dos brasileiros conterrâneos da sagrada Theobroma cacao.

Pontos para debate
• O que o chocolate simboliza, quando o damos ou recebemos em datas especiais?
• Existe relação entre o significado do chocolate e os valores ensinados pelas religiões?
• O cacau ainda pode ser chamado “alimento dos deuses”?
• Os povos maia e asteca não tinham direito de provar o “alimento dos deuses”, reservado só aos chefes e sacerdotes.
• Na sociedade atual, todas as pessoas têm direitos iguais?
• Que valores religiosos essa prática contradiz?       


 
 

   

Fonte: Dialogo 77, Fevereiro/Abril de 20145
Postado por: Diálogo




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