O ser humano frente ao sentido da morte

Data de publicação: 05/10/2018


Por,  Roseane do Socorro Gomes Barbosa *

Encontrar o sentido da vida é o que todo ser humano busca ao longo de sua existência, e paralelamente ao desejo de dar sentido a própria vida, também há a necessidade de significar a morte. Morrer é inerente à condição humana, contudo não é fácil encontrar respostas para muitas questões que emergem acerca da morte, tais como, porque o homem morre? A morte é o ponto final da vida? O que há depois da morte? Existirá vida ou não? Com a crescente banalização da violência, qual é o sentido da vida e da morte no mundo de hoje? Enfim, as perguntas podem ser infinitas e legítimas, porém não se deve ficar apenas no nível superficial das perguntas, é preciso descer até as raízes do por que buscar sentido para o viver e morrer.
Na tradição bíblica pouco a pouco o ser humano foi compreendendo que a sua existência tinha uma origem, uma razão de ser e caminhava para um fim último que era Deus. Em base a essa compreensão foi sedimentada a fé em Deus salvador e criador – no Primeiro Testamento –, que vence a morte concedendo a vida eterna ao ser humano, mensagem central do Segundo Testamento. É a partir da morte e ressurreição de Jesus que a vida e a morte do homem ganham sentido. Nessa perspectiva, morrer é ao mesmo tempo uma cisão e passagem para uma nova vida, não mais no plano material, pois a vida após a morte é transfigurada. É cisão porque a matéria limitada cessa a sua existência, mas é também passagem semelhante àquela que se dá no nascimento, pois ao nascer a pessoa não sabe que mundo o espera. O mesmo acontece na morte, que é um novo nascimento para uma realidade totalmente desconhecida na qual se irrompe por meio dessa passagem.
Ao longo da história do cristianismo, sobretudo na Idade Média, foi-se criando na mente das pessoas uma imagem muito negativa com relação ao juízo final, isto é, sobre todas as possíveis realidades que poderão acontecer após a morte. Imaginava-se que o céu estava reservado para aqueles que praticaram o bem durante a sua vida, enquanto os que só fizeram o mal já tinham o seu passaporte direto para o inferno. E aqueles que não eram bons nem maus poderiam aguardar a sua sentença no purgatório. Essa ideia de julgamento colocava a ênfase na conduta das pessoas e não na misericórdia de Deus. Aliás, a ideia que se passava era a de um Deus severo e vingador, com os mesmos critérios dos homens para julgar a humanidade.
Atualmente, a teologia escatológica, que trata das realidades últimas, não concebe o céu, o inferno e o purgatório como um lugar no qual o ser humano entrará após a morte, pois estas são realidades que já não pertencem mais ao plano material, mas dizem respeito à esfera imaterial ou espiritual. Nesse sentido, o teólogo Leonardo Boff define o céu como a convergência de todas as pulsações humanas, enquanto que o inferno é a absoluta frustração que nasce da liberdade do próprio homem. E o purgatório é um processo purificador e doloroso, que Deus concede ao homem, a fim de poder e dever na morte amadurecer. Em outras palavras, as realidades últimas que o cristão espera encontrar no final de sua vida já são vividas e experimentadas ao longo de sua existência, embora de forma limitada e imperfeita, deixam entrever aquilo que se realizará no fim dos tempos com toda a sua plenitude.

Deus é o Senhor da vida e da morte
Durante um longo período, à luz do relato da criação, em Gênesis, a morte na tradição cristã foi interpretada como uma consequência do pecado. Entretanto, com o avanço dos estudos da Teologia, sobretudo da Antropologia Teológica, a morte biológica não é compreendida como um castigo por causa da desobediência cometida pelo homem, pois, mesmo se não houvesse pecado o ser humano não viveria indefinitivamente, uma vez que pela própria natureza finita a morte é uma condição inerente à sua existência. A morte a qual o texto bíblico se refere é a morte espiritual, isto é, a não relação com Deus. Grosso modo se pode dizer que a questão de fundo é o não acesso do ser humano à eternidade por si mesmo, ou seja, o acesso do ser humano à dimensão do eterno baseia-se numa relação de dependência e não de autosuficiência. Relação esta que não se restringe somente a Deus e ao homem – intimista –, mas inclui a relação do homem consigo mesmo, com os outros seres, e também com o mundo – corresponsabilidade. Ninguém vive de forma isolada no mundo, e, por mais que afirme a sua autonomia refe-rente a Deus – ateísmo – ou frente ao outro – individualismo –, não poderá negar que a sua existência é situada e condicionada por diferentes fatores sociais, ambientais, religiosos, políticos e econômicos.
Outro importante aspecto que vem da Teologia Moral aponta para a questão do valor da vida, o bem maior que o ser humano recebeu de Deus. O homem não é o senhor da vida e da morte, pois este é um direito que pertence unicamente a Deus. Todavia, com muita frequência se vê o homem servindo-se desse direito, e determinando quem vai nascer – aborto – ou quem vai morrer – pena de morte, assassínios, exclusão social entre outros. A vida recebida ao nascer não é uma propriedade que o homem pode dispor como bem entender, muito pelo contrário, ele deve se responsabilizar por ela, uma vez que a sua existência não é fruto do acaso e tem uma razão de ser. A grande angústia humana en-contra-se justamente na busca pelo sentido de sua existência, pois deste também dependerá o sentido da morte.

A morte não é um grande silêncio
A sociedade hodierna encara com naturalidade a morte de uma pessoa idosa, pois esta é considerada como finalização do processo biológico, ou seja, no ciclo natural da vida todos devem nascer, crescer, se reproduzir, envelhecer e morrer. Contudo, nem todos os seres humanos seguem esse percurso da lei natural, por vários motivos a vida pode ser interrompida a qualquer momento, pois a morte não é uma condição exclusiva da velhice. É aqui que se encontra o nó da questão, pois diante da morte súbita ou mesmo de uma doença, seja de uma criança, seja de um jovem, para a maioria das pessoas é sempre motivo de não aceitação, de sofrimento, de inconformidade e até de “revolta” contra Deus, pois se acredita que isso é uma injustiça de sua parte. Então, surgem algumas perguntas, por acaso o ser humano pode determinar a quantidade de tempo que alguém deve viver? Em base a quais critérios se pode determinar a vida ou a morte? A idade, as boas condições financeiras para manter uma vida saudável seriam esses critérios determinantes? A própria vida nos mostra que, provavelmente, nenhum desses critérios poderá garantir longevidade ou mesmo impedir uma morte antes da velhice.

Para a tradição cristã, a morte não é o ponto final, e também não é uma pergunta sem resposta. Uma vez que Jesus Cristo venceu a morte com a sua ressurreição, Ele ressignificou uma realidade conatural ao ser humano. Desse modo, morrer não é entrar num vazio, e sim participar da comunhão trinitária que é o princípio e o fim de todo o gênero humano. Como afirma o médico biotanatólogo Evaldo D’Assumpção “a morte é o grande momento de nossa vida, por mais que abominemos essa ideia. Na morte completamos a vida. Não existe viagem sem chegada. Não existe curso sem formatura. Não existe caminho sem destino. Não existe vida sem morte”. Contudo, a morte não é o fim, e sim o começo de uma nova vida, redimida e plenificada por Deus.

* Roseane do Socorro Gomes Barbosa
É mestranda em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Pau-lo e teóloga.

Referências bibliográficas
BOFF. Leonardo. Vida para além da morte. 23ª Ed. Petrópolis: Editora Vozes. 2008.
D’ASSUMPÇÃO. Evaldo A. (org.) Biotanatologia e bioética. São Paulo: Paulinas 2005.
LACOSTE. Jean-Yves. Dicionário crítico de Teologia. São Paulo: Paulinas e Loyola. 2004.
MIRANDA. Mario de França. A salvação de Jesus Cristo. A doutrina da graça. São Paulo: Loyola. 2004.
RUBIO. Alfonso García. Unidade na pluralidade. O ser humano à luz da fé e da reflexão cristãs. 3ª Ed. São Paulo: Paulus. 2001.

Fonte: Diálogo 62, Maio/Julho 2011
Postado por: Diálogo




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