Cashrut – A dieta alimentar judaica

Data de publicação: 05/10/2018



Por, Michel Schlesinger *

A maioria das normas alimentares judaicas tem origem bíblica e não veio acompanhada de explicação alguma. São desconhecidos os motivos que levam um alimento ser permitido e o outro proibido, de modo que não se sabe por que determinado critério foi adotado e outro não. A ausência de uma justificativa para as regras da cashrut (da dieta alimentar judaica) traz um desafio e também uma oportunidade. É desafiador seguir um conjunto de normas que não se compreende, de modo que cumprir as leis dietéticas judaicas pode se tornar um grande obstáculo para a pessoa que sente a necessidade de se identificar com um sistema aparentemente irracional. Ao mesmo tempo, em função dessa ausência de sentido, mulheres e homens judeus de todas as gerações tiveram a oportunidade de criar diferentes interpretações para as regras alimentares judaicas, cujas categorias são: explicações sanitárias e médicas, motivos sociológicos, razões de cunho religioso e abordagens contemporâneas.

Explicações sanitárias e médicas
Uma das abordagens encontradas para justificar as normas da cashrut é a que leva em conta as questões sanitárias e médicas. Dessa maneira, o ato de lavar as mãos antes das refeições, sobretudo aquelas que incluem o pão, é antes de tudo uma questão de higiene. Seja porque Deus, querendo cuidar do seu povo, ordenou que lavassem as mãos, ou porque as pessoas observaram que a lavagem das mãos evita a contaminação. O mesmo pode ser afirmado em relação aos alimentos proibidos. Por essa teoria, a ingestão da carne de porco e dos frutos do mar não seria permitida porque tais animais transmitem mais doenças do que os outros. A carne de porco é extremamente gordurosa e, se não for bem cozida, pode trazer diversas enfermidades. O mesmo ocorre com os frutos do mar, nos quais são encontrados muitas vezes detritos do fundo dos oceanos em seu interior. Finalmente a proibição da mistura de carne com leite também seria justificada como uma combinação de difícil digestão.
Uma leitura religiosa clássica pode ser harmonizada com esta abordagem a partir da visão de que Deus estabeleceu normas para que seu povo viva mais saudável. Por outro lado, aqueles que preferirem uma visão mais científica do processo de estabelecimento dessas normas poderão acreditar que elas foram fixadas com base na observação empírica. Assim, os alimentos que causavam mais enfermidades foram excluídos e métodos de assepsia passaram a ser estabelecidos fundamentados na experiência humana. Misturas que causavam mal-estar foram substituídas por aquelas que permitiam uma sensação prazerosa depois das refeições.

Motivos sociológicos
O abandono das raízes judaicas e a incorporação de práticas alheias ao judaísmo são uma preocupação que acompanha os judeus desde seus primórdios até os dias atuais. Em todas as épocas, a liderança religiosa judaica temeu a aculturação das comunidades judaicas. Diante deste desafio, as normas de cashrut podem ser lidas como uma importante ferramenta de reforço da identidade judaica e mecanismo de controle das relações sociais dos judeus.
Os encontros sociais acontecem, geralmente, em torno de uma mesa. Pessoas que comem e bebem juntas, também fazem negócios, namoram e se casam. As normas alimentares judaicas, sob esta perspectiva, seriam uma ferramenta de controle social poderosa. Uma vez que judeus somente comeriam e beberiam com outros judeus, a endogamia estaria garantida e seria afastado o temor dos casamentos mistos. O judeu observante somente encontraria o alimento apropriado em restaurantes casher – que obedecem à lei judaica – ou em casas de pessoas que seguem as normas da cashrut. Dessa maneira, o acervo de contatos de famílias judaicas estaria restrito a outras famílias judaicas e a continuidade do judaísmo, salvaguardada.

Motivos religiosos
O judaísmo ultraortodoxo seguirá as leis alimentares judaicas porque Deus mandou, pois o questionamento das leis não é incentivado e a presença das normas nas fontes judaicas clássicas, a Torá, ou Pentateuco – os cinco primeiros livros da Bíblia, considerados os mais sagrados do judaísmo –, o Talmud – compilação do século 7º das interpretações e discussões orais inspiradas na Torá –, e o Shulchán Aruch – o mais importante código de leis do judaísmo, escrito pelo rabino Iossef Caro, em Safed, no século 16 –, são suficientes para determinarem o cumprimento dessas normas sem maiores indagações.
Religiosos mais modernos também encontrarão motivos teológicos para o cumprimento da cashrut. As regras dietéticas judaicas permitem a transformação do ato de comer em um ritual de agradecimento e louvor a Deus. Quando se come de tudo a qualquer momento, segue-se somente os instintos animais, porém quando se utiliza a capacidade de raciocinar antes de ingerir o alimento, tem-se a oportunidade de transformar as mesas em altares.
Muitas pessoas não comem determinados alimentos por ideologia, como no caso dos vegetarianos. Outros precisam seguir normas rígidas por motivos de saúde, como colesterol alto ou diabetes. No judaísmo, ao se utilizar a antiga tradição do povo judeu para determinar aquilo que se come, conecta-se a uma corrente milenar. Então se dá continuidade ao legado sagrado das gerações anteriores, sendo um elo coerente e legítimo desta corrente. E a alimentação transforma-se em um ato sagrado.
Desde a lavagem das mãos antes das refeições, as bênçãos que são ditas antes e depois de comer e a escolha dos alimentos fazem, em conjunto, parte de um ritual sagrado. Na tradição judaica, comer não é apenas uma necessidade, pois uma carência física se transforma em oportunidade para reconhecer Deus como fonte de tudo o que se tem. Por isso, refletir sobre as pessoas que não têm a bênção de se alimentar sempre que necessitam e buscar nossa responsabilidade no que parece ser o mais urgente desafio da humanidade.

Contemporaneidade da Cashrut
Nos Estados Unidos, e também em outros lugares, crescem os movimentos que aliam as normas alimentares judaicas com os valores da sociedade contemporânea, como a responsabilidade socioambiental. O movimento da Eco-Cashrut, por exemplo, exige não apenas que as regras dietéticas judaicas sejam cumpridas, mas também demanda requisitos de sustentabilidade. Assim um alimento pode seguir todas as normas judaicas clássicas, mas ainda será proibido se não forem cumpridas as exigências ambientais, como uso racionado de água e ausência de agrotóxicos; e requisitos sociais, como o registro e pagamento digno dos funcionários e impostos. Pessoas que optaram pela observância da cashrut podem ter escolhido um ou mais dos motivos aqui já relacionados. E, finalmente, podem ter criado sua própria abordagem. 

Uma abordagem pessoal
Acredito que existe um meio termo saudável entre uma cashrut, que isola a pessoa de tudo e de todos, e a opção por uma dieta judaica que leva em conta outros valores não menos importantes. Quando estou com minha família em casa, mantemos uma cozinha com um alto nível de cuidado com a cashrut. Temos louças e talheres distintos para carne e leite, além dos jogos de Pessach – a Páscoa judaica, que comemora a saída dos israelitas do Egito e possui normas alimentares ainda mais estritas do que em outras épocas do ano. Temos panelas, pias e fornos separados, no entanto, uma abordagem pluralista do judaísmo me convida a enxergar outros valores importantes.
Em minha concepção teológica, os extremos são igualmente perigosos. Assim como condeno o abandono completo das nossas tradições, desaprovo o cumprimento extremista das normas judaicas. Sempre que contemplamos uma lei de forma inflexível, estamos deixando de apreciar valores que são, no mínimo, igualmente relevantes. Penso que as pessoas devem estudar e tomar suas próprias decisões. A vida em sociedade exige a capacidade de aceitar as diferentes decisões de distintas pessoas. Se puder pensar que a minha prática é boa para mim, também conseguirei ser flexível e viver uma experiência distinta fora dos limites da minha casa. Para vivermos em paz, precisamos amar não somente a nossa verdade, mas também as verdades alheias.

* Michel Schlesinger
É rabino da CIP (Confederação Israelita Paulista), desde 2005, e mestre em Talmud e Halachá pelo Seminário Rabínico Schechter, em Jerusalém.

Fonte: Diálogo 63 – Agosto/Setembro – 2011
Postado por: Diálogo




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