Mãos abertas uns para os outros

Data de publicação: 05/10/2018


Por, Bartomeu Melià *

Quem vive em uma aldeia indígena das selvas tropicais de nossa América, mesmo que seja apenas por alguns dias, algo que chama a atenção é o modo como os indígenas administram o que têm, isto é, o seu sistema econômico. Tive a sorte de poder conviver, não de modo contínuo é verdade, mas por algum tempo, com os índios Guarani da Argentina, da Bolívia, do Paraguai e do Brasil. Neste último país, tive contato com vários povos da Amazônia Legal, entre eles os Rikbaktsa, os Iranxe, os Mynkỹ, os Kayabí, os Nambikuára, os Paressí, e, sobretudo, com os Enawené nawé. Em todos eles predominava em seu modo de ser a economia de reciprocidade, por meio da qual eles se definem e para ela trabalham e vivem.
Os Guarani resumem esse tipo de economia em uma palavra extraordinária: jopói, que em sua etimologia se compõe de três elementos: jo – partícula de reciprocidade; pó – mão; i – abrir; literalmente se pode dizer: “mãos abertas um para o outro”, mutuamente. O jesuíta Antonio Ruiz de Montoya (1585-1652), em 1639 publicou o primeiro dicionário da língua guarani chamado o Tesoro de la lengua guarani,  no qual afirmava que se tu “desnudas as coisas em si, as dá vestidas de sua natureza”. Por detrás do termo jopói há muita vida e muita história, pois ele define um modo de estar no mundo e numa cultura, na qual a distribuição, bem como a troca de bens se faz, não só de maneira justa, mas, também, digna, livre e alegre. Certamente, se é mais feliz dando que recebendo. Convidar e dar de comer e de beber ao convidado é o centro da festa guarani.
Dado que somos escravos de um sistema mental, baseado numa economia mercantil, onde o acúmulo possessivo nos marca profundamente, a economia é concebida como um processo cujo primeiro passo é a produção, depois o intercâmbio e, por fim, a distribuição, que em princípio deveria ser equitativa, mas, infelizmente, é tão desigual – muitas de nossas economias hoje são fábricas de pobres. Ora, nas economias de reciprocidade que conheço não se começa pela produção, e sim pela festa, pela distribuição festiva do que se tem como dom gratuito. Produz-se para dar, e porque se dá se produz de novo, a fim de que o círculo de reciprocidade não se quebre. Um dom chama outro dom, ainda que não se esteja obrigado a ele. Na realidade, o verdadeiro pobre não é quem não tem nada para si, mas quem não tem nada para dar.
O caráter religioso dessa festa é tão forte que a reciprocidade de bens, de comida e de bebida está unida e até se confunde com a reciprocidade das palavras dos que vêm à festa. “Os de cima” como donos das boas e belas palavras, inspiram-nas aos “profetas e cantores”, que não ficam com elas para si, mas as devolvem à comunidade que as faz suas e com elas dialoga; nessa dinâmica também há um convite e um jopói de palavras que nos alegram e unem. A reciprocidade é uma comunicação não só de coisas, mas de palavras, cantos, relações pessoais. O jo da reciprocidade está presente nos verbos mais característicos da comunidade, de modo que se pode dizer: conversamos uns com os outros, nos convidamos, nos amamos mutuamente. As frases que Antonio Montoya coloca em seu Tesoro são reveladoras: orojopói, damo-nos coisas e nos convidamos para comer; chepóitaguera amboja’o, reparti o que me deram. É a própria expressão da liberalidade: ojopói katu chéve, é liberal comigo. Ao contrário disso, a mesquinharia é o medo de receber, porque não se quer dar.

Trabalhar para poder dar
O processo de trabalho e de produção está presente no povo Guarani, não só como uma condição, mas essencialmente como algo que determina a reproduzir o dom, ou seja, ele tem na reciprocidade, no seu jopói, a razão prática econômica. Desse modo, o convite e a festa, ou “convite festivo”, é o primeiro e o último “produto” dessa economia. Sem reciprocidade não se entende o trabalho guarani, seja ele coletivo ou individual. Assim, potirõ, pepy, jopói são três palavras substanciais da economia guarani, que significam mãos juntas no trabalho, convite e dom. Essas palavras fazem parte de um mesmo movimento no qual o modo de ser guarani se faz ideal e formalmente, mas não de um modo abstrato, e sim no concreto da produção das condições materiais de sua existência, que nunca são de mera subsistência. A etnografia atual do potirõ e do pepy tal como se dá em sociedades guaranis contemporâneas e em sociedades rurais paraguaias e brasileiras, por exemplo, vem confirmar e reviver que as formas de trabalho guarani não morreram.
Antonio Montoya resgata, com importantes detalhes, a palavra que significa esta forma de trabalho cooperativo: potirõ, pôr mãos à obra. Derivado de po, sua etimologia seria “todas as mãos”. A contextualização dessa palavra abre perspectivas sobre aspectos importantes de etnografia econômica guarani: ambopotirõ mbya avati rára ri: faço que todos venham colher milho; ambopotirõ mbya cheygára ri, faço que todos trabalhem em minha canoa; apotirõche róga ri, todos trabalham em minha casa. Alguns fatos registrados nas crônicas jesuíticas aludem diretamente à relação entre trabalho em comum e convite à festa: “Vindo de alguma caça ou pesca e na época de lavrar suas chácaras todos se juntavam para beber e embriagar-se e acabando o vinho de uma casa passam para outra, vestidos com suas plumagens, pinturas e adornos”.
A palavra potirõ conservou-se no Brasil sob a forma de mutirão ou puchirão, para significar o trabalho comunitário. Trata-se de uma tarefa realizada em comum, na qual quem convida oferece bebida e comida em ambiente de festa. No Paraguai essa atividade se dá com o nome quéchua de minga, no entanto o significado é o mesmo.  O trabalho, em última análise, é uma forma de reproduzir o dom e o dom é história social, memória e futuro. Em termos mais teóricos, como afirmava o pesquisador francês, Dominique Temple, no livro El don la venganza y otras formas de economía guaraní: “A reciprocidade simétrica institui a natureza do trabalho em outra dimensão, já que a definição do homem não é redutível aqui ao biológico. Essa dimensão é a do homem total, compreendido aquilo que o especifica, ou seja, sua natureza espiritual”.

A arte como trabalho
Nessas condições, o trabalho se torna brinquedo e se faz arte. Na sociedade guarani, assim como em outras sociedades indígenas que conheci, a arte de trabalhar e a arte de viver se juntam a partir da infância, ou seja, brincam de trabalhar, para, no final, trabalhar brincando. Quando os indígenas trabalham juntos o fazem com alegria, pois de fato, executam uma arte, como captou Dominique Temple: “Esta dimensão estética se coloca, desde sua origem, como essência do trabalho humano enquanto referido a outro e, em consequência, como trabalho social. Nas sociedades de reciprocidade simétrica, o trabalho é, pois, arte... A reciprocidade simétrica produz as condições do trabalho humano especificamente humano, como trabalho social onde se engendra o próprio ser da humanidade, como arte, arte de viver, como estética do ser, como ética, por fim”. Com palavras dos próprios Guarani, esta forma de trabalho é, no final das contas, tão humana, porque é “divina”: tupã reko, um modo de ser, um costume, um hábito, um sistema próprio de Deus.

* Bartomeu Melià
Sacerdote Jesuíta que acompanhou diversas comunidades guaranis do Paraguai, Brasil, Bolívia e Argentina. Atualmente dedica-se à pesquisa etnohistórica e etnolinguística.

Fonte: Diálogo 63 – Agosto/Setembro – 2011
Postado por: Diálogo




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