Práticas alimentares indígenas em ritos fúnebres

Data de publicação: 05/10/2018



Ely Ribeiro de Souza *

Na cultura indígena é necessário diferenciar a relação que os índios estabelecem com o território, a floresta e os animais, classificados no interior de uma visão geral de mundo. A caça e a coleta não seguem critérios imediatos e práticos, como poderiam supor aqueles que consideram que os índios vivem numa constante luta pela sobrevivência. Nem todos os animais podem ser caçados ou ingeridos por todas as pessoas e cada povo indígena estabelece seus critérios alimentares, que podem ser ainda diferentes para cada família ou para diferentes momentos da vida das pessoas. Essas atividades também não visam simplesmente o acúmulo de riquezas.
Os índios, em suas diferentes versões cosmológicas, não se consideram como senhores do universo, a quem todas as outras espécies devem servir. As visões indígenas de mundo geralmente colocam os humanos em relações de troca com outros seres sobrenaturais, como aqueles relacionados às diversas espécies animais, plantas e fontes de água. Certas ervas, árvores, animais ou aves, aos quais os índios atribuem poderes sobrenaturais, são manipulados exclusivamente pelos pajés. Consideram que todo o equilíbrio do cosmos depende dessa troca recíproca e adequada entre os homens, os seres da natureza e os seres sobrenaturais. Não podemos estender essas noções a todos os grupos indígenas, mas de maneira muito geral se atribuem a esses seres sobrenaturais a capacidade de lhes provocar doenças através de feitiços. Consequentemente, uma caçada exagerada de animais poderia desencadear uma mortandade desmedida de humanos. A ideia é que quaisquer transgressão, exagero, quebra de limites podem descontrolar ou desequilibrar as forças do cosmos, causando catástrofes.
Foram diferentes as motivações dos povos indígenas que praticavam antropofagia (canibalismo) nos primeiros tempos da colonização europeia na América. O consumo de carne ou ossos humanos jamais serviu para matar a fome, e sim para dar sentido à vida, em razão de seu imenso valor simbólico. Para muitos povos indígenas, comer partes do corpo humano era uma forma de incorporar em si capacidades como a coragem ou o viver junto aos deuses após a morte. Era também um modo de evitar que o espírito do morto fizesse mal aos vivos. Essas práticas variavam entre os grupos indígenas, porém tinham em comum ser uma forma de expressão de determinada filosofia de vida que identificava no outro – sejam os inimigos, os mortos, os deuses, os estrangeiros e mesmo os não indígenas – fontes de conhecimento e de reconhecimento.

Ritos religiosos e povos indígenas
Cada povo estabelecia os critérios de quem consumia os mortos e os rituais associados a estes. Os Guayaki, povo das florestas do Paraguai, comiam a carne de seus mortos porque seu espírito se liberta após a morte, constituindo um perigo para os vivos, caso não fosse encaminhado à morada celeste dos imortais. Com a morte da pessoa, a alma quer entrar em outro corpo, o que poderia causar doença ou morte. Quando o corpo que a abrigava é dividido em pedaços e consumido por vários outros corpos, a alma perde seu referencial e vai para a morada celeste. Entre os Wari, habitantes de Rondônia, havia antigamente o costume de comer tanto os inimigos quanto os parentes. Todas as coisas do morto eram queimadas, inclusive sua casa, roça e lugares por onde costumava passar. Os parentes entravam em luto, cujo período dependia da proximidade com o morto, e não participavam de festas nem falavam muito. O fim do luto era marcado por uma caçada coletiva, em que as presas eram moqueadas, choradas e ingeridas como se fosse o morto, e todos comiam.
Para os Araweté, povo do Pará, os canibais estão acima, e não abaixo, da terra onde vivem os homens. As divindades Maï devoram as almas dos mortos recém-chegados ao céu, depois lavam seus restos mortais e as ressuscitam. Imortais e eternamente jovens, essas almas, convertidas em Maï, passam a viver num paraíso perfumado e abundante de bebida, música e prazeres carnais. Já entre os Yanomami, o canibalismo mortuário ainda ocorre em alguns grupos por meio da ingestão das cinzas dos mortos pelos parentes, geralmente misturada com pasta de banana ou outro vegetal. Para esses grupos, o corpo é onde ficam as lembranças dos vivos e a alma do morto, sendo preciso aniquilá-lo pelo fogo e pela devoração para evitar feitiçaria.




Os mitos e os ritos
As práticas rituais de ingestão de alimentos em rituais fúnebres, utilizadas por povos indígenas, têm um caráter eminentemente religioso e não antropofágico como foram compreendidas ao longo da história do Brasil. A religiosidade contida nestes atos é celebrada continuamente desde tempos imemoriais, ritualizada através da mediação dos pajés e da comunidade, que renova e atualiza a relação com o sagrado, com a memória e vida futura dos parentes adormecidos. Para os povos indígenas não existe distinção entre natural e sobrenatural, entre imaginário e real, entre animais e humanos. Não há preocupação histórica ou temporal: os velhos recontam os mitos e as histórias sagradas como testemunhas oculares por ter delas participado. Assim, as histórias dos antepassados e as práticas de seus ensinamentos, fazem o povo reviver os feitos primordiais, realizando encontros com suas origens e entidades espirituais, conseguindo, dessa forma, interpretar aquilo que acontece ao seu redor e dar significado à sua história e sentido a sua existência e suas lutas.

A comunidade e as forças do mundo invisível
Para os indígenas, as atividades do mundo invisível são tão naturais quanto as atividades do mundo visível. A religiosidade está integrada com os demais aspectos da vida social: política, economia, alianças, nascimentos, doenças, mortes, vinganças etc. O interesse imediato dos indígenas é para o mundo do Aquém. O aqui e o agora. O Além é uma imagem idealizada deste mundo, sem os desafios e os perigos que caracterizam a luta pela subsistência e sobrevivência do mundo do Aquém. No caso dos Yanomami, logo que uma pessoa morre são destruídos todos os seus pertences, sua plantação, seus animais de estimação. Uma vez que os ritos fúnebres são terminados e o pó de seus ossos consumido ou enterrado, não há mais deveres nem preocupações com quem morreu. Seu nome nunca mais será pronunciado em público: ele pertence aos moradores da maloca de cima – hutumus. Então, como os povos indígenas vivem em simbiose com árvores, animais e fenômenos atmosféricos, sua religião está integrada à economia, política e demais aspectos da cultura. Religião, política e economia têm que resolver problemas como fertilidade, saúde, profilaxia e cura, caça, pesca, sorte, segurança, sucesso etc.  Religião, política e economia explicam, sob diferentes ângulos, a vida e a morte, a saúde e a doença, as alianças e as vinganças, relacionando-se em diferentes níveis com as incertezas e as necessidades que enfrentam no dia a dia.
O que interessa aos povos indígenas é adquirir, através das práticas religiosas, o poder necessário para controlar os acontecimentos e passar bem neste mundo visível, à mercê de forças arbitrárias do mundo invisível. As práticas e rituais religiosos de se alimentar com parte de seus mortos, como fazem os Ware, os Araweté e os Yanomami, foram uma maneira de se relacionar com o mundo dos espíritos e lidar com as forças do mundo invisível, enfrentando os riscos, perigos, desafios e benefícios que delas provêm. Certamente em seus costumes ritualísticos, existe o sentido de religar, de reequilibrar as harmonias que foram quebradas pela morte do parente.

 Ely Ribeiro de Souza
Descendente do povo Macuxi, situados no estado de Roraima. Mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia, e pós-graduado em Gestão de Etnodesenvolvimento pela Universidade Federal do Amazonas.

Referências bibliográficas
GRUPIONI, Luis Donisete B. (org.). Índios no Brasil. São Paulo, Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, 1992.
CASTRO, Eduardo de. Araweté, o Povo do Ipixuna. São Paulo, Cedi (Centro Ecumênico de Documentação e Informação), 1992.
CLASTRES, Pierre. Canibais e antropófagos. Entrevista a Paulo Sotero In: revista Veja, 31 de janeiro de 1973.

Fonte: Diálogo 63 – Agosto/Setembro – 2011
Postado por: Diálogo




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