Educação multicultural e diálogo das religiões

Data de publicação: 05/10/2018


Por, Lidia Kadlubitski *
Sérgio Junqueira *


Diversidade cultural e multiculturalismo relacionam-se diretamente com a educação e a questão religiosa. Por meio da educação, a cultura é veiculada por instituições educadoras e apreendida pelas novas gerações. Dessa forma, as pessoas aprendem a ver culturas diferentes, e as julgam do seu ponto de vista, como expressa Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da sua pele, por sua origem ou, ainda, por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar” (URI, Iniciativa das Religiões Unidas). Por isso, é importante entender como a educação viabiliza o multiculturalismo e possibilita a diversidade cultural, criando um espaço democrático que dê lugar ao encontro e à convivência entre as culturas e as religiões.

Diversidade, multiculturalismo e cultura
O termo diversidade vem do latim diversitate e significa diferença  em oposição à homogeneidade. Na diversidade relacionam-se as diferenças culturais que existem entre os seres humanos e as formas como as sociedades se organizam e interagem com o ambiente. O multiculturalismo é o ideal possível de convívio harmonioso entre essa multiplicidade, mas precisa ser construído. Por isso, é importante entender o que é cultura.
Clifford Geertz (1926-2006), antropólogo da Universidade Princeton de Nova Jersey, Estados Unidos, diz que o multiculturalismo é como teias de significado  das vivências concretas dos sujeitos de uma determinada sociedade, e, por meio dela, estipulam-se regras, convencionam-se valores e significações que possibilitam a comunicação dos indivíduos e dos grupos. Cada cultura tem sua forma de conceber o mundo, de modo que não há lugar para discriminação, pois as culturas, por serem peculiares, não podem ser hierarquizadas.
A diversidade cultural no Brasil engloba os diversos grupos presentes em cada região. Isso se dá como um complexo de significados e sentidos que se entrecruzam na sociedade brasileira, através de costumes e práticas criadas pelas pessoas, considerando os povos originários – indígenas –, além dos imigrantes, principalmente os europeus, e ainda os africanos, para cá traficados à força. São grupos étnicos, que, com suas contribuições linguísticas e culturais, teceram a cultura brasileira. Além destes, também as minorias que, por muitos séculos, foram silenciadas e excluídas do sistema escolar homogêneo. Entre elas estão as classes sociais desfavorecidas e as pessoas com necessidades educacionais especiais, com diferentes opção sexual ou pertença religiosa, entre outras.
O estudo da diversidade cultural surgiu nos séculos 18 e 19 na Europa, no contexto de conquistas, tendo por base a ideia de que o homem branco e a cultura europeia são superiores e legitimando, assim, a dominação imperial da Europa sobre outros povos, como único modelo de visão de mundo. Nesse processo, a educação escolar difundiu e consolidou uma cultura ocidental eurocêntrica que se impôs e permanece cristalizada na sociedade, causando discriminação e conflitos étnicos e religiosos.
Segundo o antropólogo catalão José Marín, professor da Universidade de Genebra, na Suíça, a globalização econômica e cultural do capitalismo se impõe como modelo único de sociedade sendo veiculada pelos meios de comunicação de massa e por instituições escolares, continuando a exclusão da diversidade presente em nosso meio. Isso se constata pelo modo do vestir-se de forma padronizada, pela alimentação dos fast-foods – comidas rápidas – e pela língua predominante na rede mundial de computadores. E, nesse panorama, o multiculturalismo resiste a esta homogeneização cultural.

A diversidade religiosa na educação no Brasil
O marco das políticas públicas de inclusão da diversidade foi a Declaração Mundial sobre Educação para Todos, publicada pelas Nações Unidas em 1990, que destacou a responsabilidade da educação no respeito à herança cultural de determinada população. Nesse contexto, passou-se a discutir o tema no Brasil, o que se verifica pelos documentos oficiais, tais como a Constituição Brasileira de 1988, a Lei nº 9.394 de 1996, o Plano Nacional de Educação de 2001, a Conferência Nacional de Educação Brasileira de 2008 e 2010, as Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica de 2010, entre outros.
A religiosidade manifesta-se de múltiplas maneiras. Tem-se de um lado as diferentes religiões praticadas pela população e de outro, como parte do modo de ser de muitos indivíduos ainda que não professem uma religião. De acordo com Rosa Lydia Teixeira Corrêa, professora de História da Educação na Pontifícia Universidade Católica do Paraná, a religiosidade, por ser uma manifestação cultural de natureza imaterial, é um patrimônio, que precisa ser respeitado e preservado.
A instituição internacional URI (Iniciativa das Religiões Unidas) afirma que não haverá paz até que todos os grupos e comunidades reconheçam a diversidade de culturas e de religiões num espírito de respeito mútuo e de compreensão. E a educação possibilita a construção multicultural do espaço democrático para este encontro e convivência. Dessa forma, o Ensino Religioso, a partir da diversidade religiosa, contribui para uma escola democrática e inclusiva.

* Lidia Kadlubitski
Mestra em Educação, atua no Núcleo de Intercâmbio e Cooperação Internacional da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.
* Sérgio Junqueira
Pós-doutorado em Ciências da Religião, é professor no Centro de Teologia e Ciências Humanas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

Referência bibliográfica
BRASIL. UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) – Declaração Mundial sobre Educação para Todos e Plano de Ação para Satisfazer as Necessidades Básicas de Aprendizagem. Brasília: Unicef, 1991.
HOLANDA FERREIRA, Aurélio Buarque de. Aurélio século XXI: O dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
CORRÊA, Rosa Lydia Teixeira. Cultura e diversidade. Curitiba: Ibepex, 2008.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, pg. 15, 1989.
MARÍN, José. Globalización, diversidad cultural y practica educativa. Revista Diálogo Educacional, Curitiba: Champagnat. v. 4, nº 8, jan./abr. 2003, p. 11-32.
URI – Iniciativa das Religiões Unidas, de Curitiba.  Diversidade religiosa e direitos humanos. Curitiba: Gráfica da Assembléia Legislativa do Estado do Paraná.  2007.



Significados do multiculturalismo no Brasil

O culturalismo brasileiro segue a esteira dos filósofos Immanuel Kant (1724-1804), Max Weber (1864-1920), Max Scheler (1874-1928) e Edmund Russerl (1859-1938) e teve como primeiro divulgador o jurista sergipano Tobias Barreto de Meneses (1839-1889), professor de Filosofia da Faculdade de Direito de Recife (PE). Um dos principais expoentes desta reflexão atual é o jurista e filósofo Miguel Reale (1910-2006), para quem o direito subjetivo fundamental significa localizar o princípio da dignidade da pessoa em seu contexto social e cultural.  Autor de vasta obra científica, Reale publicou pela Editora Saraiva, em 1963, o livro Pluralismo e liberdade, onde expõe pilares da reflexão multicultural brasileira:
• O espírito humano como expressão de liberdade;
• O homem cósmico, ético e religioso, produtor de valores e concepções de cultura;
• A democracia em uma sociedade plural;
• A comunidade da alteridade.
A obra de Reale revela o pensamento neokantiano culturalista como fundamental para a valorização das pessoas em suas diferenças, em consonância com os direitos humanos e os valores universais. 

Multiculturalismo
Reflexão acerca dos elementos visíveis e objetivos da diversidade étnica, cultural, religiosa que compõe a identidade do povo brasileiro, sob a ótica dos direitos humanos que proclamam a dignidade fundamental da pessoa, acima das diferenças de cor, etnia, religião, cultura e outras.

Pluriculturalismo
Inclusão e convivência em todos os ambientes socioculturais, pautadas no reconhecimento dos indivíduos diferentes, em seus iguais direitos, dignidade e capacidade de produzir significados e padrões éticos para a sociedade.

Interculturalismo
Reconhecimento de valores humanos fundamentais comuns a mais de uma cultura. Ou, ainda, encontro de diferentes culturas com um objetivo comum favorável à dignidade e ao direito de todos; reciprocidade e dependência mútua entre as etnias em benefício de uma meta comum: a igualdade de direitos e oportunidades para todos os indivíduos na sociedade brasileira.
 
Transculturalismo
Homogeneização artificial e superficial de expressões e valores externos de uma cultura dominante que invisibilizam os sinais positivos da diversidade cultural e dificultam o resgate de suas potencialidades transformadoras da sociedade.

Fonte: Diálogo 61 – Fevereiro/Abril de 2011
Postado por: Diálogo




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