Multiculturalismo e diversidade religiosa na escola

Data de publicação: 29/10/2018


Multiculturalismo e diversidade religiosa na escola

Alexander Goulart *
Evilázio Teixeira *

O estilo atual, talvez seja usar a máxima carpe diem. Com o fim das utopias e a descrença no futuro, o melhor é viver o dia possível sem pensar no amanhã; cada um realiza a sua aventura individual, sem projetos ou vontades comuns, regidos por ideologias de firmes alicerces.  
A pós-modernidade, como condição de cultura, é movediça, inconstante. Temos dificuldade em normatizar o tempo em que vivemos e nos defrontamos com situações desconhecidas que se proliferam em meio a incertezas. É o tempo da fragilidade, da debilidade do sujeito, das grandes instituições e dos discursos fortes, como aqueles das tradições religiosas, da família e da escola.
Vivemos a ambivalência, do término da ilusão moderna da linearidade histórica, da crença no progresso, do fim da verdade universal. Segundo Zygmunt Bauman, teórico sobre a modernidade, é hora de transformar nossa contingência em destino, ou seja, fazermos o melhor possível. Nossa emancipação tem na diversidade sua esperança, e esta não reside na sobrevivência dos mais aptos, mas na pluralidade das culturas, dos modos de viver, de conceber o mundo e conviver. 
Sem uma verdade universal, como classificar? Como estruturar a sociedade? Daí decorre a situação de ambivalência: a impossibilidade de incluir e excluir num mesmo discurso. O ser humano, incapaz de classificar, transforma-se, a priori, no ser vale-tudo, envolto à fragmentação do sentido.
Para o filósofo italiano Gianni Vattimo, sem o horizonte do céu ou do inferno, resta-nos viver sem pretensões em meio a interpretações, em que o respeito ao outro pode ter na caridade, no amor, um horizonte. Trata-se da ética do habitar. Liberto do divino, ao ser humano caberá uma caminhada na qual o referencial deverá ser buscado em sua própria existência, ou seja, ele precisa construir-se. Enfrentar tal desafio implica em alteridade e desenvolvimento da capacidade de escuta, para então melhor compreender e ser compreendido.
Com a racionalidade objetiva em crise, surge o paradoxo contemporâneo: o retorno do mítico, do sagrado, do simbólico. Um novo caldeirão místico-religioso se forma, misturando fragmentos na tentativa de constituir um corpo estruturado. O sujeito enfraquecido, ao buscar seu lugar, acaba por descobrir suas próprias origens, tradição, de modo que a verdade se torna abertura, escuta.

Um mundo simbolicamente construído
Se concebermos o mundo social e o próprio conhecimento a partir do modo como o nomeamos, então o processo de nomeação não é mero reflexo de uma realidade exterior. Segundo o filósofo Michel Foucault, o sujeito é o efeito das práticas linguísticas e discursivas que o constroem como tal. Enquanto o crítico literário Roland Barthes, afirma que a cultura, como sistema geral de símbolos, influencia e atua em nossos valores. Ela reúne os fragmentos de conversas, leituras, vivências, ideias, conhecimentos adquiridos e representações de modo que vamos perdendo a noção da origem de tudo e vivemos como que repetindo citações textuais de outros, porém, sem saber que deveríamos “abrir aspas”.
Tal processo ocorre com os símbolos, signos que compõem a cultura. Para Santo Agostinho, o signo é uma coisa que faz com que outra coisa venha à mente. Charles Sanders Peirce, filósofo americano, dizia que o ser humano só conhece o mundo porque de alguma forma o representa por meio de signos, relações arbitrárias regidas por convenções que fazem mediação entre nós e os fenômenos. Nesse sentido, o símbolo está como que amparado por uma lei que o obriga a representar ideias, conceitos e objetos. 
Assim é o símbolo religioso: algo aparente que esconde uma falta; está no lugar de algo. Mediação que nos aproxima do intangível, gerando sentido, valor. Um símbolo pode ser um modo de professar uma crença e mesmo de rejeitá-la. Embora busque se aproximar da universalidade, o símbolo, como parte da linguagem, terá uma interpretação dependente das ideologias em jogo, do contexto, dos valores compartilhados, da legitimidade da convenção.
Para o sociólogo francês Pierre Félix Bourdieu, sociólogo francês, travamos conflitos para legitimar representações no campo simbólico, pela manutenção do poder em ditar quais são os valores válidos e que devem ser seguidos, os legitimados por determinadas significações que reproduzem a ordem estabelecida.
Contudo, na contemporaneidade, as legitimidades estão sob suspeita. Numa perspectiva multiculturalista, em que muitas culturas convivem, os processos de legitimação são frágeis. Uma primeira dificuldade é fazer a inclusão das minorias sem excluir as maiorias, ou seja, evitar a predominância cultural de um segmento, entendida como homogeneidade cultural. O que está em jogo é o reconhecimento do valor de cada cultura e seus modos de expressão.
No Brasil, a LDB (Lei de Diretrizes e Bases) assegura o respeito à diversidade cultural religiosa e veda o proselitismo. E a Constituição Federal garante a liberdade de consciência e crença. Nesse sentido, a escola deve promover o diálogo inter-religioso tendo como ponto de partida as manifestações simbólicas dos estudantes. O símbolo religioso refletido a partir da experiência do sagrado, acrescida à reflexão a mediação do professor no intuito de explicar o Fenômeno Religioso, possibilita a construção de novos significados, aprendizagens e atitudes diante do outro.

Novo modo de compreender a realidade
Um pensamento capaz de ler na multiplicidade das aparências alguma consistência é possível num horizonte em que conhecimento e experiência se dão ao interno de uma mediação linguístico-dialógica, em que coabitar significa reconhecer a dificuldade, a diferença, e ainda assim desejar manter a relação.
Sob essa ótica, o Ensino Religioso como componente curricular tem relevante papel ao nos ajudar a nos mover num emaranhado de discursos, problematizando cada manifestação religiosa, juntamente com sua simbologia, na singularidade e universalidade, e, ao mesmo tempo, cada experiência do sagrado como fragmento de uma totalidade inatingível.

* Alexander Goulart
Jornalista, especialista em Gestão Educacional e doutor em Comunicação Social.
 
* Evilázio Teixeira
É doutor e professor de Teologia e Filosofia.

BARTHES, Roland. O Rumor da Língua. São Paulo: Brasiliense, 1988
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Ambivalência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
BOURDIEU, Pierre. A Reprodução. Lisboa: Editorial Veja, 1978.
CORAZZA, Sandra. Na diversidade cultural, uma docência artística. In Patio, Revista Pedagógica. Ano V, n 17, maio/julho de 2001.
SANTAELLA, Lúcia. O que é semiótica? São Paulo: Brasiliense, 2002
TEIXEIRA, Evilázio Francisco Borges. A Fragilidade da Razão: pensiero debole e niilismo hermenêutico em Gianni Vattimo. Porto Alegre, Edipucrs, 2005.

Fonte: Diálogo 61 – Fevereiro/Abril de 2011
Postado por: Diálogo




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