Multiculturalidade na escola aprendente

Data de publicação: 31/10/2018



Por, Eliane Maura Littig Milhomem de Freitas *
 
No Brasil, a pluralidade cultural e religiosa é significativa. É imperioso que os indivíduos se percebam como brasileiros e iguais, embora mantenham suas diferenças. Porém, infelizmente, ainda há intolerância nas relações sociais. No entanto, no mundo moderno, torna-se necessária a “regra de ouro”, comum a quase todas as religiões: não façamos ao outro o que não queremos que seja feito a nós mesmos.
   
Escola: espaço de relações, interações e aprendizagem
Na era do conhecimento, a educação é um fator de inclusão social. O político francês Jacques Delors, citado pelos educadores Antonio Carlos da Costa e Isabel Lima, diz que “a educação surge como um trunfo indispensável da humanidade na construção dos ideais de paz, liberdade e justiça social”. A escola é um instrumento de justiça social, que pode oferecer a todos o conhecimento necessário para viver e atuar na sociedade. Contudo, além dos saberes, é preciso optar por qual rumo seguir, e tomar decisões fundamentadas, que tenham bons critérios para avaliar e decidir sobre a vida.
É preciso repensar a formação em valores, conforme o relatório da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura): “Educação, um tesouro a descobrir” – o qual considera quatro pilares da educação, visando a formar o jovem como ser integral, que aprende a ser, conviver, fazer e aprender.
Essa perspectiva atenta para o jovem autônomo, solidário e competente que necessita de temáticas desenvolvidas num processo educativo, tais como, sua identidade, sentido de família, valores – tanto os de origem social, como familiar, religioso e outros mais –, que o conduzam em sua formação como ser humano, prefigurado na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9.394, de 20 de dezembro de 1996, Brasília (DF).

Respeitar o diferente nos espaços histórico-culturais
Segundo os professores Antônio Moreira e Vera Maria Candau (2007), a pluralidade cultural se manifesta nos espaços sociais, principalmente na escola, traz conflitos e desafios para os educadores, do mesmo modo em que propicia o enriquecimento e a renovação da atuação pedagógica.
Nos estudos sobre teorias do currículo, Silva, explica que quando pensamos neste tema vem à mente apenas o conhecimento, ignorando-se que ele está vitalmente, ligado à nossa identidade. Assim, é preciso discutir de que forma a escola dialoga com a diversidade presente no espaço educativo.
Moreira e Candau alertam que o termo currículo é utilizado para indicar efeitos alcançados, sem constar nos planos e propósitos da comunidade escolar, por isso nem sempre é percebido. Para os autores, fazem parte do currículo oculto os rituais e práticas, relações hierárquicas, regras e procedimentos, a organização do espaço e do tempo escolar, a distribuição dos alunos por grupamentos e turmas, mensagens implícitas na fala dos professores e nos livros didáticos, entre outros. Segundo os autores, o currículo é o coração da escola nos diferentes níveis do processo educacional, e neste, o educador é fundamental, sendo o artífice na construção de currículos.
No âmbito educativo, o diálogo precisa perpassar os diferentes aspectos da vida. A ideia é que o aluno, embora diferente, sinta-se parte de um contexto cultural, respeitado e acolhido, usufruindo de prazeres e privilégios do contexto escolar.
As disciplinas podem pautar seu trabalho pedagógico nos princípios já citados. No entanto, o Ensino Religioso, atende melhor a essas exigências, pois, de acordo com Oliveira: “O Ensino Religioso é um componente curricular que visa discutir a diversidade e a complexidade do ser humano como pessoa aberta às diversas perspectivas do sagrado presentes nos tempos e espaços histórico-culturais”. Ela revela que saber respeitar o diferente e as diferenças, e com eles interagir, constitui-se um marco diferencial e único.
   
Encantar-se com o diferente numa sociedade aprendente

Conviver com o diferente possibilita a reeducação dos indivíduos que devem estar sempre mais abertos ao imperativo ético e à alteridade humana, possibilitados pela diversidade. Na convivência é preciso acolher as singularidades, pautar-se no respeito, na igualdade social e no exercício de prática e posturas democráticas.
O teólogo Hugo Assmann destaca que reencantar a educação significa vivenciar as implicações pedagógicas que tratam de um encontro do viver no plano biofísico até o das esferas societais. A educação deve aliar-se à criatividade, à ternura, à solidariedade humana. Ele destaca a convivência solidária, e afirma que o conhecimento virou assunto obrigatório, e educar é a mais avançada tarefa social emancipatória: “uma sociedade onde caibam todos só será possível num mundo no qual caibam muitos mundos”. E conclui que à educação cabe uma apaixonante tarefa, que é formar os seres humanos para os quais a criatividade e a ternura sejam necessidades vivenciais e elementos definidos dos sonhos de felicidade individual e social.
Embora não se refira diretamente às diferenças entre os seres humanos, Assmann trata da sociedade aprendente, que se mobiliza e busca novas perspectivas de vida e convivência. Assim, verifica-se que o diferente traz em sua subjetividade uma riqueza considerável, e estimula a compreensão, a interação entre os pares e ao reconhecimento do outro a partir do princípio da alteridade humana.
A escola pensada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional preconiza o amparo legal às diferenças presentes no contexto educativo, embora se deva proceder com todos de forma igualitária. Cabe à escola promover o cruzamento de saberes, permeando o conhecimento a partir do diálogo e das variedades de culturas, por meio de metodologias inovadoras que enriqueçam e encantem a vivência com o diferente, e com ele interagir.

* Eliane Maura Littig Milhomem de Freitas
Mestra em Educação e professora de Pedagogia na Faculdade São Geraldo, em Cariacica (ES). Membro do Coner (Conselho Estadual de Ensino Religioso) do Espírito Santo.

Referências bibliográfica
ASSMANN, Hugo. Reencantar a educação: rumo à sociedade aprendente. Petrópolis, RJ: Vozes, p 29 1988.
COSTA, Antonio Carlos Gomes da e LIMA, Isabel Maria Sampaio Oliveira. Programa cuidar: educação para valores com base na ética biofílica. Livro 1. Apoio Instituto Souza Cruz, p.46 Edição 2002.
GOMES, Nilma Lino. Indagações sobre currículo: diversidade e currículo. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2007.
MOREIRA, Antônio Flávio Barbosa e CANDAU, Vera Maria. Indagações sobre currículo: currículo, conhecimento e cultura. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria da Educação Básica, p.34 2007.
OLIVEIRA, Lilian Blanck de (et alli). Ensino Religioso: Fundamentos e métodos - (Coleção docência em formação. Série Ensino Fundamental). São Paulo: Cortez, p.34, 2007.
SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: Uma introdução às teorias de currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.

Fonte: Diálogo 61 – Fevereiro/Abril de 2011
Postado por: Diálogo




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