A espiritualidade indígena na discussão ambiental

Data de publicação: 07/11/2018


A espiritualidade indígena na discussão ambiental

Os temas referentes ao meio ambiente e às mudanças climáticas, debatidos nos grandes fóruns nacionais e internacionais, assumiram essa dimensão recentemente.  Um dos marcos desse processo foi a Conferência Mundial Eco-92, ocorrida no Rio de Janeiro (RJ) em 1992, por iniciativa da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento Sustentável. Na ocasião, os representantes indígenas montaram um acampamento que chamaram Carioca. Foi uma grande oportunidade de o mundo ouvir o que os indígenas tinham para falar. Havia um claro alerta de que o mundo passava por mudanças, o que, na forma indígena de expressar, se dizia simplesmente que Deus estava zangado pelo descuido com a mãe terra.
Nos últimos anos, os líderes indígenas do Brasil participam das discussões ambientais e contribuem com sua espiritualidade também em âmbito mundial. Um exemplo disso é o Fórum Permanente das Nações Unidas para as Questões Indígenas, que reúne representantes de todos os continentes. Também a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas (2007) e o Convênio 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), tratados internacionais que reconhecem os indígenas como povos diferenciados e merecedores de políticas específicas por parte dos Estados nacionais. O Brasil tem assinado esses acordos. 
A degradação ambiental é um problema já discutido historicamente pelos sábios indígenas, que conhecem as formas de viver em harmonia com a natureza. São conceitos básicos e de fácil compreensão que podem fazer toda a diferença na história futura da humanidade. O modelo de sociedade que visa o lucro, a riqueza e o acúmulo de bens leva o ser humano a uma guerra contra o planeta, que é sua própria casa: por primeiro, vem o avanço sobre os recursos naturais, como no início da colonização do Brasil em que a madeira e outros bens foram dizimados; depois vem a degradação ambiental. A História não mudou em 500 anos: todos os brasileiros sabem que a Amazônia tem importância vital para a humanidade por causa das florestas, da biodiversidade, do equilíbrio climático, no entanto, o que se vê é o avanço do desmatamento sobre esse bioma, que é grande, mas não inesgotável.
O Brasil cria leis ambientais e, em alguns casos, recua como no Código Florestal, em discussão no momento, ou desrespeita suas próprias leis, fazendo obras que causam impacto negativo irreversível para as futuras gerações. Além disso, persistem as queimadas, a poluição dos rios, a matança de animais, que provocam nas aldeias doenças e necessidade de constante readaptação para a sobrevivência. Essas ações, somadas à pressão sobre as terras indígenas, não são resultados da falta de informação, mas da ganância que ignora qualquer argumento de defesa do meio ambiente.
A cada ano, líderes indígenas, extrativistas, ribeirinhos, religiosos e outros defensores da floresta são perseguidos e até mortos por defenderem a vida do planeta como um todo. Os povos indígenas sempre lutaram pela preservação ambiental, através da orientação informal ou das discussões com setores do governo e da sociedade, como também da mídia. Talvez o grande problema seja a falta de credibilidade que sofrem os sábios indígenas.

Espiritualidade e ética do cuidado
Nas aldeias do Brasil, a discussão ambiental não é novidade, porque a educação indígena inclui o cuidado dos recursos naturais e isso está muito relacionado ao modelo da sociedade indígena, onde a competição, a riqueza e o acúmulo de bens não têm valor, por isso ao pescar, colher frutos na floresta ou recolher material para usos diversos, se retira apenas o suficiente para o dia, porque se sabe que amanhã a natureza vai oferecer, mais uma vez, o necessário. 
O modelo de convivência nas aldeias tem sido reconhecido e valorizado nos últimos anos e as conquistas dos povos indígenas nos acordos internacionais se devem a esse reconhecimento. O objetivo da presença indígena em fóruns e eventos ambientais é dar a conhecer a espiritualidade que vê a vida como um todo. Essa crença vai desde os rituais até as manifestações do sagrado na natureza, o que leva à preservação e ao cuidado.
No Brasil, já existem um reconhecimento e uma valorização da espiritualidade tradicional: os povos indígenas têm participado de discussões importantes, como as conferências sobre meio ambiente, biodiversidade, mudanças climáticas e outras. Muitas decisões tomadas pelos governos são resultados de consultas regionais e nacionais, em que as lideranças indígenas reafirmam sua espiritualidade e seu modo de ver a grande casa de todos nós.

Cidadania e participação política
Em 2009 foi aprovado um projeto de gestão ambiental dos 110 milhões de hectares de terras indígenas do Brasil. O projeto foi formulado por um grupo de trabalho formado por igual número de técnicos governamentais e de representantes indígenas. A etapa seguinte é a criação de um programa permanente para a gestão ambiental e territorial dessas terras. O processo teve inicio em junho de 2009, e terminou em julho de 2010, devendo ser assinado o decreto da sua criação como política pública, ainda neste ano. 
Os alertas feitos pelos povos indígenas sobre as catástrofes que ameaçam o mundo e as previsões dos cientistas sobre tempos ainda mais difíceis têm sido considerados por diversas e importantes instituições, talvez não por serem tão sensíveis, mas por estarmos vivendo evidentes mudanças. Nós, indígenas, vamos continuar na defesa de nossa vulnerável e sagrada mãe terra, sabendo que, enquanto ela estiver bem, a vida continuará a fluir em plenitude. 

* Lucio Flores – indígena Terena
Bacharel em Ciências Sociais com pós-graduação em meio ambiente e mestre em Ciências da Religião, é professor e autor do livro Adoradores do sol – Reflexões sobre a religiosidade indígena – Editora Vozes - e assessor técnico da Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira). Reside na cidade de Manaus (AM). 

Eco de vozes milenares
O Relatório da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre a Situação dos Povos Indígenas do mundo, publicado em janeiro de 2010 pelo Fórum Permanente das Nações Unidas sobre Questões Indígenas, revela que as sociedades indígenas somam cerca de 370 milhões de pessoas – em torno de 5% da população mundial – e falam mais de 4 mil dentre os 7 mil idiomas atuais. Segundo o estudo, os povos nativos, também chamados povos originários, vivem em biomas diversos e detêm uma incalculável diversidade de conhecimentos tradicionais sobre seus ecossistemas. Por outro lado, sofrem violência e discriminação e formam um terço dos 900 milhões de pessoas mais pobres do mundo, tendo como principal dificuldade a perda da terra.
A Primeira Década Internacional das Populações Indígenas do Mundo, lançada pela ONU em 1995-2004, atraiu a atenção da comunidade internacional sobre as sociedades tradicionais. A Segunda Década – 2005-2014 – vem focando a importância de os povos indígenas atingirem os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, relativos à redução da pobreza, à presença na elaboração de programas referentes aos interesses de suas comunidades, e ao que se refere à Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, aprovada em 2007.
Lucio Flores Terena *


Fonte: Diálogo 60, Outubro/Dezembro de 2010
Postado por: Diálogo




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