O planeta das águas sagradas

Data de publicação: 14/11/2018



O planeta das águas sagradas
Por, * Maria Inês Carniato

“A substância do mundo é a água” – disse o primeiro filósofo do Ocidente, Tales de Mileto, há mais de 2.600 anos. Em seu modo de ver, toda a matéria se movimenta e se conserva pela força de um princípio fundamental único e este só pode ser a água, pois ela é visível nos elementos vivos e a própria terra repousa sobre o oceano, conforme a concepção antiga. 
A ciência atual confirma a sabedoria do primeiro filósofo quando garante que a quantidade de água na Terra é a mesma há 500 milhões de anos. Isso porque ela se renova continuamente por meio da evaporação e queda em forma de chuva, neblina e neve, que enchem os rios e lagos ou voltam ao subsolo e emergem nas fontes, mantendo assim o equilíbrio no sistema hidrológico do planeta. Disso se conclui que o problema a ser enfrentado pela humanidade não é tanto a falta de água, como sim a poluição e a contaminação que inviabilizam o uso adequado dos recursos hídricos.

É oportuno refletir também acerca da perda imposta às águas pelo modo de vida das populações modernas. A sociedade consumista, ao esvaziar lagos para irrigação, destruir cataratas com os muros colossais das hidrelétricas, canalizar e murar riachos, encobrir rios e obrigá-los a correr nos subterrâneos de áreas urbanas, engarrafar, rotular e vender água de nascentes, cobrar taxas em lagos pesqueiros artificiais, danificou de modo irreparável o patrimônio psíquico, simbólico e espiritual que o imaginário das  águas, em seus cursos livres, produziu ao longo da história da humanidade. 
Ao considerarmos a água a partir das culturas, religiões e cosmogonias ou, ainda, nos mitos, nas artes, nas literaturas e nas filosofias dos povos, veremos a dimensão simbólica e sagrada que expande sua essencialidade para além do uso biológico de seus benefícios.  A noção de águas primordiais e de oceanos matriarcais é universal. Na água reside o poder cósmico, a origem e o veículo da vida. Os grandes rios são venerados como seres transcendentes em todas as regiões da terra em que se desenvolveram civilizações e religiões. Tanto as sociedades tradicionais, ainda vinculadas às florestas, aos vales, aos poços, aos rios e às quedas-d’água, que se apoiam sobre suas crenças e sistemas simbólicos ancestrais, como também as populações beneficiadas pela cultura urbana e a tecnologia moderna, conservam traços, mais ou menos evidentes e conhecidos, desta sacralidade, perceptível até nos nomes dos grandes rios da Europa, por exemplo. Os rios têm seus mitos de origem ligados a deuses e deusas: a nascente do Sena foi atribuída pelos antigos gauleses à deusa Sequana, enquanto os celtas deram nome ao Rio Danúbio em honra da deusa-mãe Danu e o Rio Ródano é ligado ao deus Erídano.

O Egito, tido como primeira civilização da História, cresceu junto ao curso do Rio Nilo, que dividia o austero deserto em duas dimensões: o mundo dos humanos e o mundo dos deuses. Durante as cheias, os egípcios festejavam a chegada de Hapy, deus da fartura. Representado com uma bandeja de frutos e flores, o deus tinha por principal símbolo o lótus-azul, uma pequena flor aquática que desabrochava com abundância nas regiões inundadas.
O Eufrates e o Tigre, que correm à direita do Golfo Pérsico, originaram a civilização suméria, atual Iraque. A região da Mesopotâmia – do grego, “entre rios” – foi habitada sucessivamente por acádios, babilônios e persas. Uma inscrição mítica da civilização acádica diz que os Igigi, deuses auxiliares do Criador Enlil, cavaram os rios com as próprias mãos. Diz um hino litúrgico de repetição:
Os deuses cavaram cursos de água.
Canais abriram para a vida na terra.
Os Igigi cavaram cursos de água.
Canais abriram para a vida na terra.
Os Igigi cavaram o Rio Tigre,
canais abriram para a vida na terra.
E depois cavaram o Eufrates.
Canais abriram para a vida na terra.
Fontes abriram sobre os abismos.
Canais abriram para a vida na terra.

Mananciais estabeleceram.
Canais abriram para a vida na terra.
Amontoaram todas as montanhas.
Canais abriram para a vida na terra.
(Citado no livro Religiões – História, Textos, Tradições, p. 813)

Os textos sagrados monoteístas elaborados no Oriente Médio entre os últimos 3 mil a 1.200 anos,  como a Bíblia hebraica, o Apocalipse cristão e o Alcorão islâmico, apontam as margens do rio como o paraíso, lugar onde o crente pode se encontrar com seu Deus e com ele conviver, usufruindo de todos os bens.
A Bíblia hebraica, no livro do Gênesis, situa o paraíso terrestre, entre quatro rios: dois míticos, o Fison e o Geon, e dois reais, o Tigre e o Eufrates. Nesta espécie de ilha coberta de árvores frutíferas, os seres humanos, no começo dos tempos, conviveram com Javé o criador, que passeava pelo jardim à brisa do entardecer (cf. Gn 2,10-14; 3,8).  O Apocalipse – livro da revelação –, escrito pelas primeiras comunidades cristãs, retorna, na última página da Bíblia, à mesma imagem das origens, quando descreve o Novo Céu da utopia cristã: um rio de água da vida jorra do trono de Deus e dos dois lados do rio, árvores da vida frutificam 12 vezes por ano (cf. Ap 22,1-2).  O Alcorão islâmico, na surata 56, narra os pormenores da recompensa reservada por Allah aos justos: ao chegarem no paraíso, passearão entre flores de lótus – sinal de águas abundantes –, no meio de pomares regados por nascentes de água, onde as árvores frutíferas entrelaçadas fazem sombra. Além dessa descrição, o Alcorão repete, literalmente, em cerca de 20 suratas diferentes, a promessa do paraíso: um “jardim abaixo do qual correm os rios”.
A civilização chinesa formou-se às margens do Rio Amarelo. Narra uma das principais tradições sagradas da China, o taoismo, que as montanhas de Kunlun, no Himalaia, escondem o palácio do mítico imperador de Jade, criador da terra. De acordo com a mitologia da criação chinesa, o mundo começou na nascente do Rio Amarelo e o imperador de Jade moldou os primeiros seres humanos com a lama do rio. Outro mito de origem chinesa atribui a moldagem das pessoas com a lama do rio às mãos da deusa Nu Kua, que é também venerada junto às nascentes do Rio Amarelo.
O Ganges, rio sagrado da Índia, personifica a deusa Ganga Mã, a que “corre veloz”, em sânscrito. Conforme os cânticos védicos, a deusa foi enviada à terra pelo deus Shiva com a missão de purificar as pessoas dos pecados e dar-lhes chance de salvação.  No mundo dos deuses, corria um rio caudaloso e nele desabrochava a flor de lótus, onde Brahma pousava os divinos pés. Quando Brahma criou as pessoas e elas passaram a matar umas às outras, o deus Shiva assumiu a tarefa de conservar a vida humana e fez com que o rio eterno entrasse suavemente na terra, pelas fontes que descem da Tchomo Lungma, a deusa-mãe das montanhas – mais tarde nomeada pelos colonizadores da montanha do Everest – o ponto mais alto da terra.
Desde milhares de anos, peregrinos visitam o templo de Ganga Mã, situado no coração do Himalaia, a poucos quilômetros da primeira nascente do Ganges e, em toda a Índia, santuários ladeiam as margens sagradas e as pessoas procuram nas águas purificadoras a libertação de suas culpas e a chance de uma vida feliz após a morte.
Hino às águas da vida
Águas, vós sois aquelas que nos trazem a força da vida.
Pelo nosso bem-estar, que as deusas sejam de ajuda para nós,
que elas causem saúde a verter sobre nós.
Governantes sobre todas as pessoas, as águas são aquelas
a quem eu peço cura.
O Soma contou-me que dentro das águas
estão todas as curas.
Águas, fazei de vossa cura,
como uma armadura para o meu corpo
para que possa ver o sol por muito tempo.
Águas, levai para longe
tudo o que se tornou mau em mim,
o que eu tenha feito de forma maliciosa
ou qualquer mentira que eu tenha jurado.
Eu procurei hoje as águas.  
Oh, Agni, cheio de humildade,
Vem e inunda-me de esplendor.
(Hino Ap-Sukta – Rgveda, 10.9 – recitado pelos fiéis hindus ao entrarem nas águas do Ganges).

Fonte: Diálogo 60, Outubro/Dezembro de 2010
Postado por: Diálogo




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