Religião e Ciência: experimentações

Data de publicação: 14/11/2018

               
Religião e Ciência: experimentações
Por, Leila Marrach Basto de Albuquerque *
                                                                                 
Apresento neste artigo alguns dos modos como a ciência e a religião vêm se relacionando no contexto daquilo que se convencionou chamar de pós-modernidade, essa alforria e vertigem que tomou conta dos pensamentos. Recorro à noção de natureza, seja como ambiente, biosfera, seja como corpo, por considerar que esses dois sentidos, ao indicarem a posição do homem no cosmo, são centrais nas narrativas científicas e religiosas. 
As concepções de ciência e de religião são aqui desvinculadas de uma suposta racionalidade epistêmica exclusivista, para expressarem a sua racionalidade social. Nessa perspectiva, são vistas como instituições sociais; e as explicações que oferecem, como socialmente construídas.
           
Ciência e Religião

Religião e Ciência são interpretações do mundo que orientam os modos de agir, sentir e pensar das pessoas coletivamente. Pode-se dizer que na origem da Idade Moderna ficou estabelecido que a fonte de todo erro, ignorância e ideologia se encontrava na religião.
A religião tem atributos como a imemorialidade, a tradição, a fé e a devoção, que foram considerados incompatíveis com o espírito crítico, com a objetividade e com o materialismo do pensamento científico. Já a modernidade inaugurava um novo mapa da realidade no qual não caberiam tais coisas, pois procurava sua universalidade neste mundo e para todos os homens.
Esse processo expressa uma filosofia da História, que esperou o triunfo da razão sobre a crença e a fé. Toda a modernidade se constituiu, na verdade, em um grande esforço em vista desse objetivo. As virtudes da racionalidade científica serviram de legitimação para a tecnocracia, o colonialismo, a secularização do Estado e a expansão da civilização ocidental no seu avanço sobre os hábitos tradicionais dos povos, a comunidade, as religiosidades e as maneiras de organizar a sobrevivência. Pode-se afirmar que a ciência esperava substituir os modos culturais de viver e de morrer, amplamente lastreados em concepções encantadas da realidade.
A ciência é uma atividade complexa e compreende uma visão de mundo, uma metodologia, financiamentos e avaliações.  Ao longo do tempo ela foi se transformando em resposta às questões que lhe impunha a sociedade e, nesse sentido, as visões de ciência vigentes decorrem de experiências particulares ou de concepções anacrônicas construídas em situações específicas que retratam parcialmente a sua natureza. Assim, podem-se identificar diferentes visões da ciência que expressam a variedade das experiências científicas.
As visões oficiais a definem como um empreendimento em busca da verdade, por um lado, e como fonte de tecnologia na sua versão tecnocrática, por outro. Porém, ao lado dessas perspectivas nasceram outras que lhe dirigem severas restrições: a crítica humanista e a perspectiva que vê a ciência como um trabalho “sujo”. Dessas últimas emerge uma proposta de prática científica denominada de ciência crítica, que almeja desenvolver uma nova filosofia da natureza e do ser humano nela inserido.
Decorrente dos movimentos sociais do pós-guerra, a ciência crítica vem deslegitimando versões científicas da realidade e estimulando a procura de novos fundamentos do conhecimento que definam uma ética para o homem e para a natureza. É quando as religiosidades voltam a desempenhar papel de destaque. Aliás, observa-se desde então uma busca dramática por espiritualidades.

Experimentações

Hoje o religioso se expressa na linguagem da ciência e o cientista usa a linguagem das religiões. Identifico, aqui, algumas situações que combinam os recursos da ciência e da religião nos cuidados de si e nos modos de pôr ordem no mundo.
Filósofos esperam construir uma prática científica mais gentil com o auxílio de ideias religiosas. Sociólogos, antes marxistas, se voltam para o Oriente à procura de sabedoria. Concepções de uma natureza animada e panteísta inspiram projetos ambientalistas. Astrônomos explicam o universo pelo seu poder criativo. Astrólogos auxiliam psicólogos na tarefa de tornar as experiências humanas menos penosas. Médicos atestam a importância da religiosidade no tratamento e na cura de doenças. Cientistas identificam equivalências entre o misticismo oriental e os modelos mais avançados da Física. A compreensão da Física Quântica é comparada ao estado de iluminação budista. Ondas, moléculas e átomos adquirem sentidos transcendentes, distantes do materialismo científico, e o criacionismo substitui, nas escolas, a ideia de evolução.

Pistas
     
Que pistas esta “folia” nos oferece?
•Já se disse que existem muitas modernidades. Poderíamos então dizer que existem muitas ciências e muitos modos de o pensamento científico se relacionar com a religião.
•A apropriação de conteúdos culturais distantes da tradição ocidental moderna por intelectuais e cientistas favorece a sua ressignificação no âmbito do paradigma da modernidade e os legitima para amplos segmentos sociais. Ao mesmo tempo, dá passagem a uma sacralização da natureza, redesenhando a cosmologia e as corporeidades ocidentais.
•A migração das questões relativas ao meio ambiente dos movimentos sociais para as universidades e os partidos políticos domestica suas motivações originais e põe em jogo novas categorias de entendimento e novos arranjos entre campos de conhecimento e tradições culturais. 

Conclusões

As discussões sobre religião e ciência centradas no âmbito da epistemologia ocultariam um núcleo político representado por grupos cujos interesses estariam voltados para definir quem vai, no futuro, controlar o mundo. Enfim, pode-se definir as experiências científicas e religiosas do século 21 como uma longa e inacabada crise de legitimidade das grandes narrativas.

 * Leila Marrach Basto de Albuquerque
Graduada em Ciências Sociais, mestra e doutora em Sociologia e professora na Unesp (Universidade Estadual de São Paulo), de Rio Claro (SP), coordena o Grupo de Trabalho Religião e Ciência: Tensão, Diálogo e Experimentações da Associação Brasileira de História das Religiões e é pesquisadora do Núcleo Religião e Sociedade do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP.

Referências bibliográficas
BURTT, Edwin A. As bases metafísicas da ciência moderna. Brasília: Editora     Universidade de Brasília, 1983.
CAMPBELL, Collin. A orientalização do Ocidente: Reflexões sobre uma nova teodicéia     para um novo milênio. Revista Religião e Sociedade, nº18. Petrópolis. Vozes, 1997.
PROGOGINE, Ilya & STENGERS, Isabelle. A nova aliança: a metamorfose da ciência.     Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1984.
RAVETZ, Jerome. Scientific Knowledge and its Social Problems. New York: Oxford     University, 1979.


Saiba mais

Teologia e Ciência
Diálogos acadêmicos em busca do saber
Organizadores: Afonso Maria Ligório Soares e João Décio Passos
Coleção: Religião e Universidade
Código: 514039
Número de páginas: 344
Paulinas Editora

                                                           
                                              

Fonte: Diálogo 58, Maio/Julho 2010
Postado por: Diálogo




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