Música cigana, eco de liberdade

Data de publicação: 16/11/2018



Música cigana, eco de liberdade

Por, Nicolas Ramanush *

Para entender a música cigana, que tem cerca de 6 mil anos de trajetória, originada no vale do rio Indo e influenciada pos várias culturas, faz-se necessário compreender a nossa origem étnica.
Éramos uma casta do norte da Índia que cultivava uma forma musical específica. O nosso clã, o Sinto Valshtike, conserva a crença em ritmos encantados que curam determinadas doenças. Contudo, em alguns clãs do Leste Europeu encontramos músicas utilizadas para interferência no clima, por exemplo atrair a chuva. 

Da clave sagrada para a pauta cultural
A música cigana conserva ecos primordiais, desde o ritmo declamatório do Rigveda, que significa “o hinário”, e do Samaveda, hino do canto ritual, entoados em sânscrito, em honra dos deuses hindus, há milhares de anos, até a influência vibrante e colorida da música árabe do século 16.
Ao empreendermos o grande êxodo para o Ocidente, passamos a adotar a música e os instrumentos dos países nos quais fomos vivendo ao longo dos séculos. Aprendemos novas canções, cujo significado era transmitido de forma oral, traduzido para a língua romani e executado no estilo cigano. Na Andaluzia, ao sul da Espanha, por exemplo, aprendemos o flamenco, um estilo de música e de dança com raízes judaicas e mouras, que passamos a executar publicamente, já com o toque cigano.
Ao ouvir os nossos instrumentos, o povo recordava-se das melodias que foram entoadas por seus antepassados e que, pelas mãos ciganas, pareciam adquirir um acorde mágico. E assim, o som do violino ou do violão cigano se tornava necessário para os camponeses no fim do dia, após o cansaço do trabalho. Um grande atributo do músico cigano é a habilidade de sentir com que humor se encontra o seu público ouvinte e tocar a música mais apropriada.

Instrumentos e gêneros da música cigana
Os instrumentos mundialmente mais tocados pelos ciganos são: violino, acordeom, clarinete, guitarra, baixo, gaita de foles e o címbalo composto de uma caixa grande com cordas de metal tensionadas na parte superior; é um instrumento musical culturalmente comum nas nações do Leste Europeu.
É justamente essa variedade de instrumentos que permite ao cigano executar desde a música folclórica, passando pelo jazz, até as composições clássicas. A forma  própria dos ciganos  tocarem é a combinação da velocidade com o improviso. Em virtude de tão vasta diversidade, pode-se afirmar que as principais características da música cigana são os seus gêneros, provenientes de várias regiões por onde este povo de músicos passou em sua secular trajetória rumo à liberdade.
   “Cigányzene” – Trata-se de um tipo de música com elementos folclóricos da Hungria, tocada por ciganos húngaros. Tem notoriedade mundial desde o século 19.
    Flamenco – É um termo do século 18 que sugere a ideia de “arrogante e pomposo”, comparando a dança cigana aos movimentos da ave aquática flamingo. Embora os artistas da dança e da música flamenca não sejam necessariamente ciganos, muitos dentre os mais famosos pertenceram a um clã cigano.
    Csardas – Termo húngaro que significa “taverna rústica”. Refere-se ao local em que nasceu esse gênero de música cigana, na Hungria do século 18, onde ocorriam as danças chamadas de verbunkos, cujo compasso foi modificado pela influência da música rápida dos ciganos húngaros.
    Khelimaski gili – É o nosso gênero mais tradicional e, podemos dizer, mais puro. Ainda é muito executada pelos clãs ciganos Lovara e Kalderash. Na língua romani, os termos khelimaski gili significam “música para dançar”. É fácil, portanto, entender que a rapidez dos compassos está associada ao que as pessoas chamam “alegria cigana”.
    Loki gili – Trata-se do segundo principal gênero de música cigana tradicional. É a canção lírica e lenta, muito tocada pelos ciganos da antiga Valáquia, atual Romênia, e pelo clã Lovara da Hungria. Em húngaro era denominada de gili mulatoso, que quer dizer: “celebrar a si mesmo”.
    Rompop ou música cigana popular – Surgiu na década de 1960, quando os elementos populares passaram a fazer parte das influências que a música cigana recebeu no mundo todo. Os instrumentos elétricos e as novas letras cantadas em romani mudaram significativamente o modo da composição e da execução das músicas ciganas, antes um tanto anacrônico. A popularidade do jazz manouch, criado por Django Reinhardt, um músico belga que aprendeu os primeiros acordes em um acampamento do clã Sinto Valshtike, no sul da França, durante a 2ª Guerra Mundial; ou o rap cigano tão bem desenvolvido, pelo cigano húngaro, LL Junior, na música “Korkoro”, que significa “sozinho”, em romani, são os melhores exemplos de música cigana pop da atualidade.

Acordes ciganos na corte e nas ruas do Brasil
A presença da música cigana na cultura brasileira é algo histórico: “Animaram a festa de casamento do imperador dom Pedro I com a imperatriz dona Leopoldina... Já no período áureo da monarquia no Brasil, de 1808-1818, foram sempre convidados a participar das comemorações da corte”– afirma o livro Cancioneiro dos ciganos, publicado no Rio de Janeiro em 1885 pelo folclorista baiano José Alexandre Mello Moraes Filho, o primeiro pesquisador a estudar a contribuição cigana para a diversidade musical do Brasil.
Nos séculos 16 e 17, diversos grupos ciganos chegaram ao País. A princípio, nos estados da Bahia e de Minas Gerais, na região de Congonhas do Campo. Do século 18 são os primeiros registros da presença cigana nos estados de São Paulo e do Sul do País. Mas sabe-se que as famílias, ainda que não fossem citadas oficialmente como sujeitos da História e da cultura da nação, peregrinavam e acampavam em todas as direções, contribuindo com sua cultura, para fazer da pátria brasileira o seu horizonte de liberdade. 
O violão é um instrumento indiscutivelmente ligado à música popular e folclórica do Brasil e a Bossa Nova é um gênero musical brasileiro mais conhecido em todo o mundo. Afirma-se popularmente que foram os portugueses quem introduziram a guitarra espanhola na música brasileira, no século 18, e aqui a chamaram de violão. O que poucos sabem, porém, é que o instrumento foi trazido em nossa bagagem, nas galés portuguesas, já em 1574, ano em que um primeiro registro oficial, o alvará do rei dom Sebastião, notifica o embarque de João Torres e sua família, pertencente ao clã cigano Calon.
   
•    Nicolas Ramanush
Cigano do clã Sinto Valshitike – antropólogo, linguista, músico e professor universitário.


Conheça mais
ADOLFO, Sérgio Paulo. Rom: uma odisséia cigana. Londrina: Editora UEL (Universidade Estadual de Londrina), 1999.
ARISTICH, Jordana. Ciganos: a verdade sobre nossas tradições. Rio de Janeiro:     Irradiação Cultural,     1995.
CAMPOS, Cláudia Camargo de. Ciganos e suas tradições. São Paulo: Madras, 1999.
COSTA PEREIRA, Cristina da. Os ciganos ainda estão na estrada. São Paulo: Rocco, 1996.
FONSECA, Isabel. Enterrem-me em pé ? A longa viagem dos ciganos. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
FRASER, Angus. História do povo cigano. Lisboa: Editorial Teorema, 1997.
GASPARET, Murialdo. O rosto de Deus na cultura milenar dos ciganos. São Paulo: Paulus, 1999.
MACEDO, Oswaldo. Os ciganos. Natureza e cultura. Rio de Janeiro: Imago, 1992.
MORAIS FILHO, Alexandre José de Melo. Os ciganos no Brasil e cancioneiro dos ciganos. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981 (reedição do original de 1885).
MARTINEZ, Nicole. Os ciganos. Campinas: Papirus, 1989.
SERRA, João Pavão. Filhos da estrada e do vento. Lisboa: Assírio & Alvim Cooperativa Editora e Livreira, 1986.



Fonte: Diálogo 57, Fevereiro/Abril 2010
Postado por: Diálogo




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