Danças Circulares Sagradas

Data de publicação: 05/12/2018

Danças Circulares Sagradas como Re-ligação de Saberes.

Por, Shirley Monteiro de Melo *

Os ritos dançados sempre existiram e existem como expressão mítica que vem traduzir ao longo do tempo, a trajetória antropológica sob a forma de movimentos coreográficos e sentimentos coletivos; assim trataremos aqui das danças de roda conhecidas como Danças Circulares dos Povos, também chamadas de sagradas.
Atualmente, grupos de pessoas desta aldeia globalizada que hoje é o planeta Terra procuram através da prática das Danças Circulares Sagradas, reintegrar e suavizar a fragmentação de suas vidas nas turbulências do cotidiano, como forma de ritualizar e fortalecer um re-encantamento pelo mundo, pautado pelo sentimento de solidariedade para com a nossa casa Terra, em sua diversidade cultural.

Prática educativa integral
Considerando as teorias do médico Carl Gustav Jung (1875-1962) acerca do desenvolvimento da personalidade em seus aspectos cognitivos, emocionais e sociais, lembramos as recomendações deste autor quanto a necessidade de planejamentos pedagógicos que possibilitem o estímulo das quatro funções mentais básicas para o pleno desenvolvimento humano, ou seja: A função sentimento, a função pensamento, a função sensação, e a função intuição.
Desta forma, por serem vivenciais, simbólicas e bastante envolventes, acredito que a prática das Danças Circulares Sagradas propicia espontaneamente a experiência integrada destas quatro funções mentais. Originadas nas mais diversificadas culturas do globo terrestre, tanto no oriente como no ocidente, estas danças sempre estiveram presentes como elemento de harmonização social-comunitária, marcando ritos de passagem, ou representando a evolução cíclica da vida humana plenamente integrada aos ritmos da natureza.
Geralmente representadas pelas espirais, e os vários movimentos da roda dançante, esta prática comunitária presente não só na história, mas no próprio Inconsciente Coletivo da humanidade, pareceu exercer desde a antiguidade uma função social próxima do que hoje poderia-se comparar à uma Ecologia Social.
Estudos que analisam a vida social sob o enfoque dos mitos e ritos cotidianos, evidenciam o sagrado como uma realidade antropológica, na medida em que todas as sociedades desenvolvem essa noção. Desta forma, a vivência da espiritualidade fazia parte dos saberes e fazeres cotidianos, e as Danças Circulares nesse contexto, ajudavam a fortalecer valores coletivos e subjetivos, como ritual de apropriação dos sentidos da vida.
Inseridas no imaginário cotidiano, e como função simbólica mediadora da compreensão da existência, as Danças Circulares dos Povos de diferentes culturas mantiveram vivas na humanidade as capacidades de religação entre natureza e cultura, entre terra e céu, e entre sagrado e profano. Assim, vários estudos de pós-graduação e pesquisas, já desenvolvidos acerca destas danças, evidenciaram que as forças arquetípicas e gestuais presentes nas danças de roda e de espiral representam a re-ligação entre corporeidade, afetividade, sentimento comunitário e espiritualidade, integradas aos ritmos e às lições da natureza, atuando assim como força ritual comunitária e social.

Os efeitos simbólicos das Danças Circulares
É sabido que a dança foi uma das primeiras manifestações artísticas da humanidade. Nos clãs, nas aldeias agrícolas, nas tribos indígenas, nas aldeias de pescadores, e mesmo nas festas reais, Danças Circulares marcaram ritos de colheita, casamento, nascimento, e morte, com o fim de re-conectar as pessoas ao poder criador de renovação, fortalecer a comunidade através da alegria fraternal, ou ainda, através da percepção dos ciclos divinos na natureza.
Particularmente as Danças Circulares dos Povos, ou Danças Circulares Sagradas mais tradicionais são repletas de símbolos de transformação, como o próprio círculo, o centro, a espiral, a polaridade dos opostos, a árvore, os quatro elementos da terra, a lua e o sol como casal sagrado, o cesto trançado, e tantas outras simbologias ancestrais que conferem, particularmente a estas danças, uma capacidade inconsciente de reintegração, que é também socializante, por sua força arquetípica. 
Assim, a própria simbologia gestual da maioria das coreografias suscita  movimentos complementares de expansão-abertura, e contração-fechamento da roda, como uma mandala viva que embala cada indivíduo no coletivo, gerando cumplicidade e alegria. Como estes movimentos, há outros mais que suscitam diferentes associações na dinâmica subjetiva emocional de cada pessoa; assim diante do estímulo simbólico que atua no inconsciente, diversos  níveis perceptivos de transcendência e imanência podem ocorrer entre os participantes das rodas que dançam.
Os deslocamentos intercalados entre a direção horária e a anti-horária, o soltar-se das mãos do outro, para seguir dançando consigo mesmo, retomando-se em seguida as mãos dadas em coletividade; a abertura expansiva, ou o fechamento acolhedor ao centro, todos são movimentos pulsantes que reproduzem os ritmos cósmicos da vida. Dessa forma, as Danças Circulares com suas belas melodias marcadas por sequências rítmicas, levam as pessoas ao alcance de estados psíquicos envolventes e não-verbais que caracterizam estados meditativos em movimento, muito benéficos para a saúde,  prevenção do estresse, e  concentração nos estudos.

Danças Circulares Sagradas na cultura brasileira
É preciso que se diferencie danças étnicas de danças folclóricas. As danças indígenas e afro-brasileiras, enquanto rito sagrado evidenciam seu elo ancestral bastante preservado, por serem vivenciadas como tradições sagradas de um povo, sendo assim étnicas.
Já as danças folclóricas se caracterizam como espetáculos, como uma apresentação teatral, embora se enraízem nos costumes dos povos.
No Brasil algumas danças indígenas sagradas, ainda são vivenciadas cotidianamente por algumas tribos. Segundo a pesquisadora Lúcia H.H. Almeida (2005) algumas destas danças étnicas, indígenas, são realizadas em círculo, outras em linha

Princípios essenciais para a educação escolar
Ao pensarmos o trabalho com as Danças Circulares, como ferramenta vivencial para o Ensino Religioso, alguns princípios éticos devem ser preservados. Trata-se de destacar nas danças, a mensagem e a intencionalidade simbólica que expressam, citando-se também suas origens históricas.
Alguns princípios essenciais dos trabalhos com Danças Circulares, na saúde ou na educação são: Evidenciar as músicas tradicionais, as étnicas, as clássicas, e as  cirandas populares; dançar de mãos dadas; cantar as raízes e tradições dos diversos povos e culturas do planeta; proporcionar o contato com a natureza, uma vez que dançando com a atenção voltada para o ar, a terra, e demais elementos naturais, potencializa-se os benefícios psíquicos relacionados à função transcendente da mente.
Os passos da dança vão dos simples ao mais elaborados, e embora seja essencial  preservar a autenticidade e o simbolismo da mensagem coreográfica original, o enfoque não deverá ser a técnica nem a ausência de erros, mas sim, o sentimento de ser parte da roda, e o espírito comunitário que se instala quando todos de mãos unidas, apóiam-se entre si, levados pelo movimento da dança sagrada.
Suavemente, em momentos intercalados de alegria coletiva e de introspecção, a pessoa que está na roda, inconscientemente, estará em sintonia com duas polaridades da existência: o mundo interno, e o mundo externo das relações. Assim,  no devir da dança que inclui a intencionalidade do sentimento do sagrado, com silêncio e integração, surgem a harmonia e a paz, como reflexos das atitudes de interiorização e cooperação; de forma que estas vivências correspondem ao alcance inicial da dimensão espiritual da psiquê, de que nos fala Carl Gustav Jung.
Em síntese, consideramos bastante indicado para o Ensino Religioso de crianças e adolescentes, a aprendizagem vivencial e teórica das Danças Circulares Sagradas dos Povos, como uma prática pedagógica própria da “educação de sensibilidade”, pautada nos valores epistêmicos de uma “razão-sensível”, lembrando que, no dizer de Jalâl al-Dîn Rûmî – místico muçulmano sufi: “Toda a criação dança... O riso, a dança, e a alegria são os três arcanjos que nos acompanham no caminho em direção aos deuses ... Dançar apazigua o Ego e libera-nos o caminho em direção ao Ser integral e cósmico ( WOSIEN, M.G, 2002).” .

* Shirley Monteiro Melo.
Psicóloga e Bióloga, Mestra em Ciências das Religiões.
Contato: sh.mm@terra.com.br
     
Referências Bibliográficas
ALMEIDA, Lucia Helena Hebling. Danças Circulares Sagradas: Imagem corporal, qualidade de vida e religiosidade segundo uma abordagem Junguiana. Tese de Doutorado - UNICAMP. Campinas, SP: teses, 2005.
CEMIN, Arneide Bandeira. Imaginários, mito e religião: A manifestação do sagrado. In: Labirinto revista eletrônica do Centro de Estudos do Imaginário, 2006. Disponível em: www.cei.unir.br/artigo.
DURAND, Gilbert. A Imaginação Simbólica. São Paulo: USP- 1988.
ELIADE, Mircea. Imagens e Símbolos: Ensaio sobre o simbolismo mágico-religioso. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
JUNG, Carl Gustav. Psicologia e Religião. Petrópolis: Vozes, 1976.
      Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000.
LOWEN, Alexander. A espiritualidade do corpo. São Paulo: Cultrix, 1990.
MAFFESOLI, Michel. Deontologia. In: Elogio da razão sensível. Tradução de Albert Christophe Migueis Stuckenbruck. Petrópolis, RJ: Ed. Vozes, 1998.                  WOSIEN, Gabrielle. Danças Sagradas: Deuses, mitos e ciclos. São Paulo: Triom, 2002.


Fonte: Diálogo n 57 fev/abr 2010
Postado por: Diálogo




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