O sagrado como sentido transformador

Data de publicação: 05/12/2018


Por, Cléber Seixas Guimarães *

O antropólogo britânico, James George Frazer (1854-1941) diz no livro O ramo de Ouro (1890) que o processo evolutivo filosófico da humanidade ocorreu em três situações: na Magia, na Religião e na Ciência. Ao sistematizar a vida humana, a religião incorporou na visão cósmica um sentido natural e sobrenatural, que, interagindo com o mundo, passou de certa forma a dominá-lo, ao passo que, por outro lado, precisou-se adequar às mudanças ocorridas no âmbito de sua relação com ele.

Um exemplo de eficácia na oferta de sentido
Ao analisar o comportamento moderno, o sociólogo alemão Max Weber (1864-1930), percebeu na ação dos indivíduos um viés pragmático, hierárquico e burocrático, moldado em princípios capazes de oferecer sentido à vida, o que, na esfera religiosa, Max Weber interpretou como “imagens do mundo”, expressão que deve ser compreendida como “arquétipos de conduta” orientados para os dilemas do cotidiano, algo dotado de um poder capaz de renovar e organizar o modo de ser do indivíduo.
A partir da concepção de Weber, analiso o modo como a IEQ (Igreja do Evangelho Quadrangular) adequou-se às transformações de uma sociedade em descontinuidade, por consequência dos expressivos problemas provenientes da exacerbada racionalização, informação e tecnologia que interferem nas práticas políticas, econômicas e sociais, como diz o sociólogo inglês Anthony Giddens.
Apreende-se que quanto mais intensa for a relação sagrado-profano maior será o grau de exigência pretendido no equilíbrio entre as respostas às questões profanas e, por conseguinte, a prática religiosa. Por esse ponto de vista, a racionalidade nos cultos religiosos precisa ser ágil na solução de dilemas diários. Sanar as “feridas” da membresia requer habilidades não só teológicas, mas, sobretudo, mágicas. Não é só a palavra de Deus que conforta espiritual ou materialmente o fiel, mas também os ritos e crenças manifestados na prédica do pastor e nos elementos mágico-simbólicos (música, óleo de unção e outros), que catalisam a compreensão necessária para alcançarem o plano divino, posto que os fiéis passam a experimentar, através dos sentidos, a relação com o mundo subjetivo celestial.
A experiência religiosa da IEQ manifesta não apenas a racionalidade weberiana no sentido de valor ou de fins, mas, ao mesmo tempo, agrega elementos mágicos que servem de pontes entre o indivíduo e seu Deus. Seja qual for o sentido, a relevância desse contexto centra-se na capacidade que a religião tem de motivar, transformar e adequar o homem à sua realidade empírica.

O culto religioso desperta a experiência transformadora
Ao começar o culto da IEQ, enquanto as pessoas levam o dízimo até o altar, a música cria uma atmosfera harmoniosa que flui pelo ambiente e é visível nos semblantes e no entusiasmo particular dos indivíduos, que cantam e reproduzem em vozes e gestos os movimentos que envolvem a assembleia. Frases de efeito, como “Deus escolheu você”, “Deus quer transformar sua vida”, são pronunciadas pelo pastor e repetidas pelos cantores. A comunidade canta, produz-se no templo uma atmosfera fantástica, uma espécie de energia irradia-se pelo local.
Alguns dançam no próprio lugar, com olhos fechados; outros parecem murmurar. O pastor alterna as palavras de louvor, marcadas pelo ritmo da música que reverbera e se expande em forma de energia emanada na assembleia. Em certo momento, a sonoridade dos instrumentos diminui e o pastor interpreta aquele instante, dizendo: “Deus está aqui”; “Ele quer curar você, meu irmão”. Movidas pelo clima de profunda exaltação, as pessoas parecem tomadas de algo extraordinariamente mágico, especial. 
A pregação reúne argumentos de sabedoria humana e de natureza sagrada. O pastor toca em particularidades do bairro e dos que ali habitam, com linguagem de fácil compreensão, de modo que o dia a dia do indivíduo é orientado pelos valores morais e éticos que ele recebe da instituição religiosa e que passam a permear sua vida. Transformado, deseja ajudar os que o rodeiam, espiritual e materialmente. Ocorre uma transformação do ser: quem era amorfo ante situações insustentáveis e das quais não tinha forças para sair, agora se revela capaz de viver o cotidiano com equilíbrio.
A religião resgata o que a sociedade perdeu
O que ocorre no culto da instituição religiosa demonstra que a secularização não propõe sentido de vida e não consegue promover - como coisa mágica - a emoção que resgata o gozo de viver o cotidiano. Na verdade, os elementos mágicos atuam como pontes que ligam o indivíduo a seu Deus. Agem como referenciais promotores de conduta, na esperança de conduzir ao espaço sagrado em que seu Deus habita. Durante o culto, a música, os símbolos – elementos mágicos - são sintetizados no louvor que dá ao indivíduo o poder de criar uma sinergia com a divindade. Nesse contexto, os elementos mágicos criam a ponte, os “meios” que são absorvidos também pelos sentidos e produzem na comunidade a experiência religiosa.
O que se verifica nesta relação é que a concepção teológica do sagrado não mudou, tampouco a IEQ suprimiu a cosmogonia, mas algo notável surge no interior da instituição: o uso da teofania como meio de exteriorizar a força transformadora de seu Deus na vida da membresia. O sagrado molda-se à relação com o mundo da vida, condição sine qua non para explicar o cotidiano. O indivíduo aparece renovado e motivado a mudar o seu modo de agir com referência à sociedade. Isto não implica-se excluir das relações sociais mais amplas como trabalho, lazer, etc., mas reaver o equilíbrio entre o campo religioso e a sociedade profana, digamos, orientado por um sentimento ético-moral que interage nas diversas dimensões da existência.

A Fundadora da Igreja do Evangelho Quadrangular, Aimée Semple MCPerson, nasceu em 1890, no Canadá. Casada com um missionário evangelista, foi com ele para a China, onde ficou viúva. Vindo para os Estados Unidos, continuou em sua vida missionária itinerante, até 1923, quando fundou em Los Angeles a Igreja do Evangelho Quadrangular. O templo por ela construído foi sede de seu ministério evangelístico até a data de sua morte, em 1944, e hoje é sede internacional de mais de 5 milhões de pessoas, que, fiéis ao ensinamento da “Irmã Aimée”, vivem em comunidades espalhadas por mais de 140 países.     

A eficácia está no equilíbrio
A partir dessas ideias concluí que o homem precisa de um sentido, e este se encontra na espiritualidade, em algo capaz de romper a dimensão do vazio que a realidade do mundo secularizado muitas vezes exerce.   
Os modelos de conduta apreendidos em forma de “imagens de mundo”, hoje re-elaborados, permitem aos indivíduos moldarem seu dia a dia. A sociedade precisa de algo que minimize o sofrimento ou a ausência de sentido para a vida e a saída não estará só na racionalidade cartesiana, mas também em algo experimentado, capaz de ser absorvido com brevidade e de despertar sentimentos orientadores do ser. Assim, não será a ausência de uma magia no culto ou o seu repúdio que irão resolver os paradoxos de uma sociedade secularizada. Ao contrário, será exatamente a emoção latente emanada em modelos mágico-teológicos que, consubstanciada com a esfera religiosa, amalgamada em virtudes racionais valorativas, promoverá o bem-estar da comunidade.
É, pois, na conjunção de uma conduta exemplar, movida pelo interesse do sucesso do indivíduo, com sua realidade palpável do cotidiano, que a instituição procura responder aos dilemas da vida atual. É essa adaptação ao mundo secularizado que faz da Igreja do Evangelho Quadrangular uma instituição notável.

* Cléber Seixas Guimarães
Sociólogo.

Glossário 
Cosmogonia - A origem ou formação do mundo, do Universo conhecido.
Membresia – As pessoas, membros, a comunidade que participa da instituição.
Teofania - Manifestação de Deus em algum lugar, acontecimento ou pessoa.

Referências bibliográficas

BOUDON. Tratado de sociologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1995.
BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2001.
DURKHEIM, Emile. As formas elementares da vida religiosa. O sistema totêmico     na Austrália. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
FRAZER, James George. O ramo de ouro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1982.
GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: editora UNESP, 1991.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: RJ. Ed. LTC Livros Técnicos e Científicos, 1989.
HABERMAS, Jürgen. O discurso filosófico da modernidade. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
MACHADO, Maria das Dores Campos. Carismáticos e pentecostais: adesão religiosa na esfera familiar. Campinas, SP: Autores Associados; São Paulo, SP: ANPOCS, 1996.
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WEBER, Max. Economia e sociedade. Fundamentos da sociologia compreensiva - Vol. 1, Brasília, Editora da UnB, 1991.
_________. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Centauro,     2001.
BERGER, Peter. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulus, 1985.
________. Rumor de anjos. A sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural. Petrópolis:Vozes, 1997.

Fonte: Diálogo n 58 mai/jul 2010
Postado por: Diálogo




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