O Bricoleur sagrado contemporâneo

Data de publicação: 05/12/2018

 Por, Aislan Vieira de Melo *

Dados de 1996 mostraram que pelo menos 26% da população brasileira adulta já passou por uma conversão religiosa. O fato comprova que não é tão recente o fenômeno da migração das pessoas entre as Igrejas ou outras tradições espirituais. Os critérios que servem de paradigma para a conversão variam, porém, não ultrapassam a esfera do indivíduo. No pensamento do sociólogo Reginaldo Prandi significa que “desde que a religião perdeu para o conhecimento laico-científico a prerrogativa de explicar e justificar a vida, nos seus mais variados aspectos, ela passou a interessar apenas em razão de seu alcance individual” e ao ser posta de lado pela sociedade que se pretende laica e racional, “a religião foi passando pouco a pouco para o território do indivíduo”.

A relação sujeito e sagrado no mundo religioso brasileiro atual
Apesar de a cultura secular conservar influências recebidas do catolicismo, as pessoas parecem não mais aceitar passivamente o que recebem como “tradição”. Acredito que o trânsito religioso no Brasil se explica pelo pressuposto de que os sujeitos estão cada vez mais solitários na reprodução de suas visões de mundo.
Porém, apesar de uma parte significativa da população preferir não se vincular institucionalmente a uma tradição religiosa, a maioria ainda possui e recria vínculos com até mais de uma instituição ou denominação. Não obstante, mesmo esse sujeito “desgarrado” – que procura recriar para si um arcabouço sagrado com o qual reconstrói sua visão de mundo e concebe as relações com o “Outro” – busca fundamentos para sua teologia privada em visões de mundo coletivas oferecidas pelas mais variadas tradições religiosas. Num mundo de fronteiras fluidas, a tendência à redefinição da identidade através de uma comunidade simbólica específica, na expressão do professor da Universidade de Pádua (Itália) Enzo Pace, é incorporada por esses sujeitos que escolhem uma religião com a qual construirão uma identidade que os distinguirá dos demais, ainda que não se filiem a ela. Por isso o sistema religioso, mesmo não conservando o caráter hegemônico de antes, mantém forte influência na conduta do indivíduo religioso.

A reelaboração do contato com o sagrado
O fim do século 20 assistiu ao boom da informação acerca de culturas longínquas trazidas pela comunicação midiática. Segundo o antropólogo Marc Augé, na medida em que o sujeito começa a receber um conteúdo sem precedentes de informações, ele passa por uma tríplice experiência, semelhante às sensações sofridas pelos indivíduos colonizados: de aceleração da História, ao tomar contato com muitos acontecimentos ao mesmo tempo; de estreitamento do espaço, ao conhecer muitas imagens e referências que o levam a se fechar em si mesmo; e da individualização de seu destino, pois as “retóricas intermediárias” estão enfraquecidas e desorganizadas. Conforme Augé, “por retóricas intermediárias entendemos os elementos discursivos próprios tanto das cosmologias tradicionais quanto dos corpos intermediários das sociedades modernas, como sindicatos, partidos e outros, que antes conferiam sentido ao mundo”.
Nesse contexto, ao sujeito resta a constante reelaboração simbólica das referências culturais que cambiam pela sociedade transnacional, num mundo em que, de acordo com o antropólogo James Clifford, se encontra a diferença na vizinhança e o familiar, no outro extremo do globo. A religião é uma dessas referências. É, portanto, sobre os símbolos sagrados que se estrutura certa concepção por meio da qual o sujeito reflete sobre os acontecimentos e sobre a conduta que deve ter para com o “Outro”. Pois tais símbolos representam tanto os valores positivos, que devem ser praticados, quanto os negativos a serem evitados; apontam tanto a existência do bem quanto a do mal, assim como a relação entre eles. Enfim, como afirma o antropólogo Clifford Geertz, é sobre as leituras desses símbolos sagrados que o sujeito religioso formula a cosmovisão para interpretar o mundo à sua volta. Nesse sentido, mais do que outrora, ele irá refletir sobre a doutrina e a liturgia da religião que professa, compará-la com outros testemunhos e elaborar uma religiosidade própria, que defino como bricoleur sagrado.

A oferta religiosa no mercado da sociedade
Os que apostam na existência de um mercado religioso acreditam que o sujeito busca proteção para todos os campos de sua vida particular; porém as religiões atuais parecem se especializar em aspectos específicos da vida (saúde, finanças, amor, espiritualidade). E, como o sujeito consumidor não encontra nesse mercado uma religião onde possa sanar suas necessidades e descansar todas as esferas de sua vida, ele usufrui dos bens e dos serviços religiosos que pode alcançar nas “prateleiras” da sociedade.
Teóricos, como Carlos Brandão e Paula Montero, trazem a ideia de que o intenso fluxo de pessoas entre as diversas tendências religiosas seria possível devido à existência de um substrato religioso que demonstraria a fragilidade dessas próprias fronteiras.
Para mim, o sujeito não percebe as opções religiosas meramente como serviços oferecidos. Prefiro acreditar que o fiel brasileiro se utiliza desse mercado usufruindo das possibilidades simbólicas de interpretação, para construir seu arcabouço sagrado com o qual conseguirá a força divina que o fará sobreviver num cotidiano onde cada um parece ter de se precaver das mazelas do “mistério” ou, então, das forças negativas enviadas pelo “outro” humano ou não.

A atração do caleidoscópio
A religião, hoje em dia, parece ter sido substituída pela religiosidade pessoal do fiel que sincretiza, ressignifica, justapõe elementos de várias visões de mundo num processo em que tudo parece se encaixar com perfeição – como a metáfora do caleidoscópio proposta pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss, em que cada novo elemento produz novas combinações.
Essa religiosidade híbrida não se deixa fixar e continua absorvendo elementos e abrindo possibilidades de interpretação do mundo. O sujeito parece ter a certeza de que as divindades não irão faltar com seus compromissos quando cultuadas da maneira correta: se os orixás precisam comer, as comidas lhes serão servidas; se os santos precisam de orações e promessas, as exigências serão atendidas...
Nessa perspectiva, o indivíduo não utiliza o serviço religioso e o troca quando o considera inútil, mas, pelo contrário, o guarda no estoque sagrado e vai bricolando uma religiosidade própria, a despeito da religião com a qual possa se identificar. Creio que a pertença religiosa contemporânea se restringe à identificação coletiva, enquanto que ao nível individual a fidelidade depende do particular de cada pessoa.

* Aislan Vieira de Melo
 Antropólogo, mestre em Ciências Sociais, professor do Centro Universitário Cândido Rondon, da Unirondon (Universidade de Rondônia) e da Unic (Universidade de Cuiabá), em Mato Grosso.

Referências bibliográficas
AUGÉ, Marc. Por uma antropologia dos mundos contemporâneos. Bertrand Brasil: Rio de  Janeiro, 1997.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Os deuses do povo. São Paulo: Brasiliense, 1986.
CLIFFORD, James. Introducción: verdades parciales. Retóricas de la antropologia. Barcelona: Júcar, 1991.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.
LÉVI-STRAUSS, Claude. O pensamento selvagem. Campinas: Papirus, 1997.
MONTERO, Paula. “Reflexões sobre uma antropologia das sociedades complexas”. Revista de Antropologia, v. 4, p.103-130. São Paulo: Edusp, 1997.
PACE, Enzo. “Religião e globalização”. In: Oro, Ari Pedro (org.). Globalização e religião. Petrópolis: Vozes, 1997.
PRANDI, Reginaldo. Religião paga, conversão e serviço. In: Prandi, Reginaldo & Pierruci, Antônio Flávio. A realidade social das religiões no Brasil. São Paulo: Hucitec, 1996, p.260.

Fonte: Diálogo n 58 mai/jul 2010
Postado por: Diálogo




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