A magia da bola e sua origem sagrada

Data de publicação: 03/01/2019


A Copa do Mundo de Futebol de 2010 celebra os 80 anos da primeira competição, ocorrida no Uruguai em 1930. O Brasil não é só o detentor do maior número de títulos, com  cinco vitórias, como também o único país a participar de todas as Copas. Isso talvez possa ser explicado pela paixão brasileira, ainda que a bola não seja uma invenção nacional.

Um símbolo de transcendência  
    O círculo, a esfera, a mandala são tidos por povos e culturas de todos os tempos como referência simbólica dos ciclos eternos dos tempos, das estações, da vida na natureza e, ainda, do mistério da existência humana e da morte.
    Em ritos sagrados dançantes e esportivos, e em treinamentos de exércitos, sempre foram usadas esferas e bolas de várias matérias-primas e diversos significados e objetivos. Foi, porém, nas civilizações da América Central e do México que este símbolo determinou uma concepção espiritual do mundo.     
    As civilizações do Novo Mundo, antes da devastação europeia, praticaram por séculos um jogo denominado pelos colonizadores espanhóis de la pelota. Foi uma prática sagrada associada a uma simbologia de manutenção da ordem cósmica, da fertilidade da terra e da estrutura política e social teocrática das cidades. Pode-se dizer que simbolizou o jogo de forças entre os deuses da vida e da morte.
      O sul do México e a América Central conservam sinais de presença humana há cerca de 20 mil anos. Com o passar do tempo, os clãs coletores, pescadores e caçadores se estabeleceram em aldeias, organizaram cidades, criaram religiões, leis e ciências, inclusive a escrita, a matemática, o cálculo, a arquitetura, a astronomia e o calendário.
        A civilização comprovadamente mais antiga na região foi a olmeca (1500-200 a.C.), cujo nome significa “povo da goma”, dos termos náhuatle: olli (goma), e mecatl (estirpe). De fato, seus sábios conheciam a produção de borracha. Outras civilizações de grande esplendor foram os zapotecas, os mixtecas, os toltecas, os tarascos e, por fim, os astecas e os maias, que deixaram mais de 1.500 centros cerimoniais sepultados na floresta por centenas de anos e descobertos nos últimos dois séculos.

A batalha das divindades
    Grandes metrópoles, como Tikal, Xochicalco, Cacaxtla e Chichen Itzá conservam sinais do jogo da bola na cultura maia com datas comprovadas entre os anos 200 a.E.C. (antes da Era Comum) e 1200 E.C. Chamado em língua maia de Ti Pitziil, ou bola que pula, o jogo fez parte de ritos associados à mitologia da criação e dos mistérios da vida e da morte; e, ainda, do sacrifício humano indispensável para a continuidade da existência.
    O Popol Vuh é uma compilação de mitos e lendas provenientes de diversos grupos étnicos da atual Guatemala, ao sul da Península do Iucatã, na América Central. Quando os conquistadores espanhóis queimaram os livros maias sob argumento de serem sacrílegos, autores anônimos reescreveram os principais mitos sobre pele de gazela, na tentativa de conservar a memória sagrada que explicava a origem do mundo e dos povos da região, bem como de entender a catástrofe da conquista espanhola à luz da transcendência.
    Vários elementos do Popol Vuh elucidam o ritual de Ti Pitziil. Uma das narrativas míticas diz que os gêmeos Hun Hunahpu e Vucub Hunahpu, filhos dos velhos deuses do céu, Ixpiacoc e Ixmucané, perturbaram os senhores de Xibalba, o mundo subterrâneo, porque faziam algazarra com uma bola de borracha, muito perto do horizonte, à beira do abismo que dava passagem para o mundo subterrâneo.
    No intuito de se livrarem dos importunos jovens celestiais, os deuses inferiores os convidaram a vir jogar no subterrâneo. Os gêmeos aceitaram o desafio e venceram a primeira partida com os senhores da morte, que, irados, os jogaram em uma caverna cheia de morcegos onde Hun Hunahpu teve a cabeça decepada por um dos ferozes animais. Na partida seguinte, Vucub Hunahpu enfrentou sozinho os adversários, que usaram em lugar da bola a cabeça de seu irmão. Estarrecido e confuso, o jovem foi derrotado no jogo e também decapitado.
    Os senhores das trevas lançaram em um rio os corpos e as cabeças dos jovens. Porém, a água subterrânea, que banhava as raízes da árvore cósmica, devolveu-lhes a vida e eles emergiram vencedores da morte. Disfarçados de andarilhos, apresentaram-se aos seus rivais e, diante deles, mataram um cão e imediatamente o fizeram reviver. Depois fizeram o mesmo entre si: um dos irmãos matou o outro e o chamou de volta à vida. Os deuses inferiores, ambicionando o mesmo poder, concordaram com a condição de passar pela morte para serem reavivados. Logo os gêmeos lhes abriram o peito e arrancaram o coração de todos eles ainda pulsando, para que nunca mais voltassem a viver. Depois disso, subiram de volta para o céu na forma do Sol e da Lua e, de lá, presidem os ciclos da natureza e ordenam ao deus da chuva que conserve a vida na terra.
Mito e vida se entrelaçam
    Muitas hipóteses explicam o simbolismo encerrado no jogo e ainda conservado nas ruínas maias, seja em estelas de pedra, no alto e baixo-relevo de paredes junto aos altares, como em vasos e outros utensílios de cerâmica e, ainda, no texto tardio Popol Vuh. A luta de adversários parece representar a luz e a escuridão, a chuva e a seca, a vida e a morte. A ideia de morte e renascimento do sol, frequente nas religiões antigas, ajuda a elucidar a importância do jogo da bola na organização social e religiosa destas civilizações.
    Os estudiosos das primeiras culturas do Novo Mundo, ao verem cenas esculpidas em pedras, retratando a decapitação de um atleta e o sacrifício de outras vítimas, cujo coração é elevado ao alto, no cimo da pirâmide-altar, divergem nas opiniões. Alguns acreditam que os sacrifícios humanos tenham sido reais e constantes e outros preferem pensar que as antigas figuras refletem apenas os personagens do mito narrado no Popol Vuh.
    Certo, porém, é que a competição com uma bola de borracha capaz de saltar à grande altura caracterizou essas civilizações e certamente foi motivo de emoção, temor, alegria e frustração para muitos, não tão diferentes do que ocorre nos dias atuais com referência ao futebol.  

Pesquisa interdisciplinar
Tema: A origem sagrada da bola
    Após a leitura do texto “A magia da bola e sua origem sagrada”, sugerir aos alunos que pesquisem sobre atividades semelhantes:
•    Kemari e Tsu-chu, no Japão;
•    Episkuros na Grécia;
•    Harpastum em Roma.
•    Na China, mais de 4 mil anos atrás os militares usavam bolas de couro em treinamentos.
•    No Egito as crianças se divertiam com bolas.

    A seguir, encontrar pontos de aproximação entre os jogos e ritos sagrados antigos e as emoções, temores, esperanças que se estabelecem entre o povo brasileiro durante a Copa do Mundo. 



Fonte: Diálogo n 58 mai/jun 2010
Postado por: Diálogo




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